Uma das séries brasileiras mais brilhantes que pude contemplar. E, caro leitor, eu devo lhe dizer que já assisti uma quantidade expressiva. Mas, ousada, irreverente, divertida e equilibrada em suas situações dramáticas e cômicas como esta, afirmo sem titubear, são poucas. O Negócio é uma narrativa seriada que foi produzida e exibida pela HBO Brasil entre 2013 e 2018, totalizando 51 episódios distribuídos em quatro temporadas. Criada por Luca Paiva Mello e Rodrigo Castilho, a série traz roteiros de Fabio Danesi, Camila Raffanti e Alexandre Soares Silva. A direção, majoritariamente feita por Michel Tikhomiroff e Júlia Jordão, proporciona uma narrativa envolvente que, em média, apresenta episódios de 50 minutos. A trama destaca as vidas de três protagonistas que se dedicam à prostituição, oferecendo uma perspectiva sofisticada sobre o tema, ao mesmo tempo em que examina as estratégias de marketing que elas empregam para se manterem em um mercado repleto de desafios e preconceitos. Notável por sua abordagem realista e crítica, permitindo que os espectadores enxerguem as nuances da vida das protagonistas, que vão além dos estereótipos frequentemente associados à profissão.
Por meio de seus diálogos bem elaborados e cenários que refletem a complexidade das relações humanas, O Negócio provoca reflexões sobre empoderamento, sexualidade e a luta contra o estigma social. O enredo desvela tanto as dificuldades quanto as formas criativas que as personagens encontram para contornar os obstáculos, impulsionando uma discussão sobre autonomia e escolha em um contexto muitas vezes marginalizado. Assim, a série não apenas nos entrega entretenimento, mas também provoca a audiência a reconsiderar suas próprias percepções sobre a prostituição e as vozes que nela habitam.
A produção acompanha a vida de Karin (Rafaela Mandelli), Luna (Juliana Schalch) e Magali (Michelle Batista), três garotas de programa de luxo que se destacam em um mercado competitivo. A narrativa, centrada na perspectiva de Karin, revela como elas aplicam diversas estratégias de marketing para se firmar nesse universo, culminando na criação da bem-sucedida empresa Oceano Azul. Embora Karin seja destacada como a protagonista principal, a série se desenrola das suas experiências compartilhadas pela narração de Luna, numa entrega eficiente de entonação da atriz para o nosso acompanhamento das mais diversas situações dramáticas vivenciadas pelas personagens. Ela mescla sensualidade, humor, sagacidade e deboche no tom de daquilo que narra, transformando este recurso, que poderia ser supérfluo, num elemento fundamental para a estrutura dos episódios. Produzida pela HBO Latin America em parceria com a Mixer, a série é assertiva ao apresentar uma visão mais sofisticada e estilizada da prostituição, inserindo Magali na trama e ampliando a dinâmica do grupo.
Mesmo que em sua abordagem, a série tenha como ponto nevrálgico, retratar um lado mais luxuoso da prostituição, O Negócio se destaca por seu papel em desconstruir estereótipos associados à atividade. A narrativa evita explorar as agruras e sujeiras do submundo, concentrando-se nas nuances e complexidades do trabalho das garotas de programa, enquanto abrange temas como empoderamento, escolha e a busca por reconhecimento em um ambiente frequentemente estigmatizado. Essa abordagem permite aos espectadores uma reflexão mais profunda sobre a realidade das protagonistas, promovendo uma discussão sobre a autonomia feminina e as estratégias de sobrevivência em um mundo que exige constante adaptação e inovação. E, em seu desenvolvimento, se afirma como uma proposta dramática provocativa que instiga o público a pensar criticamente sobre as questões envolvendo sexualidade e profissão: prazer? Patologia? Necessidade? São muito mais complexos os temas que circundam a associação com a prostituição, uma profissão que rende debates há eras.
