Quando Estranhas Aventuras estava lá pela metade, Tom King começou a publicar outra maxissérie, uma que tinha toda a possibilidade de ser polêmica em razão de, na superfície, ser outra exploração do para muitos intocável e revolucionário universo de Watchmen, criado por Alan Moore e Dave Gibbons. O que poderia ser acrescentado de real valor a uma obra tão marcante? Para que usar Rorschach, talvez o mais marcante personagem do grupo de vigilantes abordado na clássica graphic novel oitentista? Mas nós sabemos muito bem que adaptar, preludiar ou continuar Watchmen não é pecado algum, mas sim um desafio, desafio esse que foi magistralmente encarado no longa-metragem homônimo por Zack Snyder na época anterior ao momento em que ele se perdeu como cineasta, que foi trabalhado por diversos autores na série de minisséries Antes de Watchmen que é cheia de altos e baixos e que ganhou a sensacional continuação em forma de série pela HBO, isso sem contar com a integração desse universo ao universo principal da DC Comics. Portanto, uma nova abordagem por um nome tão relevante nos quadrinhos mainstream pós anos 2010 não só é bem vindo, quanto de grande interesse por aqueles que estiverem abertos a essas experiências consideradas hereges por parte dos leitores.
Rorschach, ao longo de suas 12 edições, segue o padrão de Estranhas Aventuras, ou seja, trata-se de um thriller investigativo que coloca um policial tentando desvendar exatamente quem eram e quais eram as motivações de duas pessoas, uma jovem mascarada vestida de vaqueira e um homem mais velho com a máscara e o figurino de Rorschach, em uma tentativa frustrada de assassinato do governador Turley, candidato que concorre à presidência dos EUA em oposição à possível quarta reeleição seguida do presidente Robert Redford, no poder desde 1988, e que resulta na morte dos dois assassinos. É uma premissa enganosamente simples e que muitos dizem que poderia ser trabalhada por King com a mesma eficiência se Rorschach fosse trocado por qualquer outro personagem. Não enxergo assim, porém. A maxissérie se passa 35 anos após Watchmen e que eventos da obra em questão são mencionados com generosidade na nova história, ostensivamente fazendo dela uma “continuação” e, para o que King desejava fazer, era muito importante que essa conexões fossem feitas e que o personagem ambíguo – pode ser um fascista, pode ser um anti-herói – representado por Rorschach fosse colocado no centro do palco.
Afinal, a investigação é um pano de fundo muito interessante, mas por vezes também muito cansativo, que King usa para mergulhar de maneira metanarrativa na arte e como ela arte pode ser alvo de visões turvas que a distorcem para os mais variados propósitos, como por exemplo distorcer a essência de clássicos oitentistas dos quadrinhos – notadamente O Cavaleiro das Trevas e Watchmen – para criar uma tendência narrativa em que tudo “precisa” ser sombrio e violento, em um processo que não demorou a expurgar o conteúdo sério e complexo, trocando-o por meros momentos de pancadaria vazia com litragem de sangue cada vez maior ou a “moda” de transformar todo herói em anti-herói justamente para que a tendência da “violência sobre substância” possa alcançar o maior público possível. Nesse processo, King destila e desenvolve detalhes deixados por Moore e Gibbons, como é a presença dos piratas no lugar dos super-heróis nos quadrinhos, o quanto a “lula interdimensional” afetou o mundo e, também, os valores deixados pelo grupo de super-heróis que “salvou o mundo”. É como um comentário a Watchmen que dobra como um comentário sobre a indústria de quadrinhos, com a presença indireta de um avatar de Steve Ditko como Will Myerson, o personagem que veste o manto de Rorschach e morre já na primeira página, retornando em flashbacks ou a presença mais do que direta de Frank Miller como um sucessor de Myerson. Diferente do que King fez em Senhor Milagre, em que a abordagem da indústria de quadrinhos se deu subsidiariamente, culminando com uma espécie de reconciliação entre Stan Lee e Jack Kirby, aqui os “jogadores desse jogo” são elementos essenciais para o desenvolvimento da trama.

Com a investigação capitaneada por um policial que permanece sem nome, com esse fato já entregando de maneira muito clara o que acaba acontecendo ao final, eu diria que Tom King, pela primeira vez em suas máxisséries, acaba se perdendo nas idas e vindas e em sua tentativa de abarcar temais demais sem segurar sua já bem estabelecida verborragia. São conceitos ambiciosos que acabam se fragmentando ao longo das edições, com a primeira metade toda servindo de construção dessa nova visão de mundo décadas depois de Watchmen e a segunda estranhamente carregando nos ombros a necessidade de inserir um grande número de novos personagens que começam a fazer a narrativa convergir para um local mais do que telegrafado pela narrativa. Vejo empolgação em King e vejo também sua habitual alta qualidade no que escreve, mas em Rorschach, o caminho que ele toma é nebuloso talvez demais e que talvez seja proposital para emular, no roteiro, os movimentos fluidos da máscara do personagem original que alteram a percepção da realidade, mas tenho para mim que ele foi com muita sede ao pote e acabou desequilibrando sua história.
Quem não desequilibrou absolutamente nada, porém, foi o espanhol Jorge Fornés na arte. Seu trabalho de “gibbonização” da história é magnífico, pois ele se inspira no mestre para criar desenhos com características próprias e marcantes que exitosamente subverte a clássica estrutura de divisão de quadros na proporção 3X3X3 que se popularizou em Watchmen e que King já empregara em obras anteriores como Senhor Milagre, quebrando a (terrível?) simetria ao deslocar levemente os quadros, mas mantendo a divisão. Como Rorschach é carregada de diálogos em situações prosaicas como conversas em apartamentos e em escritórios, Fornés tem a missão de manter o leitor atento, algo que ele consegue fazer com um rigoroso trabalho de feições dos rostos dos personagens (bem, pelo menos aqueles que não usam máscaras cobrindo tudo, claro), principalmente de seu protagonista investigador em sua lenta jornada de descoberta e de autodescoberta e pelos detalhes de todas as ambientações com o mesmo tipo de obsessão que encontramos em diretores famosos por essa característica como Stanley Kubrick. Fornés eleva esse trabalho mais… problemático… de King como poucos artistas conseguem, resultando em uma leitura prazerosa do começo completamente inesperado ao fim mais do que esperado.
Não vou dizer aqui irrestritamente que Tom King acertou de novo, mas ele sem dúvida alguma criou outra obra que é muito mais do que sua superfície ou até mesmo o que pode ser lido em sinopses. Sim, era essencial que a obra se passasse no universo de Watchmen e sim, o melhor personagem de lá para receber uma leitura era mesmo Rorschach diante do que King coloca nas páginas triunfalmente desenhadas por Jorge Fornés. E não, ele não mexe, altera ou desvirtua a obra clássica, mas sim constrói em cima e nos apresenta a um cenário que exala autencidade em sua roupagem metanarrativa e também na forma como podemos com bastante facilidade trazer o que lemos para nosso cada vez mais surreal mundo real. É, King acertou novamente, ainda que não da mesma forma como acertou antes e somente porque Fornés tratou de carregar um fardo quase impossível.
Rorschach (Idem – EUA, 2020/21)
Contendo: Rorschach #1 a 12
Roteiro: Tom King
Arte: Jorge Fornés
Cores: Dave Stewart
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Bixie Mathieu, Brittany Holzherr, Jamie S. Rich
Editora: DC Comics (DC Black Label)
Datas originais de publicação: outubro de 2020 a setembro de 2021
Editora no Brasil: Editora Panini
Datas de publicação no Brasil: setembro de 2021 e março de 2022
Páginas: 324