A pergunta disparou nas buscas. Nesta quinta-feira, 12, “é verdade que a Rússia criou uma vacina contra o câncer?” apareceu entre os termos mais pesquisados no Google no Brasil. O interesse cresceu após anúncios oficiais do governo russo sobre um imunizante terapêutico contra a doença.
A curiosidade é compreensível. Câncer ainda representa uma das principais causas de morte no mundo. Sempre que surge a palavra “vacina”, a atenção aumenta. Mas o que, de fato, foi anunciado?
O que o governo russo informou
A Agência Federal Médico-Biológica da Rússia, AFMB, comunicou que concluiu ensaios clínicos de uma vacina chamada Enteromics. O foco inicial é o câncer colorretal.
Segundo a chefe da agência, Veronika Skvortsova, os testes indicaram eficácia e segurança. O governo divulgou os seguintes resultados:
- Redução de 60% a 80% no tamanho dos tumores
- Melhora nas taxas de sobrevida
- Ausência de efeitos colaterais graves até o momento
Autoridades já haviam apresentado a vacina no Fórum Econômico Oriental, no fim do ano passado.
Os números chamam atenção. Ainda assim, especialistas pedem cautela.
Que tipo de vacina é essa
A proposta não envolve prevenção, como ocorre com as vacinas da gripe ou da Covid-19. Trata-se de uma vacina terapêutica. Ou seja, médicos a aplicam em pessoas que já têm diagnóstico de câncer.
Pesquisadores russos trabalham com duas estratégias principais.
A primeira usa tecnologia de mRNA personalizada. Nesse modelo, cientistas analisam o perfil genético do tumor de cada paciente e produzem uma vacina sob medida. O objetivo é estimular o sistema imunológico, sobretudo as células T, a reconhecer e atacar células cancerígenas específicas.
A segunda estratégia utiliza vírus oncolíticos. Esses vírus recebem modificações em laboratório para infectar e destruir células tumorais sem causar doença no paciente. A Enteromics se encaixa nessa linha de pesquisa.
Para quais tipos de câncer
O governo russo indicou o câncer colorretal como foco inicial. Autoridades também mencionaram estudos sobre melanoma, câncer de pele, e glioblastoma, um tumor cerebral agressivo.
A Rússia declarou que pretende oferecer a vacina gratuitamente a partir de maio de 2026. O custo estimado por dose personalizada gira em torno de 300 mil rublos, cerca de R$ 15 mil na cotação atual.
A Sérvia apareceu como possível primeiro parceiro internacional.
Por que a comunidade científica mantém cautela
Apesar do anúncio, os dados ainda não foram publicados em revistas científicas internacionais com revisão por pares. Essa etapa é essencial para validação independente.
Sem acesso aos estudos completos, pesquisadores não conseguem avaliar metodologia, tamanho da amostra, critérios de seleção dos pacientes ou acompanhamento de longo prazo.
Além disso, novos tratamentos oncológicos precisam passar por fases clínicas rigorosas. Estudos de fase 3, por exemplo, envolvem mais participantes e comparam a nova terapia com tratamentos já consolidados.
Sem essa transparência, a comunidade científica evita conclusões definitivas.
Vacinas contra o câncer já existem?
A ideia não é nova. Existem vacinas preventivas contra vírus que podem causar câncer, como:
- HPV, associado ao câncer de colo do útero e outros tumores
- Hepatite B, ligada ao câncer de fígado
No campo terapêutico, a imunoterapia avançou nos últimos anos. Diversos tratamentos já estimulam o próprio sistema imunológico a combater tumores. A proposta russa se insere nesse cenário global de pesquisa.
Pode chegar ao Brasil?
Ainda não há previsão. Qualquer vacina desenvolvida no exterior precisa de publicação científica, validação internacional e aprovação da Anvisa.
A agência analisa eficácia, segurança e custo-benefício antes de liberar o uso no país. Além disso, vacinas personalizadas de mRNA exigem infraestrutura tecnológica complexa.
Então, a Rússia criou uma vacina contra o câncer?
Sim, o governo russo anunciou o desenvolvimento e a conclusão de testes clínicos de uma vacina terapêutica contra o câncer.
No entanto, os dados ainda não passaram por revisão científica independente. Sem publicação detalhada, não há como confirmar os resultados.
A pesquisa integra uma área promissora da oncologia moderna. Porém, até que estudos completos venham a público, a comunidade científica mantém prudência.
O anúncio pode representar um avanço relevante na imunoterapia. Por enquanto, porém, faltam evidências públicas suficientes para afirmar que se trata de uma solução comprovada ou disponível globalmente.