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- Author, Redação*
- Role, BBC News Brasil
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A Uefa, o órgão máximo do futebol europeu, anunciou nesta quarta-feira (18/2) a abertura de uma investigação oficial após o jogador brasileiro Vinicius Junior relatar ter sido alvo de ofensa de cunho racista durante uma partida em Portugal.
Esta foi a 20ª vez que Vini Jr. alega ter sido alvo de racismo durante seus oito anos no Real Madrid.
O episódio mais recente aconteceu nesta terça-feira (17/2), durante a vitória do Real Madrid por 1 a 0 sobre o Benfica, em Lisboa, pelo playoff da Liga dos Campeões 2025/2026.
Segundo Vini Jr, o meio-campista do Benfica, o argentino Gianluca Prestianni, o insultou com ofensas racistas minutos depois dele marcar um gol e comemorá-lo dançando.
A atitude foi confirmada pelo atacante francês Kylian Mbappé, que joga ao lado de Vini Jr. no Real Madrid. Em entrevista ao TNT após a partida, ele afirmou ter ouvido Prestianni dirigir ofensas racistas contra Vini Jr. cinco vezes durante o jogo.
O meio-campista do Benfica teria coberto a boca com a camisa para que a as câmeras não registrassem a ofensa, segundo Mbappé. Prestianni negou a acusação.
“Quero esclarecer que em nenhum momento dirigi insultos racistas a Vini Jr., que lamentavelmente interpretou mal o que achou ter ouvido”, disse o argentino. Ele também afirmou ter recebido ameaças após o episódio.
Segundo comunicado da Uefa, um inspetor de Ética e Disciplina foi designado para apurar as alegações de comportamento discriminatório ocorridas na partida. Novas informações devem ser divulgadas nos próximos dias.
O jogo chegou a ser interrompido por 10 minutos após Vini comunicar o incidente ao árbitro François Letexier.
Jogadores das duas equipes deixaram o campo, e o protocolo antirracismo foi acionado.
O gesto de braços cruzados utilizado pelo árbitro faz parte do protocolo introduzido pela Fifa em 2024 para sinalizar denúncias de racismo em campo.
Segundo o protocolo antirracismo adotado pela Uefa desde 2009, os árbitros podem interromper ou até encerrar partidas em casos de discriminação.
O procedimento prevê três etapas: interromper o jogo e fazer um anúncio no estádio, suspender a partida por cinco a dez minutos com retirada dos jogadores de campo e, em caso de persistência, abandonar o jogo após avaliação de segurança.
Após a paralisação, a partida foi retomada e terminou com vitória do Real Madrid por 1 a 0.
Em uma publicação nas redes sociais, Vinicius afirmou que “racistas são, acima de tudo, covardes” e criticou a forma como o protocolo foi conduzido.
“Nada do que aconteceu hoje é novo na minha vida”, escreveu o jogador, que acumula diversos episódios semelhantes ao longo da carreira.
Ele também afirmou ter recebido cartão amarelo pela comemoração do gol e disse não compreender a decisão.
Em publicação nas redes sociais, o Benfica defendeu o atleta e afirmou que, pela distância, os jogadores do Real Madrid não poderiam ter ouvido o que alegam ter sido dito.
O Benfica afirmou que há uma “campanha de difamação” contra Prestianni após a abertura de investigação da Uefa.
O clube acrescentou ainda que “apoia totalmente” e acredita na versão dos acontecimentos apresentada pelo argentino.

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Caso a investigação da Uefa conclua que houve abuso racial, Prestianni poderá receber uma suspensão mínima de 10 partidas em competições europeias.
A punição obrigatória foi introduzida em 2013, quando Gianni Infantino era secretário-geral da entidade, e já foi aplicada em casos anteriores, como o do zagueiro Ondrej Kudela, banido por dez jogos após ofensas racistas contra Glen Kamara em 2021.
Regulamentos da Uefa determinam esse mínimo disciplinar, embora sanções adicionais possam ser impostas dependendo da gravidade do caso.
Reações e controvérsias
O episódio gerou repercussão. Companheiros de equipe e ex-jogadores condenaram o suposto ataque, enquanto o técnico do Benfica, José Mourinho, foi criticado por comentários que relativizaram o caso.
Após a partida, Mourinho chegou a insinuar que Vini Jr. provocou a situação.
“Esses talentos são capazes de fazer coisas lindas, mas infelizmente ele não ficou feliz por marcar aquele gol incrível”, disse ele à Amazon Prime.
“Quando você marca um gol como esse, você comemora de forma respeitosa”, se referindo à dança feita por Vinicius para comemorar o gol.
