De “crises globais de água”, choques temporários seguidos de recuperação, o mundo caminha agora para a “falência hídrica global”, declarou a ONU em janeiro. Trata-se de uma escassez persistente atingindo muitas regiões, o que implica maior disputa pela água para o consumo humano e para a atividade econômica. Mesmo o Brasil, que abriga 16% dos recursos hídricos renováveis do planeta, começa a sentir os efeitos dessa tragédia anunciada, resultado das mudanças climáticas e do efeito cumulativo de décadas de desmate em importantes biomas – da Amazônia à Mata Atlântica e ao Cerrado. Meteorologistas alertam que as regiões Sudeste e Centro-Oeste, que concentram grandes centros urbanos e importante produção agrícola exportadora e industrial, devem se preparar para uma seca severa este ano.
Um planeta cada vez mais quente tem levado a profundas mudanças no regime de chuvas. Nos últimos três anos, a temperatura média global ficou mais de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais pela primeira vez desde o início dos registros, segundo dados do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da Comissão Europeia. Essas temperaturas recordes são resultado principalmente do acúmulo de gases-estufa na atmosfera com a redução da absorção de CO2 pelos sumidouros naturais (como a Floresta Amazônica), e de temperaturas da superfície do mar em níveis excepcionalmente altos em todo o oceano.
No Brasil, há 60 anos chove menos a cada ano. Mesmo a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) – o equivalente às monções da Ásia – está despejando menos água do que o esperado nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Assim, o ano começou com importantes reservatórios em níveis críticos em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A situação precária dos reservatórios ocorre na sequência de uma onda de calor extremo que atingiu os Estados do Sudeste em dezembro e início de janeiro, o que elevou o consumo de água, enquanto a falta de chuvas reduziu a reposição dos lençóis freáticos e a supressão de matas ciliares levou à seca de nascentes, diminuindo a vazão dos rios. Acrescente-se a expansão da irrigação agrícola e a extração descontrolada da água e o resultado é menos água doce disponível para o consumo humano e a atividade econômica.
Apesar de ter começado a chover no fim de janeiro no Sudeste, a situação continua crítica nos reservatórios, uma vez que o pico da estação de chuvas termina este mês. Nos últimos 40 anos, a estação chuvosa encurtou 25 dias no Sudeste e no Centro-Oeste, segundo estudo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden, O Globo, 27-1). No Cerrado, bioma que abriga as nascentes de oito das doze grandes regiões hidrográficas do país, o encurtamento do período de chuva é ainda maior, de 56 dias, aponta um relatório da Ambiental Media de junho de 2025 que analisa 51 anos de dados da Agência Nacional de Águas (ANA).
Desde a década de 70, a vazão dos rios do Cerrado diminuiu 27%, enquanto as chuvas caíram 21%. O bioma está secando. Os sinais são evidentes no oeste da Bahia, o coração da fronteira agrícola de Matopiba, onde cursos d’água antes confiáveis agora só aparecem após chuvas intensas. Um mapeamento participativo realizado por organizações locais mostrou que mais de 7 mil quilômetros de rios e córregos deixaram de fluir durante o ano todo, aponta um estudo publicado em janeiro no site Trase, fundado pelo Stockholm Environment Institute e a Global Canopy.
O Cerrado já perdeu mais de 50% de sua cobertura original com o avanço do agronegócio. Isso tornou o Brasil um dos maiores exportadores mundiais de soja e carne bovina e também de água – embora esse custo ainda não esteja representado nos preços dessas commodities. A pecuária brasileira precisa de 10,1 bilhões a 10,4 bilhões de metros cúbicos de água por ano para manter o rebanho, de acordo com a Trase (Folha de S. Paulo, 1-2). Trata-se de um volume maior do que a soma do consumo das populações dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná e mais o Distrito Federal, que atinge 7,8 bilhões de metros cúbicos. A maior parte da água consumida pelos animais vem de rios e aquíferos. Já a produção de soja consome de 188 bilhões a 206 bilhões de metros cúbicos de água anualmente, sete vezes a capacidade da represa da usina hidrelétrica de Itaipu. No caso da soja, a maior parte desse volume vem da água da chuva. Toda essa produção agora encontra-se em risco.
A deterioração das principais bacias hidrográficas para o abastecimento de água do país eleva a pressão competitiva entre setores empresariais, usuários domésticos e ecossistemas. Mas o futuro não é necessariamente de falência hídrica, como observou Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas. É preciso dar início a um plano de recuperação estruturado, estancar a sangria, proteger os serviços essenciais e investir na reconstrução. O primeiro passo para o enfrentamento é reconhecer de forma franca e objetiva a irreversibilidade das perdas até o momento, proteger os recursos hídricos remanescentes e elaborar políticas que correspondam à realidade hidrológica, em vez de normas do passado.