Bad Bunny abriu o ano consolidando um movimento que já vinha ganhando escala. Depois de dominar categorias no Grammy e protagonizar um dos intervalos mais comentados do Super Bowl, o artista porto-riquenho desembarca agora no Brasil para dois shows — um deles justamente no dia em que esta coluna é publicada. No cinema, Wagner Moura amplia sua presença em produções internacionais, enquanto Fernanda Torres reafirma a potência dramática brasileira em circuitos cada vez mais atentos ao talento latino. Não são episódios isolados. Juntos, esses movimentos indicam algo maior: a cultura latino-americana deixou de ser tendência periférica para disputar narrativa no centro.
Há alguns anos, falar em cultura latina no mainstream global era falar em “momento”. Uma onda. Uma estética. Algo que poderia passar. Em 2026, a sensação é diferente. O volume aumentou, a escala cresceu, o impacto econômico se tornou inegável. A pergunta já não é se o mundo está ouvindo os latinos, mas o que muda quando essa escuta deixa de ser curiosidade e passa a moldar o jogo.
Para Renata Decoussau, LATAM Marketing Director da Adobe, o fenômeno já ultrapassou o campo simbólico. “O próprio debate sobre uma possível latinização do norte global mostra que a influência já atravessou a fronteira simbólica. Quando o centro começa a absorver códigos que antes vinham da periferia, algo estrutural está acontecendo.” Na sua leitura, o que se vê hoje é menos uma ascensão pontual e mais um realinhamento cultural.
Greta Paz, CEO da Eyxo, observa o movimento sob uma lente complementar. Para ela, há expansão real de vozes, mas dentro de um contexto global mais complexo. “Talvez a resposta mais honesta seja: estamos em cena, mas ainda não escrevemos o roteiro.” Segundo a executiva, em um cenário marcado por crises políticas e polarizações, hegemonias culturais perdem naturalidade e outras narrativas passam a ser vistas como necessárias.
Ela pondera, no entanto, que o protagonismo latino ainda se dá, muitas vezes, dentro de estruturas consolidadas. “É Wagner Moura no Oscar. É Bad Bunny no Super Bowl. São conquistas simbólicas enormes. Mas o palco continua sendo construído e mediado por centros de poder que não mudaram de endereço.”
A descentralização, portanto, não é linear.
Renata destaca que a circulação cultural deixou de ser via de mão única. “A influência está mais fluida, quase uma troca. O mapa cultural fica menos previsível, e isso é poderoso. A relevância pode surgir de múltiplos lugares ao mesmo tempo.”
Greta amplia a reflexão ao lembrar que essa diversidade ainda opera dentro de plataformas globais bem definidas. “O mundo parece mais diverso, desde que a diversidade caiba no palco de sempre.” Ela cita a Bienal de Veneza ter escolhido seu primeiro curador (o brasileiro Adriano Pedrosa) do Sul Global em 2024 como exemplo simbólico de avanço — e também de limite estrutural.
Se há algo inequívoco nesse processo é a mudança na lógica do mainstream.
Durante muito tempo, alcançar escala significava neutralizar sotaques, suavizar referências locais e traduzir o específico para um padrão anglo-americano. Hoje, observa Renata, a autenticidade passou a operar como diferencial estratégico. “Ela sempre separou a criatividade pasteurizada do que realmente move cultura.” Bad Bunny, segundo ela, é um exemplo claro de artista que amplia o mainstream a partir de sua identidade, em vez de diluí-la.
Greta também reconhece essa virada, mas ressalta suas nuances. “A autenticidade virou ativo. Muitas vezes, porém, ela só é plenamente exercida depois que o artista já foi legitimado pelo próprio mainstream.” A força da identidade, nesse contexto, cresce quando já não representa ameaça à estrutura que a acolhe.
No campo econômico, a convergência é clara.
“Identidade gera diferenciação, diferenciação gera desejo, e desejo movimenta mercado”, resume Renata. Cultura, portanto, não é apenas expressão simbólica, mas capital estratégico.
Greta segue na mesma direção. Em um mercado global saturado, narrativa e autenticidade passam a ser ativos competitivos. Música, audiovisual, moda, gastronomia e turismo já operam como cadeias econômicas articuladas, impulsionadas por identidade cultural.
O mainstream se tornou multilíngue?
Renata entende que há uma combinação de fatores. O público busca novidades em ritmo acelerado, e o entretenimento precisa de escala e multiplicidade de linguagens. Nesse cenário, a língua passa a funcionar mais como textura cultural do que como barreira.
Greta relativiza a ideia de uma transformação total. O mainstream continua reconhecível e concentrado em grandes plataformas. O que mudou foi a possibilidade de circulação. Plataformas digitais reduziram a dependência da mediação institucional e ampliaram repertórios.
Historicamente, o soft power esteve concentrado em poucos polos por depender de infraestrutura, indústria e capital. Hoje, segundo Greta, outras culturas conseguem produzir e dialogar globalmente com menos intermediação. Renata vê nesse processo menos um ciclo e mais uma redistribuição gradual de influência. “Quando uma estética começa a moldar comportamento global, dificilmente volta para a margem.”
Talvez a questão não seja se o mundo ficou mais aberto, mas em que momento a produção cultural latino-americana ganhou escala suficiente para se tornar incontornável. Como sintetiza Greta, não se trata apenas de abertura cultural, mas de mercado, audiência e influência real.
Se os últimos anos foram de afirmação, o que vem agora é consolidação?
Renata aponta que o estágio decisivo de qualquer movimento cultural começa quando ele deixa de ser novidade e passa a integrar o repertório global. Greta concorda que o cenário mais provável é o da consolidação, embora ainda haja um caminho a percorrer até que o movimento se transforme plenamente em estrutura.
Que o movimento já é visível é fato. O próximo capítulo mostrará se ele veio para ficar ou para redefinir o próprio jogo.