Dona de uma das músicas perenes do pop brasileiro (“A roda”, estouro nacional em 1987) e uma das pioneiras da axé music (com o sucesso de “Merengue deboche”, música de seu primeiro compacto, lançado em 1985), Sarajane de Mendonça Tude tem presença garantida no imaginário brasileiro, mesmo que não esteja sempre nas TVs, nas rádios ou no noticiário.
Mas agora, depois de 14 anos sem se apresentar no Rio de Janeiro, ela chega para abrir a folia carioca com o mesmo espírito esfuziante da menina que conquistou o Brasil aos 19 anos de idade: dia 30, Sarajane participa, no Casabloco (que acontece no Jockey Club), do Baile de Novela com o bloco Fogo e Paixão. É festa para a roda abrir e enlarguecer.
— Achei o máximo, porque eles são fogo e paixão mesmo. É uma banda que traz tanta alegria, energia positiva… e que tem a cara do Rio, a cara do Brasil. Vai ser uma participação pequena, com seis, sete músicas. Vou cantar meus sucessos — avisa a cantora soteropolitana, de 57 anos, pelo telefone.
“A roda” tem sido o elo que liga Sarajane às novas gerações da música brasileira: recentemente, ela regravou a música tanto com o DJ de funk O Mandrake quanto com o DJ Matheus Bala e a cantora e drag queen Nininha, de Salvador. A baiana argumenta, inclusive, que a versão original da canção tinha elementos de funk americano, que casam bem com o funk das periferias brasileiras de hoje.
— Estou aberta ao que chega de novo, porque acho que a gente não tem que parar. O passado já passou, a gente caminha para a frente. Então, estou sempre fazendo parcerias com a galera nova aqui de Salvador, tem um pessoal de música alternativa muito bacana vindo aí — diz. — Tem a Melly, tem a Rachel Reis, tem a Nininha… A gente faz um trabalho e convida essas pessoas. O que é importante, porque o nosso público se renova também. Hoje, com a internet, apesar de tanta coisa negativa, ela nos traz essa proximidade. E o meu público tem se renovado no Brasil inteiro, tenho feito muitos shows pelo país.
‘Público de 15 anos cantando comigo’
Em 2025, no carnaval, Sarajane teve um encontro no palco com um fenômeno da música periférica, de alto teor erótico, de Salvador: o MC O Kannalha (“Ele chegou me reverenciando e aí veio aquele público de 15, 16, 17 anos, cantando junto comigo, isso é grandioso, isso é o que vale para mim”). O que a fez pensar sobre o que ela mesma ouviu dizer por aí, em 1987, quando “A roda” ganhou o país na sua voz, com versos como “tá ficando apertadinha, por favor/ abre a rodinha, por favor” e “essa dança apareceu, minha neguinha/ foi tirada de uma ave, de uma galinha/ deslizando pra frente e pra trás”.
— Eu não tenho preconceito, acho que todo mundo tem sua luz. Quando dizem “ah, mas tal música é barra-pesada”, aí eu digo: “Gente, vocês estão ficando velhos!” Porque na época da gente tinha “Rala o pinto”, tinha “Na boquinha da garrafa”, só que não era tão explícito como hoje — diz Sarajane. — Mas tinha muita sacanagem, claro, muita música machista. E tinha o Sandro Becker (cantor do hit “Julieta”) falando um monte de coisa que era duplo sentido, mas era putaria também. Não vou ouvir essas músicas, não vou mentir que gosto delas, mas tenho muito respeito pelo trabalhador. Não quero ser santa, porque ninguém é santo.
Nos últimos anos, Sarajane veio se movimentando. Em 2020, lançou o EP “Liquidificação”, com participações de Carlinhos Brown (que foi seu compositor e percussionista), Claudia Leitte, Durval Lelys, Ivete Sangalo e Margareth Menezes (que foi backing vocal de sua banda). Mais recentemente, veio o single “Um mulherão da zorra”. Durante a pandemia, ela fez sucesso com a live A Roda (“Comecei mostrando como era o meu dia, limpando a casa ou fazendo o feijão, e, quando vi, estava entrevistando vários artistas”).
