Crédito, BBC Mundo
- Author, Mariana Castiñeiras, Natalia Guerrero e Jorge Pérez Valer
- Role, BBC News Mundo
Tempo de leitura: 4 min
Mauricio Silvera gosta tanto da observação de aves que a compara com o frenesi de um torcedor de futebol ao gritar um gol decisivo.
Receber uma informação, uma localização, uma foto e a possibilidade de ver uma ave única.
Ir até lá calculando variáveis, sabendo que tudo pode mudar e que os esforços podem ter sido em vão.
E, finalmente, encontrá-la, ouvi-la, fotografá-la, entendê-la.
“É uma adrenalina no peito de não saber o que fazer: se gritar, tirar a foto e contar para alguém”, diz à BBC este jovem uruguaio, estudante de Biologia que já é um profissional na observação de aves.
“É quase como estar procurando pokémons e ver quantos passarinhos você encontra e se encontra o mais raro”, acrescenta, enquanto viaja para o norte do Uruguai com seu equipamento fotográfico para uma missão especial: encontrar e fotografar o mítico urutaú.
O urutaú é uma espécie de ave noturna encontrada na América do Sul e na América Central, e tem inspirado lendas e mitos em regiões rurais de todo o continente.
Tem uma boca enorme e plumagem marrom-acinzentada semelhante à casca de um tronco, o que a ajuda a se ocultar nas copas das árvores ou em galhos secos.
Mas o que mais fascina são seus gigantes olhos amarelos.
Passa as horas do dia camuflado em árvores ou estacas até que chega a noite, quando sai para caçar e se alimentar de insetos.
Seu nome científico é Nyctibius griseus. No Uruguai é conhecido como urutaú, mas em outros países da região o chamam de pássaro-estaca, pássaro-fantasma, ave-bruxa, potoo, entre muitos outros nomes.
“Tem um canto incrível que parece um lamento no meio da noite e a muita gente faz lembrar o choro de uma pessoa. Se você o escuta à noite, é bastante arrepiante”, comenta Silvera.
Conservacionistas insistem que se trata de uma ave inofensiva e pedem às pessoas que respeitem e cuidem dessa espécie, dada a conotação negativa que algumas lendas folclóricas lhe atribuem.

Crédito, Getty Images/Fabio Maffei
Diversidade
Desde os 13 anos, Mauricio Silvera tem feito contribuições de avistamentos de aves do Uruguai para a plataforma eBird, uma rede global de especialistas e aficionados que compartilham informações, fotografias e registros de áudio sobre as espécies de aves que observam.
“O Uruguai tem cerca de 520 espécies de aves registradas até o momento. Em uma saída de um dia, você pode chegar a ver entre 120 e 130 espécies”, comenta, enquanto percorre com a câmera no ombro um caminho empoeirado nos arredores de Bella Unión, a região a 650 quilômetros ao norte do Uruguai onde espera encontrar o urutaú.

Crédito, Getty/Kate Muller
De repente, durante o percurso, Mauricio cobre a boca. Ele leva anos observando aves, mas a emoção de se deparar com uma espécie que procura é algo que não consegue conter.
Aponta para os arbustos e ali, no fim de um longo galho seco, está pousado e camuflado — cuidando de uma futura cria — o urutaú que ele busca.
“Isso branquinho que se vê ali é um ovo, que eles põem um de cada vez, sem nenhum tipo de suporte, apenas o ovo sobre o galho onde pousa”, comenta em sussurros.
Satisfeito e com o registro alcançado, Mauricio volta feliz para casa.
Mas a curiosidade por aquele ninho não ficaria quieta. Um mês depois, voltou a Bella Unión para registrar o que já intuía: que já não é apenas um, mas dois os urutaús que conseguiu somar à sua ampla coleção fotográfica de aves.

Crédito, Mauricio Silvera