21.5 C
Brasília
segunda-feira, fevereiro 2, 2026

Conheça Paul Hobbs e seus vinhos: enólogo está à frente de sete vinícolas, três nos EUA e uma na Argentina, a premiada Viña Cobos

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

No país sul-americano, Hobbs comanda a Viña Cobos, que reúne pontuações elevadas em especial com Malbec, uva emblemática da Argentina e uma paixão dos brasileiros. A qualidade de seus vinhos levou Hobbs a trabalhar no berço desta variedade: Cahors, na França. Em breve, chegará ao mercado nacional o Malbec Crocus L’Atelier. Também recebeu convites para parcerias com produtores para elaborar vinhos premium em regiões como Galícia.

O enólogo americano Paul Hobbs — Foto: Cláudia Meneses

“O mais importante é que existe um conceito chamado qualidade. Quando estou fazendo um vinho, penso na origem da uva e em como essa origem me inspira. Em outras palavras, se por exemplo estivéssemos fazendo vinho aqui no Rio, eu observaria a vegetação e o aroma. Como o ar cheira, a sensação, a vibração que você sente. E quero garantir que isso se reflita na taça. Não quero que o vinho seja rústico ou grosseiro. Busco algo muito elegante e que tenha, sabe, o corpo adequado no paladar. É divertido e interessante de beber.

Obviamente, alguns vinhos que fazemos são mais complexos do que outros, exigem mais reflexão, e outros são apenas para degustar aos poucos, mais fáceis de beber. Mas, em geral, essas são as características mais gerais. Claro, discutimos qual é o estilo? Qual deve ser o equilíbrio? Como devem ser os aromas, qual a cor do vinho? Qual a sensação na boca? E qual o sabor? Esses seriam os quatro pilares com os quais temos que trabalhar. No final, tudo precisa se encaixar como uma coisa só. Para que a mensagem seja transmitida do começo ao fim.”

Nascido numa fazenda no Oeste de NY

“Nasci em uma fazenda no Oeste de Nova York, perto de Buffalo. Fica na região das Cataratas do Niágara e de Toronto. Meus pais eram a terceira geração da família a trabalhar nessa fazenda. Eu e meus irmãos somos da quarta geração. Nove meninos e duas meninas. Minha mãe fez um pacto com meu pai de que bebidas alcoólicas não seriam servidas em casa.”

Início com o genial Robert Mondavi

“Com o tempo, acabei na Califórnia. Comecei a trabalhar na Robert Mondavi. E então o Sr. Mondavi me perguntou se eu gostaria de fazer parte da equipe inaugural de vinificação do projeto Opus One, em 1979. Depois de seis ou sete anos na Mondavi, saí para trabalhar em uma empresa no Condado de Sonoma, perto da costa, a Simmi.

Essa pequena vinícola era propriedade do braço de importação dos produtos da Moët & Hennessy. Em 1987, a LVMH foi formada: Louis Vuitton, Moët & Hennessy por Bernard Arnault. Nós nos tornamos parte da maior empresa de luxo do mundo, mas eu estava entrando na casa dos 35 anos e me questionava sobre o próximo passo na minha carreira.”

Paul Hobbs em Mendoza, na década de 1980 — Foto: Divulgação Viña Cobos
Paul Hobbs em Mendoza, na década de 1980 — Foto: Divulgação Viña Cobos

Expulso do Chile, rumo à Argentina

“Decidi procurar pelo mundo lugares onde eu pudesse fazer a diferença e abrir minha própria vinícola. Isso me levou, finalmente, à América do Sul. E, em particular, o Chile. Então, pedi a um amigo meu, colega de classe, que organizasse uma visita de uma semana em março de 1988 às principais vinícolas do Chile. Convidei um amigo meu da Argentina, de Mendoza. O sobrenome dele era Catena. O primeiro nome era Jorge, irmão mais novo de Nicolás Catena.

