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Conforme noticiado pelo Olhar Digital, uma teoria polêmica sugere que as sondas Viking, da NASA, podem ter eliminado sinais de vida em Marte sem querer. Segundo essa ideia, experimentos realizados em 1976 podem ter prejudicado a interpretação dos dados coletados na época.
Cientistas, agora, propõem rever conclusões que marcaram a história da exploração do planeta há 50 anos.
Em resumo:
- Missão Viking realizou experimentos para detectar vida microscópica em Marte;
- Resultados positivos iniciais foram descartados após ausência de orgânicos;
- Instrumento a bordo da sonda aqueceu o solo e detectou apenas gases simples;
- Descoberta posterior de perclorato sugere destruição térmica de orgânicos marcianos;
- Nova interpretação indica possíveis sinais indiretos de vida.
Missão Viking concluiu que Marte era estéril
As sondas Viking 1 e 2 pousaram na superfície marciana com três experimentos destinados a detectar vida microscópica. Os resultados iniciais foram considerados positivos em alguns testes. No entanto, um quarto instrumento não encontrou moléculas orgânicas no solo. Diante disso, a equipe da época concluiu que Marte era estéril.
Esse instrumento era o cromatógrafo gasoso acoplado a um espectrômetro de massas (GC-MS). Ele funcionava aquecendo amostras do solo para identificar compostos químicos. Primeiro, o material era aquecido a 120°C. Depois, a temperatura subia para 630°C, vaporizando possíveis moléculas orgânicas para análise.
O resultado surpreendeu os pesquisadores: em vez de compostos orgânicos, foram detectados dióxido de carbono e pequenas quantidades de cloreto de metila e cloreto de metileno. A interpretação oficial foi de que não havia matéria orgânica presente. O cloreto de metila foi tratado como contaminação terrestre. Assim, consolidou-se a ideia de que não existia vida marciana.

Segundo o químico Steve Benner, da Fundação para a Evolução Molecular Aplicada, uma organização de pesquisa sediada na Flórida, Estados Unidos, essa conclusão pode ter sido precipitada. “O problema é que agora sabemos que, na verdade, foram encontradas moléculas orgânicas!”, disse ele em entrevista ao site Space.com. Para Benner, o equipamento não falhou – “o GC-MS não deixou de detectar compostos orgânicos; ele os detectou por meio de seus produtos de degradação”.
Na época, a equipe da missão Viking sugeriu que um oxidante muito forte teria destruído qualquer matéria orgânica no solo. Esse agente químico explicaria tanto a ausência de compostos orgânicos quanto os resultados positivos de outros experimentos. Chegou-se a cogitar a presença de peróxidos. No entanto, esses compostos nunca foram identificados diretamente em Marte.
O debate persistiu ao longo das décadas. Um dos cientistas da missão, Gil Levin, responsável pelo experimento de Liberação de Marcador, sempre defendeu que seu teste havia encontrado sinais de metabolismo microbiano. Segundo ele, “não houve nenhuma explicação química convincente que anulasse os resultados obtidos”, sustentando que os dados indicavam atividade biológica.
Uma possível peça-chave surgiu apenas em 2008, quando a sonda Phoenix identificou perclorato no solo marciano. Esse composto é um oxidante capaz de reagir com matéria orgânica quando aquecido. Em 2010, o pesquisador Rafael Navarro-González demonstrou que a combinação de compostos orgânicos com perclorato pode gerar dióxido de carbono e cloreto de metila – exatamente os gases detectados pela Viking.
De acordo com Benner, isso muda a interpretação dos dados originais. Em vez de ausência de vida, os resultados poderiam indicar que as moléculas orgânicas foram destruídas durante o aquecimento das amostras. O GC-MS teria identificado apenas os resíduos dessa reação química. Assim, os experimentos de 1976 talvez tenham detectado sinais indiretos de vida.

Benner e seus colegas propuseram até um modelo teórico para esses possíveis microrganismos, chamado BARSOOM. A sigla significa “Bactérias Autotróficas que Respiram com Oxigênio Armazenado em Marte”. A ideia é que esses organismos produziriam oxigênio por processos semelhantes à fotossíntese e o armazenariam para uso posterior.
Essa hipótese ajudaria a explicar a liberação de oxigênio observada em um dos experimentos da Viking. Também poderia justificar os resultados de fixação de carbono e troca gasosa. Segundo Benner, não seria necessário invocar um oxidante extremamente forte e desconhecido para explicar os dados.
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Interpretação equivocada atrasou pesquisa em décadas
Para o químico, a interpretação adotada nos anos 1970 pode ter atrasado a pesquisa sobre vida em Marte por décadas. Segundo ele, o encerramento precoce do debate limitou novas investigações. Desde então, livros didáticos passaram a afirmar que as sondas Viking não encontraram qualquer evidência de vida.
Hoje, robôs como Curiosity e Perseverance já detectaram moléculas orgânicas em Marte. A maioria, porém, é atribuída a processos não biológicos, como a queda de meteoritos. Ainda assim, a nova leitura dos dados da Viking reforça a necessidade de reavaliar evidências antigas à luz de descobertas mais recentes.
As conclusões de Benner foram publicadas recentemente na revista Astrobiology. Para o especialista e sua equipe, os dados históricos merecem ser revisados com o conhecimento acumulado nas últimas décadas. O caso demonstra como a ciência avança ao questionar interpretações consolidadas.