O dólar à vista encerrou o pregão desta quarta-feira em queda frente ao real, o quinto seguido de desvalorização, em um movimento semelhante ao observado na maioria dos mercados mais líquidos acompanhados pelo Valor. A busca por ativos de risco hoje beneficiou moedas de mercados emergentes e divisas ligadas a preços de commodities. O dólar até chegou a reverter o movimento perto das 12h, mas depois a dinâmica se desfez. Operadores também mencionaram algum suporte vindo da pesquisa eleitoral da AtlasIntel, que indicou chances de uma disputa presidencial mais acirrada neste ano.
Terminadas as negociações do mercado à vista, o dólar comercial registrou desvalorização de 0,60%, cotado a R$ 5,1246, no menor patamar desde 21 de maio de 2024, quando a moeda americana encerrou a R$ 5,1162. O dólar ainda encostou na mínima de R$ 5,1181 e bateu na máxima de R$ 5,1670. Já o euro comercial registrou queda de 0,36%, a R$ 6,0502.
Perto do fechamento, o real apresentava o quinto melhor desempenho entre as 33 moedas mais líquidas, atrás apenas do florim húngaro, won sul-coreano, dólar australiano e rand sul-africano. Já o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, caía 0,15%, aos 97,693 pontos.
O pregão desta quarta-feira foi marcado por uma maior procura por ativos de risco, o que beneficiou moedas de mercados emergentes e ligadas a preços de commodities. Na parte da manhã, a dinâmica até chegou a perder tração, com o dólar ganhando terreno (não só no Brasil, mas principalmente frente ao real), mas na parte da tarde o movimento se desfez.
Ao Valor, Carlos Muñoz Cárcamo, estrategista de câmbio do Deutsche Bank, diz que o ambiente neste ano deve seguir favorável para moedas de mercados emergentes, e o real deve se beneficiar disso. “Mesmo com crises geopolíticas globais, não vimos as moedas da América Latina depreciando, pelo contrário, elas têm se mostrado resilientes”, diz, acrescentando que há outras razões para sua visão construtiva com as moedas de mercados emergentes. “Uma delas é o crescimento global, que deve continuar forte, e também os preços das commodities que devem ficar altos, em especial os metais”, diz.
“Além disso, os bancos centrais dos países emergentes devem manter cautela, e isso inclui o Banco Central do Brasil. Ainda que estejam precificados cortes de juros pelo BC, isso deve ocorrer de forma lenta, e as taxas reais elevadas devem continuar dando suporte ao real, a moeda com maior apelo na estratégia de ‘carry trade’ hoje”, afirma, lembrando que a casa gosta de posições vendidas em dólar contra o real.
O estrategista do Deutsche Bank afirma que a volatilidade dos mercados de câmbio tem também permanecido baixa, o que beneficia as operações de carry trade. No caso do Brasil, Cárcamo até reconhece espaço para um aumento da volatilidade, mas diz esperar que isso ocorra no terceiro trimestre, nos meses de agosto e setembro. “Porque vai ser neste momento que vamos ter mais clareza e informações sobre as probabilidades de cada candidato e suas respectivas políticas econômicas”, aponta, acrescentando que a volatilidade também tende a ficar mais contida enquanto os juros continuarem elevados e o posicionamento contrário ao real permanecer caro.
Mas há quem não seja tão otimista com o real. Mauricio Monge, economista sênior da Oxford Economics, diz em nota que após um primeiro trimestre relativamente tranquilo, a casa espera que “o real brasileiro se deprecie gradualmente”, refletindo a perspectiva de reeleição de Lula em conjunto com uma postura cautelosa do Banco Central. “Estimamos uma depreciação de 2,7% do real brasileiro em 2026.”
A sessão também foi marcada pela divulgação do fluxo cambial da última semana, que apesar de curta por conta do feriado de Carnaval, foi marcada por uma entrada de US$ 1,87 bilhão. O número que vinha sendo aguardado pelos investidores era o referente a quinta-feira, dia em que operadores mencionaram possível entrada de capital no país por conta da liquidação dos bonds leiloados pelo Tesouro Nacional uma semana antes. Naquele dia, 19 de fevereiro, houve ingresso líquido de US$ 2,344 bilhões pela conta financeira, conforme os números do BC. O montante pode explicar o movimento da autoridade monetária em deixar vencer parte do estoque de swap cambial na virada do mês, equivalente a US$ 1,25 bilhão, conforme já havia indicado o Valor no começo da semana.