22.5 C
Brasília
quarta-feira, fevereiro 18, 2026

“Os psicanalistas foram confrontados pelas feministas: um encontro que deu – e tem dado – frutos maravilhosos” – Revista Cult

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

 

 

“O ato de escrever me permitiu seguir analisando”, afirma Vera Iaconelli nas últimas páginas de seu livro de memórias, Análise (Zahar, 2025). Para ela, a escrita é uma resposta ao desejo do analista: “Querer saber sobre o inconsciente para se haver com o outro”. Mas a passagem da fala à escrita também significou um corte, quando percebeu que as histórias que vinham sendo contadas na clínica já não se sustentavam no papel. O que se revela nas páginas do livro, entre recontagens e reescritas, é uma prosa que combina o ensaio psicanalítico, pelo qual a autora já era conhecida; a ficção, que qualquer rememoração naturalmente implica; e o documental, da vida de uma mulher e de tudo o que a levou do divã à cadeira da psicanalista.

Organizadora da série de cinco volumes Parentalidade e psicanálise (Cult e Autêntica) e autora dos livros Manifesto antimaternalista: Psicanálise e políticas da reprodução (Zahar, 2023) e Felicidade ordinária (Zahar, 2024) – este último vencedor da categoria saúde e bem-estar do Prêmio Jabuti de 2025 –, Iaconelli escreve, em seu novo livro, que “a arte vai aonde a psicanálise não consegue chegar”.

Em conversa em sua casa, em São Paulo, ela fala à Cult sobre sua relação com a escrita e com a psicanálise. Reafirmando seu interesse em entrelaçar as teorias de Freud e de Lacan com o feminismo, o que lhe é imprescindível, ela vê a psicanálise como uma “revolução em si mesma” – em “autoimplosão permanente”. Ao narrar sua história e ao lutar pelo lugar da analista em tempos de empobrecimento subjetivo, Iaconelli propõe um convite à psicanálise, buscando fazer desta um campo “contemporâneo dos melhores movimentos”.

Ao longo de Análise, você examina, muitas vezes, o ato da escrita em relação à fala – como a “passagem para a escrita” em Lacan. De qual modo a escrita chega até você?

Existem vários tipos de escrita na análise. Escrevemos os casos para apresentar em congressos, o que é uma forma de elaboração do analista. A escrita também oferece um distanciamento importante dos atendimentos, ajuda a pensar de fora. É por isso que estimulo minhas supervisionadas a escreverem os casos, mesmo que não sejam publicados. No meu caso, a escrita teve a ver com o resto da minha própria análise: coisas de que eu já estava exausta de falar – e senti o ímpeto de escrever. Ela teve o papel de elaborar resíduos, dar novos destinos, iniciar um processo de apropriação da minha história. Ao tornar minha história pública em grande escala, também pude recolher outros efeitos a posteriori.

Você fala sobre a função da escrita como o elemento que lhe permite seguir analisando, mas também como algo que cria ordem onde nunca houve – inteligibilidade no caos. Desde o lançamento do livro, qual é a função da escrita para você?

Primeiro foi uma necessidade. Durante o processo, a escrita provocou efeitos muito perturbadores, libertadores, de grande alívio, mas também de sofrimento. Ao escrever, senti que eu repensava todas aquelas questões a partir de outro ângulo – porque há uma diferença importante entre falar e escrever. A fala aceita coisas que a escrita não aceita e vice-versa. A escrita tem uma ordenação lógica que obriga você a fazer as coisas ficarem em pé a partir de certa conexão entre as próprias palavras.

Percebi que algumas coisas que eu havia falado a vida inteira não se sustentavam na escrita. Pareciam conversa fiada. Então pude rever certas histórias. Após a publicação, com a minha família lendo o que escrevi sobre ela, tive efeitos inesperados, de convergência, de poder conversar sobre coisas nunca ditas – gerando, inclusive, o reencontro de pessoas da família que não se viam. Há efeitos dessa escrita até hoje.

Só a escrita é mais forte que a mãe” – a frase, de Marguerite Duras, lembra outra passagem do livro, em que você fala sobre a vergonha de dizer à sua família que estava escrevendo sobre ela. Duras esperou a morte da mãe para escrever sobre a relação que tinha com ela em O amante. Enquanto filha e enquanto mãe, como foi dar à luz esse livro?

O simbólico, junto com o real e o imaginário que nos fundam, que são constituintes da nossa subjetividade, tem a função de nos separar da experiência maciça do real. A mãe é confundida com o lugar insondável da origem. Separar-se da mãe, portanto, não é separar-se apenas da pessoa, mas desse ente, dessa figura mítica. A escrita permite que você faça barreira para essa impressão de uma espécie de abismo que a maternidade representa para cada um de nós. A frase de Duras foi citada em análise pela minha ex-analista em uma pontuação – que é uma interpretação, uma intervenção analítica. A escrita se provou mais forte do que a mãe. A escrita fez esse corte necessário.

Você fala que a análise é recontar histórias – e Duras também reescrevia repetidamente suas narrativas. Como foi o seu processo de escrita e reescrita?