Mas o que eu não percebi foi que isso foi um erro político. Porque, naqueles anos, Pinochet ainda estava no poder. E meu anfitrião ficou muito chateado por eu ter convidado um argentino. Porque, aos olhos dele, os argentinos eram inimigos. Então fui expulso do Chile.

Atravessamos os Andes. E foi lá que conheci Nicolás Catena. Fizemos um pacto. Trabalhamos juntos. E isso deu origem aos primeiros vinhos de sucesso internacional para a Argentina. Era o Catena Chardonnay. Não o Catena Malbec, nem o Cabernet. Mas o Chardonnay da Catena foi o que usamos para divulgar a Argentina nos mercados internacionais, principalmente nos EUA, depois no Canadá, no Reino Unido e assim por diante.”

“No entanto, enquanto trabalhava nesse projeto para o Nicolás, tinha um projeto paralelo: o Malbec. Eu havia pedido financiamento ao Nicolás para me ajudar a pesquisar sobre a uva Malbec. Mas ele recusou. Disse que a Malbec era uma variedade de baixa qualidade e que não podia ser usada para produzir vinhos de alta qualidade ou vinhos varietais. Ele tinha bons motivos para essa decisão e disse: “Não sou o único que pensa assim”.

No entanto, eu estava muito curioso. E mesmo sem conseguir financiamento, ajuda ou apoio de Nicolás, recorri foi ao chefe do vinhedo da Catena: ‘Você poderia me ajudar a cultivar o vinhedo de uma maneira diferente, para que possamos ver se essa uva pode ser usada para produzir vinhos de alta qualidade?’.

Resumindo a história: em março de 1993, levamos a imprensa americana, cinco jornalistas, para lançar a Catena no mercado dos EUA. Era novamente o Chardonnay. Quando fizemos isso, eles ficaram muito felizes. E Nicolás também. Então pensei: ‘Não posso simplesmente mostrar a eles um vinho branco. Preciso mostrar algo diferente.’ Então eu disse: ‘Tenho dez barris de alguma coisa lá atrás. Vamos dar uma olhada.’

Tom Stockley, que escrevia para o Seattle Times, quando voltou aos EUA, fez um artigo intitulado “Não chore por mim, Argentina”. Esse texto foi republicado em outros veículos, como o Washington Post e o Chicago Tribune. E então começou a se falar sobre: ​​’Ah, Argentina, Malbec. Mas como podemos conseguir um pouco? Do que se trata tudo isso?’ Então a pressão estava sobre a Catena para produzir Malbec. Mas Nicolás não queria usar seu nome. Então ele veio até mim e disse: ‘Paul, você precisa criar uma nova marca. Você vai produzi-la e importá-la.’ Então, para isso, criei uma marca chamada Alamos.”

“A árvore álamo foi importada da Espanha por Juan Francisco Cobos, um horticultor. Mas eu não sabia disso quando dei o nome de Alamos. Tudo o que fiz foi pegar a árvore emblemática e dar ao vinho o nome dela. E então ele foi importado e chegou aos Estados Unidos.

E quando fiz isso, tive dificuldades, porque ninguém explicava as características do Malbec aos meus distribuidores nos EUA. Eu explicava que era de Mendoza, Argentina. E no final, a pergunta que eu ouvia era: ‘Você poderia me lembrar de que parte do Chile você disse que ele vem?’. Foi assim que começamos. A Alamos começou a entrar no mercado americano no final de 1994. Assim que começamos a ganhar tração, Nicolas se sentiu confortável. E começou a produzir Malbec sob o rótulo Catena. Mas isso levou cerca de um ano, antes do lançamento da Catena. Eu produzi um Malbec para a Catena lançar sob o rótulo Catena. Então, esse foi o começo.”

