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sábado, fevereiro 21, 2026

Crítica | O Mundo de Edena – Vol.3: A Deusa – Plano Crítico

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Depois de duas grandes histórias, nos volumes de abertura de O Mundo de Edena, Moebius nos traz uma publicação menos brilhante em A Deusa, terceiro tomo da série que nasceu de uma encomenda publicitária para a Citroën em 1983 e que, àquela altura, já se havia transformado numa das mais ambiciosas sagas filosóficas da bande dessinée francófona. Escrita e desenhada entre o outono de 1988 e a primavera de 1989, entre Paris e Los Angeles, a história foi serializada na revista belga À Suivre antes de virar álbum pela Casterman, em setembro de 1990. O próprio Moebius admitiu, em posfácio à edição americana pela Marvel/Epic (Moebius 7: The Goddess), que pretendia encerrar o volume com o desaparecimento de Atana, mas acrescentou vinte páginas por sugestão de seu entorno para esclarecer a identidade da Paterna, entidade que governa a sociedade subterrânea do Ninho. Esse acréscimo, embora enriqueça a mitologia interna da série, deixa claro um certo improviso na condução da trama, algo incomum para um artista tão metódico no planejamento visual, embora já esperado por quem acompanha a dificuldade dele em costurar as pontas soltas de suas narrativas mais esotéricas.

A trama concentra o foco em Atana, que, após a separação de Stel, no álbum anterior, vaga sozinha por florestas intermináveis até ser detida por habitantes mascarados de uma metrópole subterrânea chamada Ninho. Essa civilização asséptica e autocrática, povoada por clones gerados a partir de uma matriz genética única, vive sob o controle absoluto da Paterna, figura que a fortuna crítica francesa batizou de “Big Mother-Brother” e que elimina qualquer ameaça ao seu regime de uniformidade. Está clara a crítica aos governos autoritários que desmoronavam naquele final dos anos 80, tendo ainda outra indicação visual muito curiosa: os moradores do Ninho usam máscaras de nariz longo (os “pif-pafs“) para se proteger de supostos germes externos, mas o verdadeiro mal que os corrói vem da decadência de suas instituições. A presença de uma criança cega com poderes mediúnicos que acompanha Atana em paisagens oníricas é coerente com as influências New Age absorvidas pelo autor junto a Jean-Paul Appel-Guéry. O problema é que o álbum tenta conciliar aventura linear com esses devaneios espirituais extensos, e a costura entre esses tons nem sempre funciona bem.

Esteticamente, lá em Na Estrela, Moebius adotou o ideal de “desenho sem ego“, próximo da linha clara e com detalhamento mínimo, uma escolha que diminui em Os Jardins de Edena e praticamente some aqui em A Deusa, onde as hachuras voltam com tudo. Os volumes dos corpos, as texturas dos trajes do Ninho, a arquitetura opressiva da cidade: tudo ganha relevo e espessura, afastando-se da leveza minimalista dos dois primeiros álbuns. A colorização, aplicada diretamente sobre o nanquim, fortalece os contrastes entre a luminosidade de Edena e a palidez artificial do Ninho. Mas a sofisticação visual não compensa inteiramente os tropeços narrativos: Atana, que começa como sobrevivente determinada, assume um papel de messias passiva, presa em ciclos de morte e ressurreição que soam repetitivos e travam o andamento da aventura.

Não há fanatismo que resista a um olhar honesto sobre a natureza de seus deuses, e esta história coloca à prova a devoção cega de quem quer que seja. Ao retirar a máscara da entidade que governa o Ninho, Moebius cria uma rejeição a esse simulacro de divindade e praticamente disseca a fragilidade de um regime sustentado por mitos. Gosto muito da construção do Ninho como uma distopia sanitária e do arco alegórico sobre conformismo e libertação (mesclados com misticismo) que se constrói aqui. O final, para o meu gosto, é aberto demais, deixando pontas soltas que dependem dos volumes seguintes para fazer sentido, escolha que fragiliza A Deusa enquanto obra autônoma (uma finalização comercial bem diferente do autor, o que me impressionou negativamente, devo dizer). Ainda assim, mesmo nos seus momentos mais enrolados, Moebius continua sendo Moebius: cada página carrega uma assinatura visualmente impressionante e uma história que pensa o papel das pessoas em diferentes camadas sociais (dos Baratões aos Medics) e a probabilidade de se começar uma trama interplanetária e fazer tudo ir por água abaixo, para todo mundo, por vários e vários séculos. Ao fim, os habitantes do Ninho trocaram uma deusa por outra? A Paterna por Atana? Seria esta a eterna maldição aludida pelo Surfista Prateado em Parábola, que Moebius desenhou para Stan Lee em 1988?

O Mundo de Edena – Vol.3: A Deusa (Les mondes d’Edena: La déesse) – França, 1990
Roteiro: Moebius
Arte: Moebius
Cores: Moebius, Florence Breton
Editora original: Casterman
No Brasil: Editora Nemo, março de 2014
Tradução: Fernando Scheibe
90 páginas



[Fonte Original]

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