O que acho mais impressionante é que se eu estivesse escrevendo tudo de novo hoje, escreveria outra história; se tivesse feito isso há dez anos, teria escrito ainda outra história. A palavra final da experiência não está em lugar nenhum, é ela própria. Elaborá-la na escrita é a própria experiência. A primeira versão era muito condescendente, pegajosa e chata. Em algum lugar, existe uma versão em que sou vítima – porém, é uma versão pouco refletida. Passei por várias versões até chegar a um lugar que representasse o meu momento em relação a essa história.

Ao longo do livro, você tensiona ficção e realidade – pela distância com que escreve sobre si e pelas reescritas ou recontagens que a análise implica ao longo de uma vida. Entre livro de memórias, autobiografia e autoficção, como você descreveria a relação do seu livro com a realidade?

Não teorizo a literatura, sou uma leitora – sempre muito impressionada com o modo como autoras como Annie Ernaux e Marguerite Duras escrevem. Fiz o que consegui fazer: não conseguia fazer diferente. Entendi que a escrita é uma resolução diária de problemas. Como transmitir? Como falar? Como escapar? Há coisas sobre as quais eu não gostaria de falar, mas que não podiam faltar na história, então fui buscando saídas.

Sobre a minha mãe, só consegui escrever de uma forma muito diferente do que teorizei antes nos ensaios em que explico as coisas a partir da teoria psicanalítica. Agora estou escrevendo outra coisa, e nela eu já prescindi totalmente do ensaio psicanalítico, embora ele esteja lá, porque o meu jeito de olhar o mundo está impregnado. É um outro momento: entendo que estou me livrando dessa necessidade de sempre me apoiar na academia. Vou me livrando da academia para falar cada vez mais da primeira pessoa.

O que está escrevendo agora?

Tem mais a ver com o meu momento atual, aos 60 anos, sendo mulher neste país, com a minha sexualidade, com a minha maternidade pós-menopausa. São reflexões biográficas, sempre tentando extrair dali alguma coisa analítica – mas sem a forma do ensaio psicanalítico.

Análise é um livro sem censura?

O que me permitiu falar coisas que várias pessoas entendem como sendo muito “ousadas e expositivas” – eu não as entendo assim – foi o fato de ter escutado por 30 anos pessoas falarem de suas histórias, muito constrangidas, como se estivessem confessando coisas terríveis. Percebi que essas histórias não eram melhores que as demais. Todo mundo tem os seus esqueletos no armário. Nunca me escandalizei com as histórias nem me escandalizo com a minha. Nunca achei que era uma coisa incrível contar que meu pai era alcoólatra.

Roberta Martinelli me falou: “Não sinto que você se expôs, mas que você nos expôs, porque, ao ler o livro, as pessoas pensam nelas mesmas”. Era só o que eu queria. Entre mim e o leitor existe o livro, que é uma obra e que pode mudar a qualquer momento. É claro que há censura, pois eu seleciono o que estou escrevendo, mas não acho que minha história é excepcional. É só uma história.

A questão da mulher também é tema de muitos dos seus textos – e da newsletter que você assina com Carol Pires, “Nem toda mulher”. Qual é a importância de continuar falando sobre “o que é ser mulher” em 2026?

As mulheres são o farol: inadvertidamente, ficamos com a parte mais importante da existência que é a questão do cuidado de si, do cuidado do outro, da intimidade, da amizade. Os homens têm uma relação muito pobre entre eles mesmos, então eles contam as coisas para as esposas, para as namoradas e para as amigas. Eles não conseguem contar entre eles. Até isso nos prestamos a fazer.

A importância é que deixemos de ser o farol, e que todo mundo, independentemente de gênero, possa aprender a cuidar de si e do outro, ter intimidade, cuidar do mundo e das crianças. Que não nos fechemos como um clube, dizendo “nós somos as melhores” (nós somos) – mas que possamos transmitir aquilo que foi relegado aos nossos cuidados como uma tarefa menor e que se provou a tarefa maior. Falar da mulher, hoje, é simplesmente imprescindível.

Seus livros frequentemente demarcam o lugar do feminino nas histórias que narra. A psicanálise ainda é considerada um campo discursivo repleto de teorias e de estruturas misóginas. Como você enxerga o campo hoje em relação ao lugar da mulher – seja da analista, seja da analisanda?

A psicanálise começa na virada do século 19 para o 20, no auge do maternalismo e da confusão entre os lugares de mulher e mãe. Ela exotiza a mulher o tempo todo e diz que a mulher é o estranho, o continente negro, o insondável. A psicanálise, como todas as ciências da sua época, é marcada por um olhar extremamente misógino. Mas a psicanálise é uma revolução em si mesma. Ela está sempre se analisando e se criticando. Seu processo é a autoimplosão permanente.

Com o atravessamento do feminismo, acredito que os psicanalistas foram confrontados pelas feministas: um encontro que deu – e tem dado – frutos maravilhosos. É uma forma de tratamento, uma teoria, um método de pesquisa válido porque se repensa o tempo todo e vai mostrando suas próprias fraquezas. Nesse sentido, temos muito a aprender com o feminismo e temos todas as chances de fazer com que a psicanálise seja contemporânea dos melhores movimentos.

