Atendimento jurídico e psicossocial para a população trans na Unidade Prisional Vasco Damasceno Weyne, em Itaitinga (CE), no Dia da Visibilidade Trans, em 2024 (Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização/divulgação)
Em março de 2014, iniciei um trabalho de formação em gênero e diversidade voltado a agentes prisionais do estado do Tocantins. Acabava de ser aprovada a resolução que permitia a pessoas LGBTI+ o direito a visita íntima; pouco depois, também seria aprovada a resolução que define parâmetros de acolhimento para a população LGBTI+ em privação de liberdade. Mesmo com esses referenciais, a distância entre previsão e efetividade revela o caráter seletivo do sistema prisional. Recordo-me de ouvir de uma gestora (do alto escalão do sistema prisional) que ela “negociava” o bom comportamento das presas que se relacionavam afetiva e sexualmente entre si. Oferecia a possibilidade de dividirem a mesma cela e, desse modo, estabelecer maior contato diário com a parceira. Ela me contava com muita tranquilidade – como se estivesse segura de desenvolver uma excelente estratégia de contenção das presas consideradas “mais difíceis” e, ao mesmo tempo, sendo supostamente garantidora de direitos.
Cabe mencionar que, naquele momento, o que hoje denominamos de ofensiva antigênero ainda não se apresentava com a força que se apresentaria a partir de 2016, embora já indicasse a regressão que o debate de gênero e sexualidade sofreria anos depois. Com apoio de profissionais da gestão governamental, levamos cerca de 50 trabalhadoras(es) do sistema prisional para discutirem direitos sexuais e reprodutivos dentro da maior universidade pública do estado. Essa experiência me marcou profundamente como educadora feminista, ativista LGBTI+ e pesquisadora de gênero
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