Nem mesmo a desvalorização dos ativos domésticos no último pregão de janeiro apagou o bom desempenho da bolsa e do câmbio no Brasil no mês passado. Com apoio de um fluxo de capital estrangeiro fora do comum neste início de ano, o desempenho mensal combinado do Ibovespa e do real registrou a melhor performance desde novembro de 2020. Participantes do mercado até veem alguma continuidade na dinâmica positiva doméstica, mas levantam dúvidas sobre uma sequência prolongada do rali à frente.
A cautela surge, sobretudo, diante do desempenho extraordinário da bolsa e do real em janeiro. No mês passado, o Ibovespa sustentou valorização de 12,56%, enquanto o dólar caiu 4,39% no mercado doméstico de câmbio. Como comparação, em novembro de 2020, a principal referência acionária local teve uma apreciação de 15,9%, enquanto a moeda americana recuou 6,82% frente ao real.
Cinco anos atrás, o bom momento dos mercados locais foi marcado pela questão sanitária e as expectativas em torno da criação de vacinas contra a covid-19, algo bem diferente do cenário atual. Ainda assim, o ponto semelhante diz respeito aos Estados Unidos. Em novembro de 2020, o democrata Joe Biden havia vencido a eleição presidencial contra Donald Trump, o que abriu espaço para o “reflation trade”, ou seja, a aposta em um retorno da inflação diante das expectativas de mais gastos públicos, o que beneficiou os preços das commodities e, consequentemente, os mercados emergentes.
Esse mesmo “reflation trade” voltou a dar as caras neste início de ano, ainda que por outros motivos. Com as dúvidas diárias dos investidores em relação à política dos EUA e ao aumento das tensões geopolíticas de forma geral, uma busca mais expressiva por ativos reais impulsionou os preços das commodities — a começar pelas metálicas —, e se refletiu em uma diversificação de portfólios que beneficiou os mercados emergentes.
O fluxo, de fato, tem sido bastante relevante. De acordo com dados da EPFR, obtidos em relatório do J.P. Morgan, os fundos de ações de mercados emergentes registraram entrada recorde de US$ 14,9 bilhões no período de cinco dias encerrado em 28 de janeiro, o maior volume semanal já observado na história. Na semana encerrada em 21 de janeiro, o volume já havia sido expressivo, ao totalizar US$ 9,6 bilhões.
“A maior parte dessas entradas ocorreu por meio de ETFs [fundos de índice], que atraíram fluxos recordes de US$ 13,3 bilhões. Ainda assim, chama a atenção que os fundos não-ETF também tenham registrado entradas expressivas de US$ 1,5 bilhão, permanecendo positivos pela terceira semana consecutiva”, diz a equipe de estrategistas do banco.
Como consequência, esse comportamento fortaleceu o aumento substancial nos fluxos para a bolsa local e para moedas ligadas a commodities, como o real. “Por ser um mercado de valor sem exposição ao setor de tecnologia, o Brasil acaba oferecendo oportunidades para investidores que desejam diversificar”, observa a gestora de mercados emergentes da holandesa Robeco, Daniela da Costa-Bulthuis.
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Apenas em janeiro, o capital aportado por investidores estrangeiros no segmento secundário da B3 (ações já listadas) chegou a R$ 23,1 bilhões até a última quarta-feira, 28. O valor corresponde a cerca de 91% dos aportes registrados em todo o ano de 2025 (R$ 25,4 bilhões).
No caso do câmbio, os números de entrada de capital no país e de otimismo com o real também chamam atenção. O fluxo financeiro, que vinha sendo marcado pelo saldo bastante negativo em 2025, acumula entrada de US$ 3,5 bilhões neste ano até o dia 23 de janeiro, de acordo com dados divulgados pelo Banco Central.
Já nos mercados de derivativos da B3, a posição comprada em dólar (aposta na apreciação da moeda americana) do investidor estrangeiro caiu de cerca de US$ 55 bilhões na virada do ano para algo em torno de US$ 51 bilhões também na última quarta-feira, segundo um operador de câmbio, com base em dados da B3 que deixaram de ser divulgados gratuitamente no ano passado.
Mas, para além do capital aportado pelos estrangeiros, no caso do câmbio também houve uma leitura de que ruídos de fluxo no fim do ano passado teriam ficado no passado e dado lugar, novamente, ao diferencial de juros entre Brasil e EUA. O estrategista de mercados emergentes Alvaro Vivanco, do Wells Fargo, diz, em nota, que o principal atrativo do real tem sido o diferencial de juros ajustado à volatilidade, muito superior ao de praticamente todos os pares em mercados emergentes, incluindo o peso mexicano e o peso colombiano.
