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Yoon, de 65 anos, já havia sido condenado a cinco anos de prisão por abuso de poder e obstrução da própria prisão.
Nesta quinta-feira (19/2), ele foi condenado por insurreição — que é o ato de se revoltar contra um governo ou autoridade estabelecida de um Estado-nação, frequentemente por meios violentos.
De acordo com a Constituição da Coreia do Sul, os presidentes em exercício são imunes a processos criminais, exceto quando a acusação é de insurreição ou traição.
Um tribunal de Seul decidiu que as ações de Yoon em 3 de dezembro de 2024 — em particular, a ordem para prender políticos e o envio de tropas militares para isolar a Assembleia Nacional — foram atos para subverter a Constituição.
“O tribunal considera que a intenção era paralisar a Assembleia por um período considerável”, disse a juíza presidente Ji Gwi-yeon ao condenar Yoon como o “principal insurgente”.
Os promotores pediram a pena de morte, descrevendo Yoon como “impiedoso”. Eles argumentaram que uma pena mais branda não enviaria um recado suficientemente forte para aqueles que desejassem tentar algo semelhante no futuro.
Yoon havia alegado anteriormente que declarou a lei marcial para proteger o país de forças “antiestatais” que simpatizavam com a Coreia do Norte. Mas, nas semanas seguintes, ficou evidente que ele era motivado por outros desafios: em fim de mandato, ele enfrentava queda de popularidade, escândalos e uma oposição que ameaçava investigar sua esposa por alegações de corrupção.
Mas mesmo durante o julgamento, ele continuou defendendo a ordem da lei marcial, que, segundo ele, seria “uma medida para proteger a liberdade e a soberania do povo e para preservar a nação e sua Constituição”.
Apoio e conspirações
Sua ordem de lei marcial e os consequentes problemas legais dividiram a Coreia do Sul, com grandes multidões se reunindo contra ele, bem como em seu apoio.
O mesmo aconteceu quando ele foi sentenciado em fevereiro, com multidões pró-Yoon se reunindo em frente ao tribunal em Seul.
Nesta quinta-feira, enquanto Yoon era sentenciado, centenas de manifestantes se reuniram em apoio ao ex-presidente — um sinal da forte influência que ele ainda exerce em segmentos da sociedade sul-coreana.
Grande parte desse apoio se dá apesar de sua dramática queda política — e até mesmo por causa dela.
“No início, eu não apoiava Yoon, mas a lei marcial abriu meus olhos”, disse Oh Jung-hyuk, um músico de cerca de 50 anos, à BBC durante um protesto pró-Yoon.
“Podemos ver o quão profundamente enraizadas estão as forças de esquerda em nossa sociedade.”
Teorias da conspiração — como a de que o Partido Democrático, de esquerda, quer se unificar com a Coreia do Norte — ganharam força após a queda de Yoon.
Muitos observadores políticos dizem que foi o ex-presidente quem trouxe para o debate público alegações que poucos levavam a sério.
Yoon citou forças comunistas norte-coreanas dentro do Partido Democrático como a razão para declarar a lei marcial naquela fatídica noite de dezembro de 2024.
Outra teoria da conspiração afirma que o partido de Yoon foi vítima de fraude eleitoral, em uma manobra orquestrada pela China.
Essas teorias são amplificadas e disseminadas por YouTubers de direita com grande número de seguidores, muitos dos quais são jovens que apoiam Yoon.
Ascensão ao poder
Yoon era considerado um novato na política quando venceu a eleição à presidência. Ele havia ganhado destaque nacional como promotor do caso de corrupção contra a ex-presidente Park Geun-hye, que caiu em desgraça em 2016.
Em 2022, ele derrotou seu rival, o liberal Lee Jae-myung, por menos de 1% dos votos — o resultado mais apertado que o país viu desde que eleições diretas começaram a ser realizadas em 1987.
Numa época em que a sociedade sul-coreana estava lidando com divisões crescentes sobre questões de gênero, Yoon atraiu os jovens eleitores do sexo masculino com uma plataforma antifeminista.
As pessoas tinham “grandes esperanças” sobre Yoon quando ele foi eleito, disse Don S. Lee, professor associado de administração pública da Universidade Sungkyunkwan. “Aqueles que votaram em Yoon acreditavam que um novo governo sob seu comando buscaria valores como princípios, transparência e eficiência.”