Diferente do que podemos nos antecipar diante da temática, o primeiro episódio apresenta poucas cenas de sexo em sua duração de uma hora. A trama se concentra na já mencionada Karin, num ótimo desempenho dramático de Mandelli, uma garota de programa que, insatisfeita com a falta de estratégias para atrair clientes, decide romper com seu booker, ou cafetão, para gerenciar sua própria carreira. Por meio de uma conversa com um cliente da amiga Luna, ela tem a ideia de estudar marketing e aplicar esses conceitos ao seu trabalho na prostituição. Essa abordagem oferece uma perspectiva sobre a busca pela autonomia e inovação em uma profissão marcada por estigmas e desafios. Ainda neste primeiro momento, Karin, que se torna a fundadora da empresa Oceano Azul, coloca em prática sua primeira estratégia de marketing para atrair mais clientes a uma boate frequentada por garotas de programa. Ela implementa uma promoção voltada para operadores da bolsa de valores, vinculando o sucesso da ação ao funcionamento do mercado financeiro. À medida que a série avança, as protagonistas buscam aprofundar seu entendimento sobre as preferências masculinas ao encomendarem uma pesquisa de opinião com uma consultoria. Elas também exploram técnicas de venda casada e trabalham no reposicionamento de sua marca, almejando criar um programa de fidelização, mesmo que seus clientes sejam, em muitos casos, maridos infiéis.
É, em suma, um painel vigoroso de experiências divertidas, bem como entretenimento com tons didáticos, não apenas de marketing, mas de relacionamentos humanos. A abordagem da série é destacar a prostituição de uma forma não julgadora, enfatizando a autonomia e a estratégia das personagens em um ambiente muitas vezes cercado de preconceitos. Em sua primeira temporada, composta por 13 episódios, as cenas foram filmadas em mais de 130 locações diferentes em São Paulo, algo que nos proporciona uma rica ambientação urbana e um contexto vibrante para a narrativa. O Negócio se propõe a tratar a prostituição de maneira distinta, focando nas experiências e desafios enfrentados pelas protagonistas sem impor juízos de valor. Essa perspectiva inovadora oferece uma visão mais humana e complexa do tema, contribuindo para uma discussão significativa sobre a vida das garotas de programa, suas decisões e a maneira como elas buscam se destacar em um mercado competitivo e recheado de estigmas sociais. Interessante que no processo de construção de suas personagens, as atrizes decidiram imergir no universo da elite paulistana, seguindo uma orientação da direção da série, que buscava evitar estereótipos ao retratar a vida das garotas de programa.
Curiosamente, elas não interagiram com prostitutas da vida real durante sua preparação. Em contrapartida, os criadores do programa se dedicaram a conversar com profissionais do setor de alto padrão e contaram com a consultoria de especialistas em marketing para desenvolver um roteiro coerente e informativo. Todo este cuidado de quem entende da boa dramaturgia, algo que requer pesquisa e na construção das narrativas, foi fundamental para garantir que O Negócio explorasse temas complexos de forma sensível e autêntica, refletindo a realidade das protagonistas sem reduzir suas histórias a caricaturas e trajetórias essencialistas. Ademais, como cultura e entretenimento são contextuais, importante destacar que a produção representou marcos significativos para a HBO aqui no Brasil. Além de ser a primeira a contar com 51 episódios e a se estender por quatro temporadas, a produção também se destacou por ter um planejamento de longo prazo que garantiu uma conclusão adequada da narrativa. Foi pioneira ao apresentar um elenco principal formado por quatro mulheres e ao ser lançada simultaneamente em mais de cinquenta países, incluindo diversas nações da América Latina e da Europa.
Essa ampla distribuição e engajamento com o público foram aspectos inovadores que contribuíram para seu sucesso. Ao acompanhar a trajetória e assistir repetidamente alguns episódios ao longo dos anos, além de investir em leituras sobre a produção, o grande desafio consistiu em elevar continuamente o nível da produção a cada nova temporada. Eles ressaltam que a HBO sempre apoiou a busca por altos padrões de qualidade em todos os aspectos da série. Apesar das quatro temporadas, o trabalho de preparação se estendeu por seis anos, envolvendo planejamento meticuloso e dedicação intensa, refletindo um compromisso firme com a excelência e o desenvolvimento consistente da trama e dos personagens ao longo de sua jornada dramática bem-sucedida no âmbito da crítica e da audiência. Foi por essa abordagem cuidadosa ajudou O Negócio a se consolidar como uma das produções mais célebres da HBO no Brasil, ao trabalhar com o conceito “Oceano Azul”, introduzido por W. Chan Kim e Renée Mauborgne no livro Blue Ocean Strategy, publicado em 2005.
