O cineasta palestino Hamdan Ballal denunciou que o Exército israelense invadiu a sua casa, na Cisjordânia, e prendeu e agrediu pessoas de sua família. O diretor — que venceu o Oscar de melhor documentário por “Sem chão”, no ano passado — relata ainda que um de seus irmãos ficou “gravemente ferido” e precisou ser internado após o ataque ocorrido no último sábado (14). A informação foi divulgada em um comunicado do próprio diretor, compartilhada por Basel Adra, que integrou a equipe de produção do filme.
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No texto, Ballal afirma que há duas semanas conseguiu uma decisão de Justiça israelense que determinava que a área ao redor de sua casa fosse fechada apenas para moradores. Segundo ele, “os colonos descumprem essa ordem e continuam vindo com seus rebanhos quase todos os dias”.
Além da violência dos colonos, ele afirmou que o Exército de Israel também promoveu brutalidade. Ballal relata que a polícia foi chamada para deter os colonos, assim como os próprios militares, mas que nada foi resolvido.
“Hoje (sábado), Shem Tov Lusky — o colono que me atacou em minha casa pouco depois de eu ganhar o Oscar no ano passado — apareceu com seu rebanho em minha propriedade. Meu irmão chamou a polícia para relatar a invasão. O Exército chegou primeiro e imediatamente invadiu nossa casa, agredindo todos que estavam dentro. Em seguida, prenderam dois dos meus irmãos, um sobrinho e um primo. Outro irmão ficou gravemente ferido e está agora no hospital”, contou ele no comunicado.
“A decisão da Justiça israelense deveria ter trazido um pouco mais de tranquilidade para nós. Mas ocorreu o contrário. Os colonos intensificaram o assédio e as autoridades israelenses nada fizeram para cumprir a decisão. Hoje, inclusive, se juntaram aos colonos no ataque”, continuou.
Não é o primeiro ataque que Ballal relata vindo de ambos os grupos. Segundo ele, outras violências já ocorreram. O jornal israelense Haaretz diz que Ballal também teria relatado a seu advogado que foi agredido enquanto documentava um motim de colonos. E que os militares israelenses teriam observado a cena sem intervir.
Quando estava sob custódia dos militares, Ballal e outras duas pessoas teriam sido espancados por soldados e deixados do lado de fora durante a noite em temperaturas congelantes.
Hamdan Ballal Al-Huraini nasceu em 1989, em Susiya, uma vila na Cisjordânia a cerca de 60km ao sul de Jerusalém. Ele trabalhou como fazendeiro e, além do trabalho com cinema, participa de iniciativas de defesa dos direitos humanos. Entre elas, faz pesquisa de campo documentando incidentes relacionados à ocupação israelense e também faz parte da “Humans of Masafer Yatta”, que destaca histórias pessoais da região.
Ballal é um dos quatro diretores do coletivo palestino-israelense que ganhou o Oscar de melhor documentário neste mês — os outros são Basel Adra, Rachel Szor e Yuval Abraham. O filme documenta a demolição de casas de moradores da Cisjordânia nos arredores de Masafer Yatta, vila onde Adra vive. Forças israelenses tomaram a área para um campo de treinamento militar.
O documentário foi filmado ao longo de quatro anos, entre 2019 e 2023, com a produção concluída dias antes de o Hamas lançar seu ataque contra Israel em 7 de outubro de 2023. “Sem chão” estreou no Festival de Berlim, em 2024, e desde então já recebeu mais de 60 prêmios em festivais internacionais.
Nas redes sociais, Adra, o outro diretor palestino do filme, lembrou que há apenas algumas semanas ele, Ballal e os criadores israelenses do filme estavam sendo homenageados no Oscar.
“Mas sempre soubemos que teríamos de retornar a essa realidade, pois, infelizmente, o mundo não está ajudando a acabar com a ocupação”, disse ele.
A Associação Internacional de Documentaristas emitiu uma declaração, afirmando: “Exigimos a libertação imediata de Ballal e que sua família e comunidade sejam informadas sobre sua condição, onde ele está e os motivos de sua detenção”.