Os primeiros testes de Hobbs com Malbec nos anos 1990 — Foto: Divulgação Viña Cobos
Os primeiros testes de Hobbs com Malbec nos anos 1990 — Foto: Divulgação Viña Cobos

“E comecei a produzir Malbec sob o rótulo Catena. Como surgiu a Viña Cobos? Eu tinha um acordo com o Nicolás. Se em dois anos eu conseguisse vender 25 mil caixas de Alamos no mercado americano, ele me daria a marca Catena. Porque eu sou um produtor de vinhos, não um importador.

Então eu disse: se vou me dar a todo esse trabalho para começar uma marca, então vou criar uma empresa. E se tiver sucesso, quero expandir meu alcance. Vendi cerca de 27 mil caixas, o que foi uma grande surpresa para todos, principalmente para o Nicolas. Ele disse: ‘Nunca pensei que você pudesse vender talvez 10 mil caixas, mas não 27 mil’. Mas o Nicolas disse: ‘Não temos um contrato formal, por escrito. Eu sei que fiz a promessa, mas vocês são muito pequenos. Não posso correr o risco de colocar minha marca com vocês’. Então ele disse: ‘O que vou fazer é pegar a marca e entregá-la a um importador maior’. E isso encerrou minha empresa de importação e minha conexão com a Alamos.”

Uvas de vinhedos da Cobos, em Mendoza — Foto: Divulgação Viña Cobos
Uvas de vinhedos da Cobos, em Mendoza — Foto: Divulgação Viña Cobos

Sócios encontrados no ônibus

“Isso foi em 1997, eu estava chateado. E eu ainda tinha muito trabalho a fazer com o Malbec, muito que que aprender. E acho que é uma variedade nobre, queria pesquisar mais. Foi assim que surgiu a Viña Cobos. Em uma viagem de ônibus de Mendoza para San Rafael, minha mulher se levantou na frente do ônibus e disse: ‘Ei, meu marido está procurando sócios para abrir uma vinícola em Mendoza. Alguém interessado?’ E foi assim que ela encontrou meus sócios. E trabalhamos juntos em uma joint venture 50-50, à la Opus One.

E esse foi o humilde começo da Cobos. Sem vinhedos, sem vinícola, sem dinheiro. Apenas paixão. Mas tínhamos uma missão. E nossa missão era explorar a mobilidade do Malbec.

E assim focamos na Cobos como a marca e observamos a região do Alto Rio Mendoza, como se fosse a margem direita ou esquerda de Bordeaux. Esse era o nosso objetivo, mas falhamos porque os produtores não nos respeitaram. Mesmo tendo contratos, eles venderam as uvas para vinícolas maiores, porque essas vinícolas vieram e disseram: ‘Gostamos da aparência dessas uvas. Vamos levá-las agora mesmo’. E os produtores não honraram os contratos.

Esse foi o início pouco auspicioso da nossa empresa. Os primeiros quatro anos foram muito, muito difíceis. Mas, com o tempo, perseveramos. Trabalhamos duro. Não conseguíamos no início produzir Chardonnay, por exemplo, porque não tínhamos uma prensa. Isso custava muito dinheiro. Mas hoje, com todo esse trabalho árduo e dedicação, construímos uma equipe.”

Paul Hobbs em vinhedo da Viña Cobos — Foto: Divulgação Viña Cobos
Paul Hobbs em vinhedo da Viña Cobos — Foto: Divulgação Viña Cobos

“O Chardonnay, a variedade, vem da Borgonha, na França. E há centenas de anos, os monges daquela região trabalharam muito para melhorar a maneira como se produz o vinho Chardonnay. Na Califórnia, nos anos 70 e 80, nós estávamos começando a questionar por que eles fizeram certas coisas, mas não tivemos realmente uma resposta. Quando perguntamos aos franceses, eles se recusam a dizer, não sabiam a resposta. É apenas a maneira como fizeram, não façam perguntas.