Esta estratégia de marketing se baseia na ideia de que as empresas podem ter sucesso não apenas competindo em mercados existentes (ou “oceanos vermelhos”), mas criando novos espaços de mercado (“oceanos azuis”). Ao invés de lutar contra a concorrência, as organizações devem buscar a inovação e a diferença, resultando em um crescimento sustentável e rentável. É o que Karin faz ao longo de sua jornada empreendedora na prostituição. Em linhas gerais, Oceano azul se refere a uma área de mercado ainda não explorada, onde a concorrência é irrelevante. Nesse tipo de mercado, as regras ainda não foram estabelecidas, permitindo que as empresas desenvolvam e ofereçam novos produtos, serviços ou experiências que atendam às necessidades dos consumidores de maneira inovadora. Além disso, a inovação de valor é o cerne da estratégia de oceano azul. Ela busca criar um novo valor a partir daquelas áreas que não haviam sido abordadas anteriormente. Para alcançar isso, as empresas devem realizar duas tarefas simultâneas: reduzir custos e aumentar o valor para o cliente. Isso envolve a análise das necessidades dos consumidores e a identificação dos fatores que devem ser eliminados, reduzidos, aumentados ou criados dentro do ambiente competitivo.
A implementação bem-sucedida de uma estratégia de oceano azul exige ferramentas e frameworks que ajudem na identificação de novas oportunidades de mercado. Uma das ferramentas principais é o “Quadro de Ação”, que ajuda a visualizar a proposta de valor que uma empresa está oferecendo e leva a uma reflexão sobre a estrutura atual da indústria. Sem perder o foco no entretenimento, mas de maneira didática também, O Negócio nos apresenta tudo isso, de maneira distribuída, ao longo de muitos de seus episódios focados também em debater questões dramáticas pessoais envolvendo os personagens. Ele propõe responder às seguintes perguntas: o que a indústria deve eliminar? O que deve ser reduzido abaixo dos padrões da indústria? O que deve ser elevado acima dos padrões da indústria? O que deve ser criado que a indústria nunca ofereceu? Na série, uma das angústias das protagonistas é a dependência dos cafetões. Quando entendem melhor as diferenças entre preço e valor, elas prosperam ainda mais dentro desta estratégia que nomeia a própria empresa que comandam. Outra ferramenta importante é o “Mapa do Valor”, que auxilia as empresas a visualizarem as percepções dos clientes sobre o valor e a experiência oferecida. Isso não só destaca as áreas de diferenciação, mas também possibilita uma visão clara das lacunas de mercado que podem ser exploradas, algo que não será o foco de Karin apenas nesta primeira temporada, mas nas demais situações dramáticas adiante.
Uma produção marcante, que merece ser conferida por quem admira boa dramaturgia. Você, caro leitor, o que está esperando?
O Negócio – 1ª Temporada (Brasil, 24 de ago. de 2014 – 10 de novembro de 2013)
Criação: Luca Paiva Mello, Rodrigo Castilho
Direção: Júlia Pacheco Jordão, Michel Tikhomiroff
Roteiro: Luca Paiva Mello, Rodrigo Castilho, Fabio Danesi, Camila Raffanti, Alexandre Soares Silva
Elenco: Rafaela Mandelli, Juliana Schalch, Michelle Batista, Júlia Feldacker, Caio Blat, Maria Casadevall, Felipe Abib, Marco Pigossi, Enrico Tocci, Guilherme Weber, Gabriel Godoy, Eduardo Semerjian, Johnnas Oliva, João Gabriel Vasconcellos, Gabriela Cerqueira, Cris Bonna, Tony Mastaler, Pedro Inoue, Einat Falbel, Isabel Wilker, Jessica Drago, Renata Fasanella, Joaquim Guedes
Duração: 44 min em média por episódio, 13 episódios