E em 2025, no carnaval de Salvador, encontrou todos os amigos na homenagem aos 40 anos da axé music — um movimento que começou, oficialmente, com o “Fricote”, de Luiz Caldas.
— Eu, Ricardo Chaves, Chiclete com Banana e Banda Mel já vínhamos bem antes de Luiz, mas ele foi o primeiro a estourar nacionalmente em 1985, o ano em que fomos lançados — diz Sarajane, que começou cantando aos 14 anos no mesmo Trio Tapajós do qual Luiz Caldas era guitarrista. — Minha passagem pelo Tapajós foi curta, um mês só. E foi no Rio, fazendo campanha política, em Campos e também na capital. Foi numa época em que o Flamengo ganhou um campeonato, eu cantei na Praia de Copacabana, no trio elétrico, foi muito legal. A diretoria, os jogadores, todos subiram no trio, nunca esqueço esse dia. Mas aí eu não podia ficar no trio porque era menor de idade.
Depois disso, ela foi para o Grupo Novos Bárbaros (um trio elétrico de Salvador, não o grupo Doces Bárbaros de Caetano, Gil, Gal e Bethânia), e em 1984 saiu em carreira solo. Em seguida, aos 17 anos, a cantora teve o primeiro de seus cinco filhos. São quatro homens e uma filha caçula, Sara, hoje com 18 anos.
— Todos eles são formados e têm vidas bem-sucedidas, graças a Deus. O meu caçula hoje é advogado, trabalha no Tribunal de Justiça, faz assessoria para um desembargador. E a minha caçula tá fazendo Biomedicina, está no terceiro semestre — conta. — Eu me sinto muito honrada de ter criado esses filhos como mãe solo e de vê-los crescer, sendo bons pais, os três mais velhos têm, cada um, um filho. Quando uma mulher cria homens e mulheres bacanas, a gente vê que acertou. Cada diploma que a gente recebe de um filho é como se fosse um papel cumprido.
Os três netos de Sarajane são Luca, o mais velho, de 17 anos, que mora em Paris com a mãe (“Ele fala vários idiomas, toca guitarra bem, é um grande músico”); Filipo, de 14 (que mora na Itália, com o pai arquiteto); e Sofia, de 11. As reuniões familiares, ela reconhece, costumam ser movimentadas:
— De vez em quando tem uns pega pra capar, mas que fazem parte, senão não é família!
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Sarajane reconhece que, desde novinha, sempre foi uma velhinha. Aos 57, com tudo resolvido em relação à sua prole, ela já planeja a velhice de fato, dizendo que pensa em ir morar em uma casa de repouso. E não pensa em novos amores.
— Sempre levei esse assunto de uma forma muito leve. E a menopausa me trouxe uma sabedoria, me ensinou o amor por mim mesma. Eu tô sozinha já faz alguns anos. Não quero casar, não quero ninguém, amo estar comigo mesma. Já tive a minha parte de ser esposa, fui uma boa esposa, não tenho nenhum problema com essas pessoas com que eu me relacionei. Sou muito grata a elas, até às que me fizeram mal, porque foram os professores — defende.
Para surpresa de muitos, Sarajane se considera “assexuada”:
— Mulher que é muito carente, ela precisa se conhecer melhor, ela precisa se amar. Porque o outro não completa nada. Às vezes você está com uma pessoa, mas está sozinho, então eu prefiro e amo estar só. Eu amo não ter ninguém do lado porque eu viro a cama toda, não gosto de ninguém me agarrando. Apesar de ter cinco filhos, eu sou assexuada, está tudo certo, sempre me senti muito livre com isso.