Então nossa abordagem na Califórnia foi tentar entender por que todo o processo foi feito e então depois começamos a perguntar por que estávamos fazendo o vinho daquela maneira. Buscávamos uma maneira mais simples, mais natural. E fizemos muitas experimentações.

Quando comecei a trabalhar na Argentina, quis testar e pesquisar se algumas dessas técnicas que estávamos trabalhando na Califórnia também funcionavam na Argentina. Há muitos paralelos. Usei essas técnicas para fazer os primeiros Chardonnays argentinos que lançamos no mercado americano.”

O enólogo americano Paul Hobbs — Foto: Cláudia Meneses
O enólogo americano Paul Hobbs — Foto: Cláudia Meneses

“Primeiro, vou explicar o nome Bramare, que vem do etrusco e significa desejar. O etrusco é uma língua pré-italiana. Essa palavra encontramos no livro que se chama ‘Under the Tuscan sun’ (Sob o sol da Toscana), que foi transformado em um filme. Então essa foi a essência da nossa razão por nomear esse vinho Bramare.

O Bramare Chardonnay é principalmente do Valle de Uco. Essa é uma nova região na Argentina. Meu impulso foi encontrar regiões mais frias, e a única maneira de ir mais fria é ir mais alto ou mais para o Sul. Esse foi o impulso nos anos 90, procurar regiões mais frias, onde uma uva de clima frio como o Chardonnay fica bem.

Este vinho foi fermentado em madeira, mas também reflete o lugar. Este vinho é naturalmente fermentado, usamos leveduras indígenas, naturais da uva. Não é uma levedura que você vai e compra no mercado.

Fazemos um esforço muito forte para ser o mais natural possível, sem maquiagem, sem muita intervenção. É um Chardonnay de altitude, de um lugar muito elevado, frio, com muitas pedras. Temos uma fruta de qualidade, de uma boa região. Você sente a tensão no paladar, a acidez. É muito preciso.”

O Bramare Chardonnay, da Viña Cobos — Foto: Divulgação Viña Cobos
O Bramare Chardonnay, da Viña Cobos — Foto: Divulgação Viña Cobos

“O Cabernet Sauvignon tem mais aromas de frutas vermelhas. A cor é uma indicação muito boa do que você pode imaginar do aroma da fruta e do sabor. O sabor deve seguir o aroma, se é um bom vinho. O que você cheira deve se conectar com o que você degusta. Se é mais vermelho, vai encontrar notas de framboesa ou cereja. Não se pode sentir aroma de framboesa e encontrar ameixa: Es otra cosa.

Os franceses sempre disseram que o aspecto mais importante de qualquer vinho é como ele se sente no paladar, a sensação na boca. Então quando você está provando o Bramare Cabernet Sauvignon Luján de Cuyo, vai notar uma pequena nota herbal. Tem uma pequena nota de grafite, que você sente quando aponta o lápis. E uma nota de madeira, de cedro, e ainda da folha do tabaco. Imagine um charuto cubano ou da República Dominicana. Você come o cigarro, o recorde, e você come o vinho. Essas são as marcas do Cabernet Sauvignon, um Cabernet Sauvignon muito bem feito.”

Cabernet Sauvignon da Argentina

“Quando o mundo reconheceu a Argentina como um país produtor de vinho, quis rotular como produtor de algo único, e esse algo único era o Malbec. Isso levou a um crescimento explosivo e, durante esse período, o Malbec dominou todas as conversas, mas isso não significa que a Argentina não seja uma das principais produtoras mundiais de Cabernet Sauvignon.

Agora há um grande interesse em Cabernet Sauvignon da Argentina, mas inicialmente foi inundado com Malbec, porque o país é o líder mundial em Malbec.

A liderança argentina não existiu sempre. Historicamente, o líder mundial em Malbec era a França. Você tem que pensar 200 anos atrás, 400 anos atrás, a Malbec era a variedade mais importante e Cahors era uma região mais importante do que Bordeaux.