Ele também afirmou que o Benfica não poderia ser um clube de futebol racista pelo simples fato de seu maior jogador de todos os tempos, Eusébio, ser negro.
Jogadores do Real Madrid saíram em defesa de Vini Jr.
O lateral Trent Alexander-Arnoldclassificou o episódio como “uma vergonha para o futebol”, e o ex-meia Clarence Seedorf afirmou que nunca se deve justificar abuso racial.
Thierry Henry, que também sofreu racismo durante a carreira, disse compreender a sensação de solidão vivida por jogadores nessas situações.
Henry afirmou que, em episódios desse tipo, muitas vezes se trata da palavra de um jogador contra a de outro, o que pode gerar sensação de isolamento para quem denuncia a agressão.
O episódio em Lisboa não é um caso isolado. Vini Jr já foi insultado em estádios por toda a Espanha.
Desde que se tornou protagonista no futebol europeu, o brasileiro tem denunciado repetidamente episódios de racismo — dentro e fora de campo — e sua trajetória se tornou um retrato da persistência do problema no esporte.
A hostilidade contra o brasileiro tem nomes, datas e condenações judiciais.
Em outubro de 2021, durante um Clássico no Camp Nou, um torcedor gritou insultos racistas contra Vinicius enquanto ele era substituído. O caso foi arquivado porque a polícia não conseguiu identificar o agressor.
Meses depois, em março de 2022, torcedores do Mallorca imitaram sons de macaco em sua direção e disseram que ele deveria “ir colher bananas”.
As autoridades ficaram “indignadas” e disseram que o ato foi “desprezível”, mas não “criminal”. Nenhuma medida foi tomada.
Naquele mesmo ano, em setembro de 2022, torcedores do Atlético de Madrid entoaram cânticos racistas contra o brasileiro nos arredores do estádio antes de um clássico contra o Real Madrid. O clube condenou o comportamento, classificando-o como “inaceitável”.
Em janeiro de 2023, um boneco com a camisa de Vinicius foi pendurado em uma ponte próxima ao centro de treinamento do Real Madrid — gesto amplamente interpretado como ameaça. Quatro homens foram multados em 60 mil euros e proibidos de frequentar estádios por dois anos.
Outros incidentes ocorreram nos meses seguintes, todos com pouca ou nenhuma consequência para os autores.
Mas foi em maio de 2023 que Vinicius decidiu reagir aos insultos e confrontar as arquibancadas.
Durante uma partida da La Liga, Vinicius sofreu abusos racistas de torcedores do Valencia. O atacante interrompeu o jogo para alertar o árbitro e, mais tarde, foi expulso após uma confusão generalizada.
O Real Madrid denunciou o episódio à promotoria espanhola como crime de ódio, transformando o caso em um marco jurídico.
Em março de 2024, o clube voltou a apresentar queixa após o árbitro de uma partida contra o Osasuna não incluir em seu relatório alegações de insultos racistas vindos da torcida.
Dias depois, o próprio Vinicius afirmou sentir-se “cada vez com menos vontade de jogar futebol” diante da repetição dos ataques, evidenciando o impacto psicológico da discriminação contínua.
Em junho de 2024, três torcedores foram condenados a oito meses de prisão e dois anos de proibição de frequentar estádios por sua participação nos insultos. Foi a primeira sentença desse tipo na Espanha.
Após a condenação, Vini Jr declarou ser um “algoz de racistas”, reforçando sua postura combativa..
Em 29 de setembro de 2024, quatro pessoas foram presas por incitar uma campanha de ódio nas redes sociais, sob anonimato, para insultar o jogador durante o clássico contra o Atlético de Madrid.
Em novembro de 2024, o Real Madrid anunciou punição a um torcedor menor de idade que havia cometido abuso racial contra o jogador, incluindo multa e proibição de frequentar estádios por um ano.
Em maio de 2025, a Justiça espanhola proferiu uma decisão considerada histórica: cinco pessoas receberam penas suspensas de prisão por insultos racistas contra Vinicius durante uma partida contra o Real Valladolid, em 2022. Foi a primeira vez que condenações desse tipo ocorreram no país em contexto de futebol.
Em 17 de fevereiro de 2026, a partida entre Benfica e Real Madrid foi interrompida por 10 minutos após Vinicius relatar um ataque racista, levando à abertura de investigação pela Uefa e reacendendo o debate internacional sobre a eficácia dos protocolos antirracismo.
*Com informações da BBC News e de Guillem Balague, colunista de esporte da BBC