Ela explica melhor o que chama de “assexualidade”:
— O assexual tem essa coisa: ele nunca vai para uma festa e pega alguém, ele tem que conhecer aquela pessoa profundamente para poder se relacionar com ela. E depois ele não quer mais. Ele vai pela educação daquela pessoa, pelo que ela pode passar sobre filosofia, sobre livros, sobre filmes importantes… Então, ele se apaixona por aquilo e depois não quer mais, vive como amigo. Não é todo mundo que aguenta essa viola. Então, prefiro ficar na minha liberdade. Eu amo ser assim. Se eu nascer de novo, quero nascer do mesmo jeito, assexuada.
Depressão e aumento de peso fizeram com que Sarajane ficasse afastada por dez anos da música, a partir de 1995.
— Fui fazer faculdade, estudei Turismo, de que eu gosto muito, Comunicação, Rádio e TV e Pedagogia, para entender sobre a educação. Não exerci as profissões, mas os cursos ajudaram muito. Quando eu voltei a cantar, achei tudo muito estranho, muito diferente… algumas pessoas já não estavam mais lá — conta. — Mas eu precisava dar essa parada, porque comecei a cantar com 12 anos. Eu gravava jingles na WR (estúdio do produtor Wesley Rangel, onde foram feitos os primeiros hits do axé) e ainda estudava, mas depois parei, fui me preocupar com os filhos. Só depois é que fui me informar, fazer minha faculdade.
Pedidos dos fãs para voltar
A volta à música, Sarajane credita a pedidos de “uma enxurrada de gente no Orkut”. Ela começou seus shows pelo Boomerangue, uma casa no bairro soteropolitano do Rio Vermelho, apesar de achar que não iria ninguém (“Mas logo a casa teve que fechar as portas porque estava lotado.”). Seus primeiros trabalhos nesse retorno foram no departamento do forró, com Nando Cordel.
— Todos os meus discos sempre foram muito ecléticos. Então eu trazia desde “Lili Marlene”, que foi uma música da época da guerra, a clássicos do samba, como “Pelo telefone”, de Donga— relembra. — Sempre me joguei em todos os estilos. Recebi vários títulos, como os de Rainha da Lambada, Rainha do Samba, Rainha da Axé Music, Rainha de não sei o quê… Eu dizia: “Ai, que chato, eu não gosto de ser rainha, eu gosto é de dinheiro!” E o pessoal dava risada. Então eu não me coloco em nenhum papel desse tipo, até porque acho que é de uma grande responsabilidade… e porque eu nem quero esse papel!
Depois do Casabloco, Sarajane vai para Pernambuco, a fim de participar do projeto Estação da Luz, com maestro Spock, mestre do frevo. E, no dia 17 de fevereiro, ela começa o seu bailinho Um Axé para Você, “que já está no nono ano e a gente faz aqui na Teresa Batista, no Pelourinho”.
— E para esse bailinho eu convido todos os jovens, toda a galera LGBTQIA+, a galera alternativa da música. Eu dou oportunidades, fiz isso a vida inteira, desde a época que eu conheci Chacrinha e levei vários artistas de Salvador. Aliás, eu sempre digo que, se tem um rei da axé music, se tem um pai, foi o Chacrinha, porque ele que acreditou no que eu falei — orgulha-se ela, que participou da Virada Salvador, num palco alternativo. — É um palco de jovens, da música nova, fico muito feliz porque essa galera alternativa me abraça.
O carnaval, Sarajane passará em Salvador, mas de olho no do Rio de Janeiro.
— Eu fico vendo na televisão… vocês têm todo um carnaval antes do carnaval, um pré-carnaval de rua! E sempre falei: “Poxa, um dia ainda vou participar disso!” Uma vez, Preta Gil ia me convidar, mas acabou que eu estava com a data fechada e não pude ir. O carioca e o soteropolitano são um pouco parecidos nessa energia, e o carnaval é uma festa que irradia para caramba!