O crescimento de Bordeaux veio com os britânicos, a conexão entre um rei francês e uma rainha da Inglaterra. Bordeaux ficou mais importante do que qualquer outra região da França para a produção de vinhos. O Malbec começou a diminuir em importância. Foi um pouco fortuito que a Argentina tenha se tornado mais reconhecida do que o lugar de nascimento da uva. A Argentina é líder de Malbec no mundo.

Isso nunca aconteceu antes. Mesmo que o Napa Valley, por exemplo, seja muito famoso pelo Cabernet Sauvignon, Bordeaux ainda é o benchmark. Borgonha é para Chardonnay e Pinot Noir, mesmo que haja bom vinho produzido em outras regiões. Esses são os benchmarks históricos.”

O Viña Cobos Vinculum Malbec — Foto: Divulgação Viña Cobos
O Viña Cobos Vinculum Malbec — Foto: Divulgação Viña Cobos

O Malbec é um pouquinho mais roxo, um pouquinho mais azulado que o Cabernet Sauvignon. Se é mais violeta, você vai encontrar mais aromas de ameixa e de mirtilo. O Viña Cobos Vinculum Malbec tem nobreza e potencial de envelhecimento. É uma uva incrível, realmente boa em destacar as características do local onde é cultivada e o impacto da cultura das pessoas que trabalham as uvas. É isso que torna tudo tão divertido. É por isso que faço o que faço.

Produzindo Malbec… na França

“Crocus talvez seja o primeiro passo mais lógico fora da Argentina. Cahors fica no Sudoeste da França, também uma área montanhosa. Eu não sabia nada sobre essa região, assim como sobre a Armênia ou a Espanha até minha primeira visita. Sabia que era o berço da Malbec. Li sobre o assunto, mas provei poucos vinhos e sabia pouco sobre a história. Tudo o que ouvia era que os vinhos eram muito duros, e que os taninos eram muito fortes. E aí as pessoas me perguntavam: ‘O que há de errado com esse lugar? Por que a Argentina produz algo tão bonito e macio, em contraste com este vinho rústico?’

Ouvi alguns produtores de vinho renomados que disseram que é porque chove demais e os solos não são bons. Fiquei muito curioso e pensei em ir lá por conta própria em algum momento. Mas antes de finalmente tomar a decisão, meu atual sócio, Bertrand Vigouroux, um dos principais produtores da região, entrou em contato com um produtor de vinho francês que tinha uma vinícola na Argentina, a Fabre Montmayou.

E Bertrand disse: ‘Estou procurando alguém da Argentina que venha a Cahors e nos ajude a fazer o que a Argentina está fazendo, a produzir nossos vinhos de que as pessoas gostem’. Ele respondeu que Bertrand deveria conhecer Paul Hobbs. ‘Ele é quem desenvolveu um Malbec para a Argentina e o lançou no mercado internacional.’ Um dia, recebi um e-mail de Bertrand, que dizia: ‘Precisamos fazer o que a Argentina está fazendo. Você pode vir a Cahors e dar uma olhada?’

Bertrand Gabriel Vigouroux e Paul Hobbs em vinhedo em Cahors, na França — Foto: Divulgação Crocus
Bertrand Gabriel Vigouroux e Paul Hobbs em vinhedo em Cahors, na França — Foto: Divulgação Crocus

E foi o que eu fiz. Fiz uma viagem em 2009. Era janeiro, inverno. Tudo o que eu queria era ver os solos, a topografia, provar os vinhos e entender quais eram os problemas. Caminhar por alguns vinhedos me proporcionou muitas informações. Primeiro, os vinhos eram praticamente impossíveis de beber. Se você desse um gole, provavelmente nunca teria provado um vinho tão tânico. Seus lábios ficavam com uma sensação estranha. Aí você toma outro gole e é tipo: ‘Nossa, que horrível!’. A pele dos seus lábios começa a descascar, de tão forte a sensação com apenas dois goles.

