Crédito, Arquivo de família
- Author, Lucy Whyte
- Role, BBC Escócia
Tempo de leitura: 7 min
Os pais de uma adolescente que morreu de câncer de mama na Escócia afirmam que sua única filha ainda poderia estar viva se tivesse recebido o mesmo tratamento de um adulto.
Isla Sneddon, de Airdrie (a 19 km de Glasgow), morreu em março de 2025 com apenas 17 anos de idade — seis meses depois de ter sido diagnosticada com câncer.
Seus pais afirmam que, devido à sua pouca idade, os médicos classificaram seu encaminhamento para biópsia como sendo de rotina. Por isso, o câncer só foi detectado quando era tarde demais.
Agora, Mark e Michelle Sneddon pedem uma mudança na lei, que garanta que os encaminhamentos pediátricos urgentes fiquem sujeitos ao mesmo tempo máximo de espera dos adultos.
O governo da Escócia declarou ter publicado novas orientações relativas ao câncer em agosto do ano passado e que o secretário de Saúde local aguarda a oportunidade de discutir em breve a petição apresentada pela família Sneddon.

Crédito, Arquivo de família
Isla Sneddon foi ao clínico geral pela primeira vez em julho de 2022, com um caroço no seio. Ela foi informada que provavelmente era benigno, causado por mudanças hormonais.
“Disseram a ela que era hormonal — um fibroadenoma — e iria desaparecer”, conta seu pai, Mark.
Dois anos depois, Isla Sneddon ficou doente e encaminhada ao hospital. Os médicos suspeitaram que ela tivesse câncer e a encaminharam com urgência para a biópsia.
Mas seus pais afirmam que a clínica reduziu a urgência do encaminhamento devido à idade da paciente.
Após 10 semanas no hospital, em setembro de 2024, ela foi diagnosticada com câncer quando foi encontrado um sarcoma no revestimento do coração. Ele já havia se espalhado para os pulmões e nódulos linfáticos.
“O oncologista nos levou para uma sala e, basicamente, disse: ‘sua filha vai morrer, ela tem de seis meses a um ano de vida'”, relembra Mark.
“Isla não quis saber, ela só queria viver sua vida da melhor forma. Ela era uma alma muito gentil e nosso mundo passou a girar em torno de fazê-la feliz.”
Ele conta que havia dito a ela desde pequena que não via a hora de ensiná-la a dirigir e comprar seu primeiro carro, mas nunca teve essa chance.

Crédito, Arquivo de família
Isla Sneddon continuou a receber quimioterapia e teve alta do hospital.
A família decidiu passar o máximo de tempo possível junta, nos meses que faltavam. Mas a condição da jovem se agravou e ela foi levada às pressas para o hospital em março de 2025.
O pai conta que os médicos disseram que ela era a “pessoa mais doente no hospital” e que suas necessidades eram “complexas demais” para a ala onde ela estava. Mas seus pais ainda tinham esperança de que ela fosse se recuperar.
Até que as condições de Isla chegaram a um ponto em que seus pais foram informados que não havia mais nada a se fazer.
“Nós cuidamos dela por seis meses de quimioterapia e ela simplesmente morreu no final”, lamenta Mark Sneddon. “Ela ainda parecia saudável e bonita, mas morreu no hospital, nos nossos braços.”
Os pais da jovem acreditam que, se a intervenção tivesse ocorrido mais cedo e se Isla fosse um adulto apresentando os mesmos sintomas, eles teriam passado mais tempo com sua única filha.

No ano passado, os pais de Isla Sneddon defenderam a criação da lei Isla, garantindo que crianças e jovens de toda a Escócia sejam avaliadas e tratadas com o mesmo grau de urgência e acesso a exames dos adultos.
O NHS (serviço público de saúde britânico) da Inglaterra formalizou recentemente uma regra de “três etapas”, a chamada regra de Jess. Ela incentiva os clínicos gerais a repensar um diagnóstico, se o paciente se apresentar por três vezes com os mesmos sintomas ou preocupações.
A regra recebeu o nome de Jessica Brady, que morreu de câncer aos 27 anos, depois de consultar seu clínico geral 20 vezes até receber o diagnóstico.
A família Sneddon também pede uma revisão pública dos atrasos dos diagnósticos pediátricos na Escócia, para identificar falhas sistêmicas e implementar mudanças.
A mãe de Isla, Michelle, afirma que os sintomas da filha, muitas vezes, eram desprezados como sendo ansiedade, por ela ser jovem. Mas o hospital declarou posteriormente que, na verdade, ela não tinha ansiedade. Aquilo era um sinal do câncer.
“Se uma criança apresenta um caroço, sintomas de ansiedade, infecções no peito ou amigdalite (dois ou três destes sintomas), o clínico geral deveria seguir um caminho diferente das orientações gerais”, defende Michelle Sneddon.
“O câncer de Isla não tinha orientações. Ele era raro e, se alguém tivesse observado um caminho diferente, Isla talvez ainda pudesse estar aqui.”

Michelle Sneddon acredita que o tumor canceroso tenha permanecido dormente sob um fibroadenoma e começado a se espalhar lentamente, até o ponto em que era tarde demais para tratar.
Mas uma investigação mais longa, como mamografia ou tomografia, poderia ter poupado a vida da filha.
O casal afirma que Isla foi um caso “atípico”, mas, agora, eles lutam para impedir que outras famílias passem pelo que eles enfrentaram.
Para Mark, na maioria dos casos, as crianças que apresentam os mesmos sintomas de Isla provavelmente não têm a doença porque são jovens. E que Isla estava em uma pequena minoria.
Mas ele destaca: “Não quero que nenhuma mãe ou pai sinta o mesmo que Michelle e eu sentimos.”
Agora, a família tem uma reunião marcada com o secretário de Saúde da Escócia, Neil Gray, para discutir suas preocupações.
Mas a mãe conta que eles foram alertados que precisarão esperar a formação de um novo governo, até que um possível projeto de lei possa ser apresentado ao Parlamento.
A resposta do serviço de saúde
Arwel Williams, diretor de serviços urgentes do NHS Lanarkshire (a região da Escócia onde Isla Sneddon foi atendida), declarou que “nossa equipe vem atendendo as preocupações da família por meio de correspondência e reuniões presenciais e reafirmamos aos pais que o tratamento de Isla estava de acordo com os processos clínicos esperados”.
“Mas reconhecemos totalmente como o episódio foi devastador para a família, que permanece com nossos pensamentos e sincera solidariedade. Continuamos em contato com a família e forneceremos todo o apoio que pudermos.”
Já o secretário de Saúde Neil Gray afirmou que “gostaria de expressar minhas mais profundas condolências à família de Isla Sneddon pela sua perda muito triste.”
“Aguardo a oportunidade de me reunir com sua família para discutir detalhes da sua petição e preocupações.”
“Publicamos orientações atualizadas sobre o encaminhamento de suspeitas de câncer na Escócia em 6 de agosto. Elas incluem uma nova orientação sobre o encaminhamento de crianças e jovens e irão ajudar a garantir que a pessoa certa esteja no caminho certo, no momento certo”, conclui Gray.