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segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Novas revelações reescrevem a história dos maias

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Durante muito tempo, os maias foram retratados como uma civilização que desapareceu de forma repentina e misteriosa. Hoje, essa interpretação vem sendo revista. 

Pesquisas recentes indicam que não houve um sumiço abrupto, mas um processo gradual de transformação, migração e reorganização social. A noção de “colapso” está sendo substituída por uma visão mais complexa.

Em resumo:

  • Os maias não desapareceram repentinamente, como se pensava;
  • Eles teriam na verdade passado por transformações graduais;
  • Pesquisas indicam população numerosa e território densamente ocupado;
  • Tecnologia LiDAR revelou cidades, estradas e agricultura sofisticada;
  • Mudanças climáticas e conflitos causaram reorganização social;
  • Legado maia persiste nas ruínas e descendentes atuais.
Ruínas da cidade maia de Tikal, que se desenvolveu por mais de 1500 anos. Crédito: Kamran Ali – Shutterstock

Arqueólogos passaram a questionar ideias consideradas consolidadas: quantas pessoas viviam nas terras baixas da América Central, como eram organizadas as cidades e qual era a relação entre centros urbanos e áreas rurais. Em vez de cidades isoladas cercadas por selva vazia, os dados apontam para uma ocupação intensa e planejada do território.

Mapeamento por laser revela extensa conexão urbana oculta sob a selva

Um dos nomes ligados a essa mudança de perspectiva é o arqueólogo Francisco Estrada-Belli, da Universidade Tulane, nos Estados Unidos. Em entrevista ao jornal The Guardian, ele conta que decidiu estudar os maias ainda na infância, após visitar as ruínas de Tikal, na Guatemala. A imponência dos templos em meio à floresta marcou sua trajetória.

Décadas depois, Estrada-Belli liderou um estudo publicado no periódico científico Journal of Archaeological Science: Reports que estimou a população maia no Período Clássico Tardio, entre 600 e 900 d.C., em cerca de 16 milhões de pessoas. Antes, os cálculos variavam entre 7 e 11 milhões.

Se estiver correta, essa estimativa indica que a região era extremamente populosa. Para efeito de comparação, teria mais habitantes do que a península Itálica no auge do Império Romano, mesmo ocupando área menor. Isso reforça a ideia de que os maias desenvolveram uma sociedade altamente estruturada.

A principal ferramenta por trás dessas novas estimativas é o LiDAR, sigla em inglês para “Detecção e Medição de Distâncias por Luz”. A tecnologia utiliza sensores instalados em aviões que disparam milhões de pulsos de laser sobre a floresta. Os feixes atravessam a vegetação e retornam após atingir o solo, permitindo criar mapas tridimensionais detalhados.

Mapeamento a laser revelou a verdadeira magnitude dos assentamentos maias na Guatemala. Crédito: Canuto & Auld-Thomas/PACUNAM/DPA/Picture Alliance

Com esse método, pesquisadores conseguem remover digitalmente a cobertura vegetal e revelar estruturas escondidas sob a selva. O que parecia apenas mata fechada mostrou-se uma extensa rede de cidades, estradas elevadas, terraços agrícolas, canais e reservatórios de água.

Os mapas indicam que os assentamentos seguiam um padrão organizado. Havia uma praça central ligada ao poder político e religioso, cercada por residências. A maior parte das construções ficava a poucos quilômetros dessas áreas públicas, sugerindo integração entre populações urbanas e rurais.

Essa descoberta desmonta a antiga imagem de grandes centros isolados em meio a áreas praticamente vazias. Em vez disso, surge o retrato de uma paisagem densamente ocupada, conectada por infraestrutura planejada e adaptada ao ambiente tropical.

Cidades maias eram mais complexas do que se pensava

Um exemplo dessa rede é El Mirador, no norte da Guatemala. O LiDAR revelou que a cidade estava ligada a mais de 400 assentamentos por meio de estradas elevadas. Estruturas antes confundidas com colinas naturais eram, na verdade, construções monumentais.

Para sustentar milhões de pessoas em uma região de solos frágeis e clima com períodos de seca e chuva intensa, os maias desenvolveram sistemas agrícolas sofisticados. Construíram terraços, canais de irrigação e grandes reservatórios para armazenar água. Essas obras garantiam produção de alimentos e controle hídrico.

Pesquisadores destacam que não seria possível alimentar uma população tão numerosa apenas com agricultura simples de corte e queima. A escala das intervenções demonstra planejamento de longo prazo e profundo conhecimento das condições ambientais.

Mesmo assim, o equilíbrio era delicado. Mudanças climáticas, conflitos e pressões internas podem ter provocado tensões. Em vez de um colapso repentino, evidências indicam um processo gradual de transformação. Algumas cidades foram despovoadas enquanto outras ganharam força.

Quando Tikal ergueu sua última estela (grandes monumentos de pedra com inscrições usados para registrar datas e acontecimentos importantes), em 869 d.C., já acumulava mais de 1.500 anos de história. Depois disso, parte da população migrou para outras regiões. Cidades como Chichén Itzá e Uxmal cresceram, indicando reorganização em vez de desaparecimento.

Imagens mostram como os pesquisadores calcularam a concentração de construções antigas em Tikal. Primeiro, aparecem as estruturas identificadas no centro da cidade. Depois, mapas indicam áreas com maior ou menor densidade, usando diferentes tamanhos de amostra. À direita, mosaicos de imagens aéreas também são divididos em faixas para estimar quantas construções existem em cada trecho analisado. Crédito: Marcello A. Canuto

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Impacto político e desafios atuais

Essa nova interpretação deixa claro que os maias não são apenas parte da história antiga. Hoje, mais de 11 milhões de descendentes vivem no México, Guatemala, Belize, Honduras, El Salvador e Estados Unidos. Mesmo herdeiros de uma cultura rica e milenar, muitos ainda enfrentam condições de pobreza e exclusão social.

Na Guatemala, onde grande parte da população tem origem maia, o reconhecimento histórico tem impacto político. Lideranças indígenas defendem direitos territoriais, igualdade e respeito à identidade cultural. Valorizar o passado fortalece essas reivindicações no presente.

A memória também se cruza com a guerra civil guatemalteca, que durou de 1960 a 1996. O conflito deixou cerca de 200 mil mortos, a maioria maia, e milhares de desaparecidos. Instituições forenses utilizam análises de DNA para identificar vítimas e oferecer respostas às famílias.

Enquanto isso, o patrimônio arqueológico enfrenta ameaças atuais. Desmatamento, ocupação ilegal de terras e atividades criminosas avançam sobre a floresta e colocam em risco sítios ainda não estudados. A perda de cobertura vegetal tem sido acelerada nas últimas décadas.

As novas tecnologias ajudam a mapear e registrar essas áreas antes que sejam destruídas. Ainda assim, especialistas alertam que faltam recursos para proteger adequadamente o patrimônio. A corrida é contra o tempo: documentar antes que a degradação avance.

As descobertas recentes deixam uma lição relevante. Os antigos maias conseguiram sustentar grandes populações por séculos em um ambiente desafiador, desenvolvendo técnicas adaptadas às condições locais. Seu exemplo mostra a importância de planejamento e gestão cuidadosa dos recursos naturais.

Hoje, práticas como pecuária extensiva e monoculturas intensivas degradam o solo na mesma região. Comparar passado e presente permite refletir sobre escolhas atuais e caminhos possíveis para um uso mais equilibrado da terra.

A imagem de uma civilização que simplesmente desapareceu já não se sustenta. Em seu lugar, surge o retrato de uma sociedade complexa, capaz de construir cidades monumentais, reorganizar-se diante de crises e manter viva sua cultura por milênios. O legado maia permanece tanto nas ruínas reveladas pela tecnologia quanto nas comunidades que continuam a preservar essa herança.


[Fonte Original]

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