Os escritórios de gestão de fortunas são conhecidos pela diversificação de investimentos e portfólios com foco no longo prazo, de forma a unir rentabilidade e proteção ao gerir a carteira de grandes famílias. Mas, segundo relatório global do private bank do J.P Morgan, a alocação desse patrimônio na megatendência da inteligência artificial está deixando a desejar. O banco americano ouviu 333 family offices. Espalhados por 30 países, eles têm patrimônio líquido médio de US$ 1,6 bilhões.
Segundo o documento, os family offices estão pecando na exposição a ativos de crescimento, venture capital ou infraestrutura, que são as classes de ativos centrais para a revolução da IA. “Se destaca globalmente uma atitude clara pró risco. Previsivelmente, a IA é o principal tema de investimento, mas 57% dos participantes ainda não têm exposição a growth e venture capital – onde grande parte da inovação acontece”, diz Natacha Minniti, co-head global de family office practice no banco.
Atualmente, apenas 3,3% dos portfólios estão alocados em growth e venture capital, apesar de 30,8% da carteira estar alocada em investimentos alternativos. A categoria de ativos só perde para ações, que têm 38,4. O venture capital é o investimento feito em empresas jovens, que ainda estão crescendo e muitas vezes nem dão lucro. Já o growth capital é o investimento em empresas mais maduras, que cresceram e provaram que o modelo funciona, mas ainda querem acelerar expansão.
Além disso, mais de 70% dos family offices não possuem investimentos em empresas que produzem a infraestrutura de IA, mesmo que o avanço da tecnologia dependa de centro de dados e infraestrutura digital. “Para capturar plenamente a oportunidade da IA, os investidores devem olhar além das empresas líderes, que têm mega capitalização de mercado, e focar nos capacitadores que impulsionam a cadeia de fornecimento — de semicondutores e infraestrutura de energia a sistemas de rede e sistemas de resfriamento”, diz Christophe Aba, head de investimentos e aconselhamento do banco.
Igualmente importante é a exposição ao mercado privado, onde as dez principais empresas de IA já estão avaliadas em cerca de US$ 1,5 trilhão. “Grande parte do valor futuro da IA está sendo gerado fora dos mercados públicos, ressalta o executivo.
Geopolítica e inflação
A geopolítica é citada como o principal risco por 64% dos family offices, mas a maioria evita proteções tradicionais e emergentes: 72% não têm exposição ao ouro e 89% não possuem criptomoedas, preferindo ativos tangíveis e estratégias consolidadas.
A inflação está levando os family offices a investimentos alternativos – os mais preocupados estão alocando quase 60% do seu capital nesta categoria, cerca de 20% acima da média global, favorecendo hedge funds e fundos imobiliários.
Negócios familiares
O relatório mostra que famílias com negócios estão à frente em governança: 48% delas estabeleceram estruturas formais, enquanto entre as famílias sem empresas esse número é de 40%.
“Os maiores riscos para os family offices geralmente surgem da perda de sinergias, equipes excessivamente enxutas e da falta de uma gestão de riscos holística. Esses desafios tornam-se ainda mais evidentes à medida que as transições econômicas e geracionais aceleram.”, disse Elisa Shevlin Rizzo, Head de Family Office Advisory no J.P. Morgan Private Bank. “Os proprietários de empresas familiares estão especialmente atentos a esses riscos internos e estão tomando medidas proativas para proteger a continuidade e a eficácia de seus family offices.”
Além disso, famílias que são empresárias têm quase o dobro de chance de apontar conflitos internos como um dos principais riscos (41% contra 23%). O relatório também revelou que menos da metade delas (48%) considera sua empresa ao definir a alocação de investimentos.
O planejamento sucessório continua sendo uma grande preocupação: 53% das famílias empresárias consideram esse tema uma das principais questões, e 86% de todos os family offices não possuem um plano de sucessão claro para os principais tomadores de decisão, destacando uma área crítica a ser aprimorada diante das transições geracionais que se aproximam.
Terceirização de serviços
À medida que os family offices enfrentam um cenário cada vez mais complexo, a competição por talentos e a necessidade de habilidades especializadas estão elevando os custos operacionais e promovendo uma mudança em direção à contratação de profissionais terceirizados.
O custo operacional anual médio de um family office é de US$ 3 milhões, chegando a US$ 6,6 milhões para escritórios com mais de US$ 1 bilhão em ativos. Enquanto 40% dos escritórios gastam menos de US$ 1 milhão por ano, 11% gastam mais de US$ 7 milhões, com 25% a 28% dos custos destinados a serviços externos, como jurídico, negociação e cibersegurança.
A terceirização tornou-se uma prioridade estratégica: 80% dos family offices terceirizam algum aspecto da gestão de portfólio, e mais de um terço dos escritórios com US$ 1 bilhão ou mais em ativos terceirizam mais da metade de seus portfólios. Os serviços jurídicos (52%), negociação e execução de mercado (45%) e cibersegurança (38%) são as funções mais frequentemente terceirizadas.
À medida que os family offices digitalizam e agregam dados, plataformas tecnológicas e cibersegurança tornaram-se necessidades prioritárias, com 32% citando a cibersegurança como sua maior prioridade