O dólar voltou a cair contra o real na sessão desta sexta-feira, após uma semana em que a moeda americana vinha se apreciando, beneficiada pela alta volatilidade em outros ativos, como bolsas, metais preciosos e commodities. O movimento perdeu força desde a divulgação de novos dados dos Estados Unidos, que trouxeram incertezas em relação ao mercado de trabalho americano. Além disso, a melhora na percepção de risco dos ativos globais também alivia o câmbio no dia.
No fechamento, o dólar comercial era negociado a R$ 5,2202 no mercado à vista, em queda de 0,64%. Na semana, a moeda americana se desvalorizou em 0,52%. No dia, o euro comercial recuou 0,40%, a R$ 6,1704. O índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas desenvolvidas, estava em queda de 0,19%, aos 97,635, revertendo o movimento de apreciação visto no início da semana.
A recuperação do câmbio doméstico veio forte desde o início do pregão, com o dólar em queda firme e chegando a tocar o patamar de R$ 5,20 nas mínimas. A estabilização veio em um dia positivo para os preços de commodities e em que predomina o viés mais favorável a risco nos ativos globais. O comportamento segue errático desde a indicação do ex-diretor do Federal Reserve (Fed) Kevin Warsh para o comando do banco central americano.
Na visão do sócio e diretor da Wagner Investimentos, José Faria Júnior, a indicação, que antes era positiva para o dólar, passou a gerar mais incerteza dos investidores com o passar dos dias, o que contribuiu para a correção vista hoje. “Está caindo a ficha de que Warsh não é tão ‘hawkish’ [propenso à manutenção dos juros] assim”.
“Um levantamento mostra que no período que Warsh serviu ao governo republicano de Bush ele foi ‘dovish’ [propenso a cortes de juros]. Obama assumiu e ele mudou radicalmente a postura. Ele é um operador político, para ser presidente do Fed tem que ser político. Mas o ponto é que ele não é tão confiável, depende de quem está no governo, e pelo jeito já está caindo a ficha do mercado”, avalia.
Com relação aos dados da economia americana, que mostraram um mercado de trabalho mais enfraquecido e trouxeram mais dúvidas sobre a economia americana, Faria Júnior ainda avalia o cenário com cautela. Segundo o executivo, os dados de desemprego divulgados na semana que vem devem ser o melhor termômetro a respeito do mercado de trabalho.
“O que está parecendo é que, se o desemprego não subir, esse é o novo normal mesmo. O PIB vai bem, a demanda privada doméstica é de 3%, também é bacana. Mas ontem houve aversão a risco com os quatro dados de emprego da semana, que jogaram o juro de dois anos para baixo e aumentaram a probabilidade de corte em junho. Acho que a economia ainda está saudável, mas é preciso ver o ‘payroll’ e o desemprego”, explica.
No saldo da semana, o real exibe valorização, alinhado à alta dos preços do ouro, em um sinal de que, nos últimos dias, os participantes do mercado têm calibrado a exposição ao dólar e seguem atentos às teses de erosão do valor da moeda americana como fonte de segurança. É o caso dos estrategistas do Citi para América Latina, na equipe comandada por Ivan Riveros. “O ambiente geral para o complexo de emergentes e moedas ligadas a commodities segue favorável”, afirmam em relatório enviado a clientes.
“Além disso, historicamente o real costuma ter bom desempenho quando o primeiro corte de juros se aproxima, mas, depois, passa a enfrentar dificuldades a depender da intensidade do ciclo de afrouxamento. Acreditamos que o real ainda tem espaço para continuar a se destacar até março, quando, normalmente, também entra em cena o ‘trade’ eleitoral”, escrevem os estrategistas do banco americano.