O romance Consigo inventar tudo, segundo livro de Julia Barandier, publicado pela editora Diadorim – foi um dos livros resenhados na Cult de fevereiro. A equipe da Cult conversou com a autora sobre o livro.
Como se deu a pesquisa para compor o trabalho de pesquisa de Luísa, a narradora do romance Consigo inventar tudo – e que, assim como a própria autora do livro, é descendente do artista plástico francês Claude Barandier?
Parti primeiro das histórias contadas pela minha família. Para o romance, me interessou mais as histórias passadas de geração em geração que muitas vezes eram fantasiosas e aumentadas para preencherem lacunas. Depois de ouvir, fui fazer minhas próprias buscas. Encontrei relatórios de pesquisadores que estudaram a obra de Claude, consultei museus e li muito sobre a Missão Francesa. Anos atrás, minha família recebeu uma apostila com diversas informações sobre Claude – encontradas por uma pesquisadora. Essa apostila também me ajudou. Fui juntando tudo o que podia sobre Claude e depois decidi o que entrava ou não na pesquisa de Luísa, o que eu ia inventar e o que ia aparecer de dados reais.
Por que a escolha de uma narrativa fragmentada?
A narrativa fragmentada e não linear tem várias justificativas possíveis; entre elas, destaco a vontade de mostrar como a pesquisa acadêmica é mesmo um processo não linear, com idas e vindas, e como ela se mistura com a vida pessoal. E quis brincar com as linhas do tempo, misturando passado e presente para que também Luísa e Claude se misturassem. Mas talvez o efeito mais importante que eu queria passar era a sensação de estar dentro de uma mente em crise, beirando à loucura, que inventa, mistura, não separa mais realidade e ficção e está à beira de um colapso. Assim é a mente da protagonista e eu queria que a forma do livro acompanhasse isso.
A existência de uma narradora que apresenta coincidências biográficas com a autora, mas não é a autora, faz com que Consigo inventar tudo tenha, de saída, uma camada a mais para a leitura. Em contrapartida, o livro sustenta-se independentemente da biografia de sua autora. Existiu, na escrita, alguma proposta consciente de incrustar vida na ficção? Ou, na verdade, pesaria mais a balança para o outro lado – e a ficção é que teria sido incrustada na vida?
O que eu queria, na verdade, era o jogo de borrar as linhas entre ficção e realidade chegando em um ponto em que já não importa mais o que é o quê. A vida e a ficção estão misturadas, emboladas, tem muito de mim na Luísa e agora tem muito da Luísa em mim.
Confira a resenha de Consigo inventar tudo, escrita por Adriano Lobão Aragão, na Cult de fevereiro.