Você acredita que a psicanálise ocupa um lugar cada vez maior na sociedade brasileira? Por que o crescente interesse?

Sim, mas lamento que tenha um lado negativo disso. As pessoas estão interessadas na psicanálise no Brasil porque vivemos uma experiência de muito empobrecimento psíquico, subjetivo, com poucos espaços de troca. Um adoecimento generalizado das condições subjetivas e da saúde mental. A busca pela psicanálise é uma busca por se cuidar – esse é o lado legal. Existem poucos lugares onde as pessoas falam que vale a pena refletir sobre a própria vida, porque vivemos cercados de psicologia positiva.

Dizem que se você acordar mais cedo, fizer ginástica, arrumar sua cama, vai dar tudo certo – mas não é verdade. As condições de trabalho estão muito deterioradas, insatisfatórias, adoecedoras, marcadas pela ideia de performance, de produtividade, de meritocracia. Existe um lado neoliberal de uma oferta da psicanálise que promete que se você largar seu emprego e virar psicanalista, será famosa e ganhará dinheiro. Surgem cursinhos que aproveitam essa demanda e oferecem formações completamente obscenas e desonestas em psicanálise.

O que é uma formação honesta em psicanálise?

É o tripé que Freud coloca: para se tornar analista, é preciso fazer sua própria análise. Não existe um curso em uma faculdade em que se aprende teoria para se tornar analista e atender. O livro é muito claro nesse sentido: eu só me tornei analista no divã. Essa é uma condição necessária, mas não suficiente, pois é somando a experiência à teoria que se entende o processo. O tripé se conclui com os atendimentos – que receberão supervisão, o que se dá dentro de uma comunidade de pares.

Ninguém se torna analista sozinho, em casa. É preciso fazer parte de uma comunidade. A essa comunidade robusta de pertencimento, você leva a sua experiência analítica para seus colegas observarem o processo do passe, mas também o seu cotidiano ético. É uma formação complexa, paradoxal, e as pessoas não aceitam isso: querem um certificado no final, como um brevê de voo. Mas não é assim que funciona.

O que chamou a sua atenção na obra de Lacan para conduzi-la em direção a essa abordagem?

Eu já fazia análise havia muitos anos com um analista winnicottitano quando comecei a estudar Lacan – e fiquei muito interessada no que lia. Teoricamente, as propostas de Lacan são impressionantes. Senti que minha análise começava a patinar e me indicaram uma analista lacaniana. Percebi que o que estava procurando era um corte na historinha, na busca infindável de um sentido para as minhas experiências – porque você pode passar o resto da vida fazendo isso.

Lacan parece estar muito em alta nas redes sociais, mas de forma bastante rasa e pouco baseada em leituras de sua obra. Como ler Lacan?

No livro O estilo de Lacan, Christian Dunker mostra que Lacan estava tentando escapar das igrejinhas e de leituras simplificadoras. Ele tinha uma relação importante com os surrealistas e a questão do estilo. Estamos falando de uma pessoa que produziu sua obra no século 20. Aquilo fazia muito sentido naquela época: era extremamente iconoclasta, era um ato político escrever daquele jeito.

Não é uma questão de ficar incensando a escrita de Lacan, mas de entender de onde ela vem. Podemos e devemos ler Lacan, o que ele escreveu, mas com outras pessoas: compartilhando, tirando dúvidas; porque Lacan não foi muito generoso nas referências bibliográficas e citações. Às vezes ele falava de um texto e não citava o autor. Isso é muito ruim para quem pesquisa sua obra. Mas não se estuda Lacan sozinho: é sempre dentro de uma comunidade em que se trocam, confirmam ou desqualificam percepções. É preciso ler Lacan, mas não só. Há muitos autores que dialogam com ele e trazem novos aportes e interpretações.

Seu livro reflete muito sobre a leitura, para além da escrita. Você escreve “a leitura é sempre leitura do mundo, aberta para o de fora”. Quais leituras produziram em você, recentemente, esse sentimento de abertura para o mundo?

É um pouco constrangedor, mas foi só recentemente que li Os sertões, de Euclides da Cunha, e que reli Grande sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Com eles, senti que falta muito para eu entender o que é ser uma mulher no Brasil no século 21. Agora estou começando Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. É preciso tempo para ler outra coisa que não seja Lacan, mas busco essas aberturas para o mundo.

Li Cadelas de aluguel, de Dahlia de la Cerda, que fala das mulheres da América Latina e do feminismo de um jeito impressionante. Tenho lido Mariana Salomão Carrara; o jeito que ela escreve dá até constrangimento, fico triste de não escrever assim. Andréa del Fuego é sempre demais. A poesia de Fabrício Corsaletti também. A literatura tem diversas janelinhas – e eu quero olhar para todas, cada uma traz uma coisa diferente para mim.

Carolina Azevedo é jornalista, crítica, programadora e mestranda em teoria literária na FFLCH-USP

O post “Os psicanalistas foram confrontados pelas feministas: um encontro que deu – e tem dado – frutos maravilhosos” apareceu primeiro em Revista Cult.

[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img