Além disso, os vinhos estavam cheios de microrganismos. Percebi isso imediatamente. Dá para sentir o aroma do vinho e não era nada bom, está cheio de bactérias. Havia muitos problemas de higiene e, para completar, problemas de oxidação. Visitamos algumas vinícolas, degustamos alguns vinhos e descobri que essa é uma parte muito primitiva, quase medieval. Comecei a aprender sobre a história deles, vi os solos e pensei: ‘Nossa, os solos são incríveis!’.

Vi os vinhedos deles e achei que não eram bem cultivados. ‘Como vocês cultivam? O que estão fazendo?’. Então eu disse: ‘Ok, esses problemas são corrigíveis’. Voltei no ano seguinte, durante a safra, em maio, e comecei a trabalhar com eles, ajudando-os a entender como cultivar os vinhedos, mostrando-lhes os problemas microbiológicos e como resolvê-los.

O Crocus L'Atelier Malbec de Cahors — Foto: Divulgação Crocus
O Crocus L’Atelier Malbec de Cahors — Foto: Divulgação Crocus

E assim começou, mas leva tempo para as pessoas realmente entenderem. Foram dois ou três anos. Bertrand disse: ‘Gostaria de começar uma parceria, assim como você fez com a Viña Cobos, imediatamente.’ E eu disse: ‘Não, Bertrand, depois da minha primeira visita, acho que precisamos namorar antes de casar. Você me contrata como consultor. Se essa relação correr bem, você levar a minha abordagem a sério e virmos que tivemos bons resultados, então podemos começar a Crocus. Foram três anos até começarmos a trabalhar juntos como uma parceria’.

Os solos são incríveis, mas o clima é muito desafiador. Bordeaux também é. Hoje em dia, os vinhos estão muito melhores, na verdade, muito bons. E eu não gosto de dizer isso em voz alta, mas em degustações às cegas, normalmente muitas pessoas preferem um vinho francês de primeira linha a um vinho argentino de primeira linha, mas depende do que elas estão acostumadas. Se você é europeu, gosta de mais acidez e de uma estrutura mais vibrante.

Aqui e na Costa Leste dos EUA, provavelmente se prefere o estilo argentino. De qualquer forma, esses dois estilos combinam muito bem. O vinho da França é o Malbec Crocus L’Atelier. Acho que com os vinhos chegando ao Brasil, vocês vão se divertir bastante, porque será possível comparar o da França e da Argentina, falar sobre os locais de origem, a evolução desses locais. São rótulos radicalmente diferentes.”

Chardonnay da Califórnia

O CrossBarn by Paul Hobbs Chardonnay Sonoma Coast — Foto: Divulgação CrossBarn
O CrossBarn by Paul Hobbs Chardonnay Sonoma Coast — Foto: Divulgação CrossBarn

“O CrossBarn by Paul Hobbs Chardonnay Sonoma Coast é um vinho da Califórnia, a cerca de uma hora e meia de carro do Centro de São Francisco, no condado de Sonoma. A parte oeste do condado é toda costeira. As águas do Oceano Pacífico nesta região são bastante frias. Esta região é influenciada pelas correntes oceânicas, especificamente pela Corrente de Humboldt.

São montanhas costeiras antigas, com muitos vales e diferentes exposições, o que chamamos de mini microclimas ou mini microterroirs. Por exemplo, se você for para este lado, encontrará um tipo de terroir diferente de se for para aquele lado. Não precisa de muito espaço, pois pode ser uma mistura de diferentes elementos, o que proporciona muita complexidade e permite que você pense como o maestro de uma orquestra. Imagine que existem todas essas ferramentas diferentes para brincar com todos esses elementos diferentes e ver como eles interagem. Isso pode ser fascinante, e foi isso que tentamos fazer neste Chardonnay.