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Além disso, Vivanco aponta que a melhora nos termos de troca criou uma base sólida para o câmbio nos próximos meses. Por isso, o banco antecipa entradas de capital maiores do que no ano passado.
“As exportações líquidas podem atingir um ritmo de cerca de US$ 5,64 bilhões por mês, além de menores saídas líquidas financeiras, ao menos até fevereiro”, diz o profissional. O estrategista, no entanto, tem cautela ao se posicionar em favor do real, e defende montar posições compradas na moeda brasileira contra o peso colombiano, e não direcionais, por fatores como eleições e corte da Selic neste ano.
Visão semelhante é defendida pelos analistas Michael Pfister e Norman Liebke, do Commerzbank. Eles reconhecem a melhora da moeda brasileira neste começo de ano, mas atribuem o movimento ao cenário global, o que pode dar margem para uma valorização adicional no curto prazo.
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Ao longo do ano, contudo, o fator internacional tende a ser ofuscado por questões domésticas. “Somente após a eleição e quando a maior parte dos cortes de juros já tiver ocorrido é que o câmbio brasileiro deve voltar a subir. Assim, esperamos uma depreciação moderada do real ao longo do ano, com o dólar atingindo R$5,70 até o fim do ano.”
Por ora, no entanto, o fluxo estrangeiro para o Brasil pode ter aberto uma janela de oportunidade para destravar um comportamento semelhante no investidor local. O otimismo do estrangeiro foi tema nos dois dias de evento realizado pelo UBS BB na semana que passou. A surpresa com o forte fluxo de alocadores de fora do país na bolsa local foi mencionada por diversos gestores de casas renomadas em painéis ou em conversas privadas durante o evento. “Nunca vi, em tão pouco tempo, uma força tão grande vinda do ‘gringo’. Estamos ficando sem papel”, resumiu o CEO da AlphaKey, Christian Keleti, em uma das sessões.
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O grande interesse dos investidores estrangeiros também foi notado ao se andar pelos corredores do evento e nas várias abordagens aos gestores ao final de cada painel. “Esse foi o evento que mais teve cliente estrangeiro. Fizemos reuniões individuais com vários deles”, afirmou um executivo de um grande banco, que frequenta a conferência do UBS BB anualmente.
Esse interesse pelo Brasil despertado no estrangeiro e reconhecido pelo local pode ajudar a explicar o motivo de os fundos domésticos se posicionarem a favor do câmbio brasileiro. De acordo com dados dos mercados de derivativos, os fundos locais dobraram a aposta a favor do real em janeiro, saindo de uma posição vendida em dólar em torno de US$5 bilhões no começo do ano para algo perto de US$ 11 bilhões na última quarta-feira.
O otimismo dos fundos locais atingiu também o mercado de juros, em especial após uma sequência de dados mais fracos da economia local e, principalmente, após a decisão do Banco Central, na última quarta-feira, que sinalizou que começará a cortar a Selic em março. Não à toa, a venda expressiva de 27 milhões de títulos prefixados pelo Tesouro Nacional no dia seguinte à decisão da autoridade foi muito bem absorvida pelo mercado. Ainda que a NTN-F seja um papel conhecido por atrair mais interesse de investidores estrangeiros, o chefe de tesouraria de um grande banco afirmou que a demanda do leilão se deu, principalmente, pelos investidores locais.
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Mas, se no câmbio e nos juros os investidores locais parecem otimistas neste momento, o mesmo pensamento não é totalmente compartilhado quando o assunto é o mercado acionário. Enquanto os investidores não residentes aportam de forma maciça na bolsa local, os institucionais acumulam retiradas de R$ 14,3 bilhões no mês até a última quarta-feira. Segundo gestores ouvidos pela reportagem, a visão é de que o momento parece mais propício para alocar em moedas — como defende a Legacy Capital.
“O fluxo [estrangeiro] para as ações brasileiras não está lastreado em fundamento neste momento. Por isso, a gente prefere ficar meio fora de bolsa local. Achamos que tem uma certa cara de bolha na bolsa brasileira”, enfatizou o sócio e diretor de investimentos (CIO) da Legacy, Felipe Guerra, em um dos painéis do evento do UBS BB. “O pouco dinheiro que saiu dos EUA tem grande impacto aqui no Brasil. Mesmo assim, achamos que não é pra vender bolsa porque o fluxo é avassalador.”