Yoon também defendeu uma postura linha-dura em relação à Coreia do Norte. O Estado comunista foi citado por Yoon quando ele tentou impor a lei marcial. Ele disse que precisava se proteger das forças norte-coreanas e “eliminar elementos antiestatais”, embora desde o início estivesse evidente que sua preocupação era menos com a ameaça do Norte e mais com seus próprios problemas internos.
Yoon é conhecido por suas gafes, que não ajudaram em sua popularidade. Durante sua campanha de 2022, ele teve que se retratar de um comentário de que o presidente autoritário Chun Doo-hwan, que declarou lei marcial e foi responsável pelo massacre de manifestantes em 1980, havia sido “bom na política”.
Mais tarde naquele ano, ele foi forçado a negar ter insultado o Congresso dos EUA em declarações feitas após um encontro com o então presidente americano Joe Biden em Nova York.
Ele foi flagrado em vídeo chamando os parlamentares americanos de um termo coreano que pode ser traduzido como “idiotas”. A filmagem rapidamente viralizou na Coreia do Sul.
Ainda assim, Yoon obteve algum sucesso em política externa, notadamente melhorando as relações historicamente tensas de seu país com o Japão.
‘Erro de cálculo político’
O maior escândalo durante a presidência de Yoon envolveu sua esposa, Kim Keon Hee, que foi acusada de corrupção e tráfico de influência, principalmente por supostamente aceitar bolsas de luxo de um pastor.
Em novembro, Yoon pediu desculpas em nome de sua esposa, ao mesmo tempo em que rejeitava os pedidos de investigação sobre suas atividades — uma medida que pouco contribuiu para melhorar seus índices de aprovação já instáveis.
Yoon foi relegado a um cargo presidencial sem poder efetivo após o Partido Democrático, da oposição, vencer as eleições parlamentares com uma vitória esmagadora em abril de 2024. O resultado foi amplamente visto como um voto de desconfiança em relação ao mandato de Yoon.
Ele também enfrentou crescente pressão de seus oponentes políticos. Pouco antes da declaração da lei marcial, a oposição cortou o orçamento proposto pelo partido governista de Yoon e iniciou o processo de impeachment de membros do gabinete por não investigarem a primeira-dama.
Pressionado, Yoon optou pela medida drástica — uma jogada que poucos, ou ninguém, poderiam ter previsto.
Muitos estavam preocupados com uma crise política “devido ao confronto entre o presidente e a Assembleia Nacional controlada pela oposição”, disse Celeste Arrington, diretora do Instituto de Estudos Coreanos da Universidade George Washington.
“Mas poucos previam uma medida tão extrema quanto a declaração de lei marcial.”
Foi “um exagero legal e um erro de cálculo político”, diz Leif-Eric Easley, professor de estudos internacionais da Universidade Feminina Ewha, em Seul. “Ele parecia um político sitiado.”
“Com um apoio público extremamente baixo e sem forte respaldo dentro de seu próprio partido e administração, o presidente deveria saber o quão difícil seria implementar seu decreto noturno.”

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Consequência
A declaração de lei marcial deu início a uma crise no governo de Yoon. Ele sofreu impeachment, foi indiciado por uma série de acusações relacionadas ao caso e foi destituído do cargo em abril de 2025.
Seu partido também pagou o preço. Lee Jae-myung, do Partido Liberal Democrático (PLD), da oposição, obteve uma vitória esmagadora nas eleições presidenciais de junho.
Desde então, altos funcionários de seu gabinete foram acusados ou condenados. Han Duck-soo, o primeiro-ministro que se tornou presidente interino após a destituição de Yoon, foi condenado a 23 anos de prisão por sua participação na tentativa de insurreição, enquanto o ex-ministro do Interior, Lee Sang-min, recebeu uma pena de sete anos.
Em ambos os casos, os tribunais reconheceram a declaração de lei marcial como um ato de insurreição. Mas mesmo com a saga chegando ao fim, a Coreia do Sul ainda se recupera das divisões que eclodiram em dezembro de 2024.
Embora o Partido do Poder Popular de Yoon esteja em desordem, ele ainda possui uma base de apoio expressiva, que alguns argumentam ter se fortalecida ainda mais devido à sua queda.
Seus apoiadores, principalmente jovens eleitores do sexo masculino e idosos, frequentemente repetem narrativas fortes de direita e teorias da conspiração, incluindo a de que o partido de Yoon foi vítima de fraude eleitoral. Eles também acreditam que sua declaração de lei marcial foi necessária para proteger o país.
Enquanto era julgado por insurreição, Yoon defendeu sua ordem de lei marcial, chamando-a de “uma medida para proteger a liberdade e a soberania do povo e para preservar a nação e sua constituição”.