O governo elevou os preços-teto para os principais leilões do setor elétrico deste ano, após ter identificado uma distorção em relação aos valores calculados por importantes empresas interessadas no certame, que poderia colocar em risco a contratação de mais potência para o sistema de energia brasileiro.
A necessidade de correção foi admitida pelo Ministério de Minas e Energia, após reação fortemente negativa do mercado na terça-feira, quando os primeiros números foram divulgados, e que levou a um tombo de quase 20% das ações da Eneva no pior momento, uma das principais interessadas no leilão.
Os novos preços, aprovados nesta sexta-feira pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para inclusão nos editais das licitações, ficaram em níveis mais próximos dos esperados por empreendedores.
A Eneva disse em nota nesta sexta-feira que considerou “positiva” a revisão dos valores, que estão agora “alinhados aos indicadores econômicos do setor de energia”. Segundo a empresa, isso permitirá que o certame cumpra o objetivo de garantir a segurança no suprimento de energia, além de ampliar a competitividade. Na bolsa paulista, as ações da empresa subiram 8%.
O preço-teto para as usinas existentes a gás natural e a carvão mineral subiu para R$ 2,25 milhões/MW.ano, ante R$ 1,12 milhão/MW.ano divulgado no início desta semana. Para os empreendimentos novos a gás, o valor foi elevado a R$ 2,9 milhões/MW.ano, ante R$ 1,6 milhão/MW.ano definido anteriormente.
Após tombo
A visão era de que, com os preços anteriores, o certame poderia dar “vazio”, já que as geradoras precisariam de remuneração maior para cobrir custos fixos e diante do aumento do capex devido ao aperto na cadeia de suprimentos, especialmente para turbinas a gás.
Os novos preços estão mais alinhados com os cálculos de mercado para o leilão. Uma fonte ligada a uma grande geradora termelétrica avaliou que preços “perto de R$ 3 milhões ou R$ 2 milhões ‘altos’” são suficientes para viabilizar a contratação.
Já o Citi avaliou que, pela reação do mercado após a divulgação, preços na faixa de R$ 2,5 milhões a R$ 3 milhões parecem ser vistos como “bons/base” pelos investidores.
“Os números trazem uma grande sensação de alívio, especialmente depois dos preços-tetos iniciais, que faziam muito pouco sentido para nós”, escreveu o analista do Citi João Pimentel.
Além da Eneva, outros grandes geradores termelétricos já declararam publicamente sua intenção de participar do certame, como Petrobras e Âmbar, do grupo J&F. O leilão também é uma oportunidade para ampliação de hidrelétricas, sendo visado por Axia e Copel, entre outras elétricas.
Avaliações criteriosas
Também foram revisados para cima os preços-teto do leilão voltado para contratar potência de usinas movidas a óleo combustível, diesel e biodiesel.
Para as usinas a combustível e diesel, o valor máximo subiu para R$1,6 milhão/MW.ano, contra R$920 mil/MW.ano anteriores, enquanto para o biodiesel, o valor passou para R$1,75 milhão/MW.ano, ante R$990 mil/MW.ano.
Com a atualização confirmada nesta sexta-feira, os leilões seguem marcados para 18 e 20 de março.
Os valores se referem ao máximo que os empreendedores devem considerar em seus cálculos para disputar contratos do leilão, e não o preço final da contratação da energia.
O governo estava trabalhando para aumentar a competição da licitação, de forma a garantir o custo mais baixo possível para os consumidores, disse o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, nesta semana.
Em nota sobre a atualização dos preços-teto, o Ministério de Minas e Energia disse que foram atualizadas premissas após escuta, contribuições e “avaliações técnicas criteriosas”.
“Estamos, portanto, agindo com responsabilidade técnica, prudência regulatória e compromisso com o interesse público”, disse Silveira.
Os dois leilões de reserva de capacidade são considerados fundamentais para diminuir riscos ao suprimento de energia no país diante do aumento da participação, na matriz, das fontes renováveis eólica e solar, cuja geração não é controlável.
Um dos certames também contratará projetos de expansão de usinas hidrelétricas. Para esses empreendimentos, o preço-teto foi mantido em R$1,4 milhão/MW.ano.
Mais de 120 gigawatts (GW) em projetos foram habilitados pelo governo para participação no certame. Já a demanda para contratação não é revelada pelo governo, mas estimativas de mercado dão conta de pelo menos 20 GW. A consultoria Thymos Energia projeta necessidade de capacidade adicional de 23 GW a 30 GW para manter a segurança operativa do sistema nos próximos anos.