Em termos de vinho, a ideia com a CrossBarn é apresentar frutas realmente frescas, limpas, crocantes, com boa energia, boa tensão, acidez e pureza da fruta, fruta autêntica. Por isso, há muito pouco carvalho; no caso do Chardonnay, é tipo 2%, quase nada. Queremos que a fruta seja a protagonista. É perfeito para o clima quente.

Para ir à praia, para um piquenique no fim de semana, para sentar enquanto cozinha, este é o vinho que deve ser aberto. Essa é uma das razões pelas quais usamos uma tampa de rosca, porque isso facilita colocar na geladeira, servir uma taça e guardar de volta na geladeira. É muito importante que as pessoas saibam que não precisam fazer nada de especial se quiserem tomar uma taça, colocar a garrafa de volta na geladeira e voltar dois dias depois para tomar outra taça. Não precisa proteger o vinho nem fazer nada de especial. O vinho dura facilmente uma semana inteira na geladeira, mesmo que a garrafa esteja parcialmente aberta. Ele é realmente muito estável, feito naturalmente.”

Alvaredos-Hobbs, na Espanha

O Alvaredo-Hobbs Mencía 2021 — Foto: Divulgação Alvaredo-Hobbs
O Alvaredo-Hobbs Mencía 2021 — Foto: Divulgação Alvaredo-Hobbs

“É um projeto em Ribeira Sacra, na Galícia, na Espanha. Essa vinícola veio até mim. Todos os projetos começaram assim. Comecei a produzir com eles 11 anos atrás. Exige muito mais se trabalhar em uma montanha, mas também acho que as recompensas são maiores. Esta área é principalmente montanha, não há muitos lugares onde é possível plantar um vinhedo, fica onde a montanha desce, em pequenas áreas.

No rótulo do vinho tinto Alvaredo-Hobbs Mencía 2021, o elemento mais óbvio é o ouro. A razão é que no passado era uma região rica em ouro, que foi explorada pelos romanos. Você também vê os monastérios. Os monges amam a região, que é montanhosa. Ela é isolada e de difícil acesso. Eles podiam orar e fazer suas coisas sem serem tentados pela sociedade nem distraídos. Já a cor preta representa a ardósia, encontrada nesta região.

Aqui você pode ver, de novo, a verdadeira personalidade do vinho. Tem uma fruta linda, vermelha escura, e tem até uma impressão de uma cereja escura italiana chamada Morello. É um pouco ácida, de sabor intenso. Tem nota de canela também. É uma uva única, que não se parece com as francesas da Borgonha e de Bordeaux.”

Vinhedo em Ribeira Sacra: Paul Hobbs produz em região de montanha, na Galícia — Foto: Divulgação Alvaredo-Hobbs
Vinhedo em Ribeira Sacra: Paul Hobbs produz em região de montanha, na Galícia — Foto: Divulgação Alvaredo-Hobbs

“A Armênia é uma história interessante porque eu não sabia nada sobre o país. Não me lembro de, quando estudava na universidade, ter aprendido muito sobre a região. O maior foco era no Velho e no Novo Mundo, sem discutir muito sobre essa parte do mundo, simplesmente não surgia como um tópico.

Um dos meus clientes de consultoria é um enólogo muito famoso que fundou uma das vinícolas mais icônicas do Vale de Napa na década de 70, e um de seus vinhos ganhou o Julgamento de Paris. Você se lembra do julgamento de 1976, certo? Warren Winiarski, da Stag’s Leap Wine Cellars. Warren era doutor e professor de história. Ele estudou na Universidade de Chicago.Hoje, essa vinícola pertence à família italiana Marchesi Antinori, pois Warren faleceu.

No ano 2000, comecei a prestar consultoria para Warren e, em certo momento, ele disse que ia se aposentar e que queria fazer uma celebração para todas as pessoas, todos os viticultores que o ajudaram. Então, ele organizou uma celebração e fez um grande molde de gesso para que pudéssemos colocar nossas mãos. Assim, se você for à vinícola, verá todos os viticultores com suas impressões digitais.

