O dólar registrou leve valorização frente ao real nesta segunda-feira, em um movimento alinhado à dinâmica global e com a moeda brasileira devolvendo parte da valorização observada em janeiro, em uma realização de lucros. Desde a indicação de Kevin Warsh para chefiar o Federal Reserve (Fed), tem sido observada uma retomada na força do dólar em detrimento de outras moedas e também dos preços de commodities.
Encerradas as negociações de hoje, o dólar à vista terminou em alta de 0,19%, cotado a R$ 5,2575. Já o euro comercial foi no sentido oposto, registrando queda de 0,49%, a R$ 6,1968. Perto das 17h10, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas fortes, estava em alta firme de 0,66%, aos 97,632 pontos.
O dólar abriu a sessão de hoje em alta, chegou a encostar no nível de R$ 5,28, mas apagou o movimento. Ainda que o real tenha terminado o dia desvalorizado, na visão do economista-chefe do Banco Daycoval, Rafael Cardoso, a indicação de Kevin Warsh à presidência do Federal Reserve (Fed) não deve significar aversão a risco para os investidores.
“Ele é próximo do Trump, mas deve manter a institucionalidade. A indicação minimiza a possibilidade de alguém no Fed leniente com o processo inflacionário, por exemplo. Acho que a nomeação reduz a chance de vermos um economista mais ideológico. Esse movimento do dólar a reboque da nomeação tem muito mais a ver com essa melhora do cenário em relação às expectativas anteriores”, explica.
O economista destaca, ainda, que o alto diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos deve continuar a dar força para o real frente a uma tendência de desvalorização global do dólar a médio e longo prazo que se mantém. Ainda que o comunicado da semana passada do Banco Central tenha indicado que o início do ciclo de afrouxamento será em março, na visão de Cardoso o cenário não muda.
“Em termos de câmbio, o impacto da decisão do BC não é muito relevante porque, a despeito da comunicação, a atitude já era esperada, então não tem grande alteração. Existe um fato adicional que é o cenário de enfraquecimento geral do dólar. Mesmo com um diferencial menor de juros, o fenômeno global de desvalorização do dólar pode se sobrepor”, avalia Cardoso.
Leitura semelhante tem o Goldman Sachs. Em relatório semanal, o banco afirmou que o real deve continuar se beneficiando do dólar mais fraco, mas por outros motivos. “Esperamos que o pano de fundo pró-cíclico, com potencial de alta das commodities, continue a beneficiar o real e acreditamos que esse fator pode ser um direcionador mais importante do que mudanças na política monetária neste momento”, diz trecho da nota.
O banco americano diz acreditar que o início de um ciclo de cortes deve ter impacto limitado sobre o real neste momento, uma vez que as taxas reais permanecerão elevadas, o BC provavelmente cortará os juros de forma cautelosa, e o desempenho cambial também é influenciado por outros fatores, incluindo o dólar global.
“Fora da política monetária, o ruído local causado pelas notícias deve permanecer limitado durante o período de carnaval. Ainda assim, olhando para trás, a volatilidade implícita do câmbio brasileiro aumentou antes das três últimas eleições presidenciais”, diz o Goldman. “Esperamos que isso também ocorra neste ano, sendo o próximo evento relevante a observar se o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deixará ou não seu cargo atual até o início de abril.”
No dia, o mercado local também repercutiu a notícia do fim de semana de que o atual secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, teria sido indicado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para uma das cadeiras vagas na diretoria do Banco Central. No caso do câmbio, operadores mencionaram algum efeito da indicação, ainda que pontual.
“Há outros fatores também [para explicar o real mais fraco do que os pares], como o respiro nos preços das commodities metálicas, que está ajudando os pares, e aqui não ajuda”, diz um gestor na condição de anonimato. Outro profissional faz certa ponderação do movimento visto hoje cedo relativo a Mello. “Quando nomearam o Haddad não foi um movimento diferente, depois com o Galípolo a mesma coisa, sendo que hoje o mercado avalia bem o trabalho do Galípolo.”