Depois da épica Dente de Dragão, maxissérie em quadrinhos que contou com 12 edições e que que se passa entre o final da sexta – e até o momento última – temporada de The Expanse e o começo do sétimo livro da série literária, Persepolis Rising, a BOOM! Studios retorna uma quarta vez a esse universo para contar uma história de escopo menor, que se passa após Dentes de Dragão mas ainda antes do referido livro, focada primordialmente em Amos Burton, personagem de Wes Chatham que atua como corroteirista da HQ ao lado de Andy Diggle. Com apenas quatro edições, a minissérie foi precedida, como a anterior, de uma campanha de financiamento coletivo bem-sucedida, ganhando publicação ampla a partir de setembro de 2025 como mais uma forma de matar as saudades daqueles que, como eu, sentem faltam da sensacional série de TV.
Com a humanidade ainda se recuperando do ataque à Terra que afetou o ecossistema do planeta e tornou as colheitas escassas, comida tornou-se uma preocupação real, já que as plantações que alimentam as colônias não dão frutos em outros planetas, com exceção de Auberon e é para lá que a Rocinante vai, com o capitão James Holden em uma missão diplomática ordenada por Camina Drummer para fazer com que as duas corporações rivais capazes de lidar com a agricultura em larga escala no planeta sentem em uma mesa para fazer um acordo que torne possível a produção e distribuição de alimentos para o sistema solar e, claro, para aqueles que vivem além do anel. Enquanto essas negociações acontecem em Lua Grande, Amos, sentindo-se preso depois de tanto tempo dentro da nave, vai até o planeta em busca de bebida e bordéis, logo deparando-se com a menina Aggie que o reconhece e faz de tudo para tornar-se seu guia.

Claro que, não demora, e Aggie tem sua vida ameaçada pelos minions do mafioso local e Amos, sem pestanejar nem por um segundo sequer, como é de seu feitio, faz absolutamente de tudo, inclusive arriscar sua vida com a ajuda de Erich, uma amigo de longa data da Terra que ele encontra por lá, para salvar a jovem e liquidar com aqueles que fizeram mal a ela (ou que sequer pensaram em fazer mal). Essa história, claro, é um clichê narrativo mais batido do que qualquer outra coisa, mas que, ainda bem, consegue elevar-se para algo mais complexo que se conecta com as dificuldades que Holden começa a enfrentar nas negociações, o que torna duas linhas narrativas aparentemente desconectadas em algo convergente, uma verdadeira conspiração que faz de marionetes os tripulantes da Rocinante. Andy Diggle (confesso que é difícil imaginar o quanto Chatham realmente envolveu-se na redação do roteiro), apesar de só ter quatro edições de tamanho normal à sua disposição, consegue escrever uma história de escopo amplo contado a partir de pontos de visto menores e complementares que funciona bem dentro do espaço disponível, equilibrando o mistério na lua com a pancadaria no planeta.
Francesco Pisa, que havia sido o responsável pela arte das edições #5 a 12 de Dente de Dragão, retorna e entrega um trabalho que desaponta muito no desenho da anatomia humana, especialmente nas expressões faciais, fazendo da tripulação da Rocinante um pálido reflexo dos atores e dos novos personagens não mais do que humanos genéricos, talvez com exceção de Aggie, mas somente porque ela é quem ganha mais desenvolvimento. Esse problema no desenho acaba afetando a imersão e, também, as sequências de ação, ainda que toda a ambientação que ele cria para Auberon e para sua lua esteja perfeitamente em sintonia com o que foi criado para a série, algo que é amplificado pelo uso de cores constantemente frias por parte de Sarah Stern. No final das contas, graças ao roteiro que inicialmente engana pelo quão básico parece ser, o resultado fica ali entre o mediano e o satisfatório, mas nada realmente especial dentro do que o universo expandido em quadrinhos da série trouxe até agora.
Obs: Reconheço que o título em português ficou estranho, mas baseei minha tradução no uso da expressão a little death na sinopse oficial da obra – He’s still playing by Baltimore rules—and when you have a whole planet to play for, a little death goes a long way… – o que a afasta do significado mais famoso, como uma metáfora para orgasmo, ou prazer momentâneo, da expressão original francesa la petit mort.
The Expanse: Um Pouco de Morte (The Expanse: A Little Death – EUA, 2025/26)
Contendo: The Expanse: A Little Death #1 a 4
Roteiro: Wes Chatham, Andy Diggle
Arte: Francesco Pisa
Cores: Sarah Stern
Letras: Simon Bowland
Editoria: Maya Bollinger, Jon Moisan, Sebastian Girner, Andy Schmidt
Editora: BOOM! Studios
Datas de publicação: 17 de setembro, 29 de outubro e 31 de dezembro de 2025; 11 de fevereiro de 2026
Páginas: 128