Além disso, ele nos deu um frasco de prata. E na tampa estava escrito: “vitis silvestri”, que é uma variedade antiga, não vitis vinifera. Ele disse que dentro havia duas sementes de uva, de uma das regiões vinícolas mais antigas do mundo, a Armênia. Eu pensei: “Sério? Preciso saber mais sobre isso.” Então, quando cheguei em casa, tentei pesquisar o que aquilo significava. Comecei a ler um pouco, mas não havia muita informação. Depois, guardei no armário e esqueci.

Recebi depois um telefonema de um senhor armênio que mora na região de Los Angeles e ele me contou que bebeu um dos meus Pinot Noirs e que foi uma das experiências mais marcantes, uma espécie de epifania. Ele perguntou se eu me importaria se mantivéssemos contato. Por que não? Um dia, algumas semanas ou meses depois, ele me escreveu um bilhete dizendo: ‘Bem, minha esposa e eu vamos para aí porque queremos visitar algumas pessoas e algumas vinícolas no Vale do Napa. Poderíamos jantar juntos?”

Os irmãos Yacoubian, Viken e Vahe, com o enólogo Paul Hobbs — Foto: Divulgação Yacoubian-Hobbs
Os irmãos Yacoubian, Viken e Vahe, com o enólogo Paul Hobbs — Foto: Divulgação Yacoubian-Hobbs

E foi assim que conheci os irmãos Yacoubian, Viken e Vahe. Eles me contaram que tinham muitas conexões na Armênia e que eram apreciadores de vinho e outras coisas. Disseram que leram bastante sobre mim, sobre minha história, trajetória. ‘Há um grande artigo no Los Angeles Times sobre seu trabalho na Argentina e tudo mais. Você sabe algo sobre a Armênia?’. E eu disse: ‘Bem, não muito. Na verdade nada’.

‘Você gostaria de fazer outro projeto como o que você fez para a Argentina? Talvez você pudesse ir à Armênia.’ Então, vou te contar o que eu disse a eles: ‘da próxima vez que eu for à Europa, vou ver se consigo encaixar mais alguns dias e podemos nos encontrar’. E foi assim que começou.

É um país pequeno, um ex-país soviético. Foi fascinante. Meu pai em particular tinha fascínio pela cultura russa. E, claro, eu cresci com o Sputnik e todos esses medos que os EUA tinham dos russos e tudo mais. Por causa disso, também fiquei meio fascinado pela Rússia. Nunca estive na Rússia, mas trabalhei na Hungria, então também vi alguma influência do período soviético.

Descemos às catacumbas acompanhados por um historiador, que disse que pouquíssimas pessoas vão ali. Turistas nunca são permitidos, apenas diplomatas ou chefes de Estado. Vi algumas coisas que tinham cerca de seis mil anos. Havia algumas inscrições. Depois, exploramos o país. Fomos para o Norte e, finalmente, para o Sul.

O Yacoubian-Hobbs Areni — Foto: Divulgação
O Yacoubian-Hobbs Areni — Foto: Divulgação

‘Você teria interesse em ficar e fazer algo por aqui?’, me perguntaram. ‘Bem, sim, mas a infraestrutura é péssima, nada presta. Como podemos conseguir equipamentos melhores? É tudo da antiga União Soviética, tudo está em ruínas, o saneamento básico é precário. É um desastre, não dá para beber nada, os vinhos são horríveis, e não há uma maneira fácil de trazer coisas da Europa para este país’. Então, sim, é um grande desafio. E aí eu pensei: ‘Como podemos ter alguém aqui que saiba fazer vinho? Será que podemos trazer alguns jovens do país e treiná-los na Argentina ou na Califórnia?’

A vinícola Yacoubian-Hobbs, na Armênia — