Um fundo ligado à família de Daniel Vorcaro, do Banco Master, remarcou de R$ 14,3 bilhões para zero o valor de mercado da Golden Green, denunciada por ter adquirido ativos ambientais fraudados.
O Jade Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia divulgou fato relevante na terça-feira (10) anunciando a remarcação do ativo. No documento, afirma que a decisão “está fundamentada em minuciosa análise técnica efetuada sob o laudo emitido por provedor independente”. Não há informações sobre quem emitiu o laudo. O fundo é administrado pela CBSF Trust, antiga Reag, em liquidação extrajudicial.
O fundo também anunciou que a reprecificação do ativo, que reconhece a perda integral de seu valor contábil, terá impacto negativo direto de 100% no patrimônio líquido do fundo.
O Jade é investido por outro fundo, o Jaya, que tem Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, do Master, entre seus cotistas, apurou o Valor.
A baixa no patrimônio ocorre após reportagens mostrarem que, mesmo cientes da fraude nos ativos ambientais alocados na Golden Green — revelada em dezembro de 2024 pelo Valor —, a Reag e os gestores mantiveram a avaliação patrimonial bilionária do fundo Jade inalterada ao longo de 2025.
A reprecificação do Jade, agora, terá um efeito em cascata na cadeia de fundos controladores, entre eles o Zacar (fundo de Henrique Vorcaro) e os fundos Hans 2, Sven e Hans 95 — este, investigado na Operação Carbono Oculto. Até o momento, esses fundos não comunicaram a CVM a baixa contábil relativa a suas participações no fundo Jaya.
Até então, a Golden Green declarava um patrimônio R$ 14 bilhões em “Unidades de Estoques de Carbono” (UECs) – que são diferentes de créditos de carbono e seriam referentes à quantidade de carbono alocada no solo. Esses ativos foram criados pelo empresário José Antônio Ramos Bittencourt a partir da Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM). A propriedade, porém, é fruto de grilagem e tem boa parte de seu terreno em cima de uma área da União, o Projeto de Assentamento Extrativista (PAE) Aripuanã-Guariba, como revelou o Valor em 2024, e portanto nunca poderia ter gerado ativos ambientais de forma privada.
Em 2025, Bittencourt, que também é cotista do fundo Jaya, tentou trocar estes ativos por novas UECs, que seriam geradas dentro do PAE com apoio do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Houve negociações avançadas para a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a autarquia.
A iniciativa não foi para frente após a divulgação, neste ano, de que a geração dos ativos ambientais seria feita com participação de uma empresa de Henrique Vorcaro, a Alliance Participações, e fundos alocados na gestora Reag, que já era alvo das operações Carbono Oculto e Compliance Zero.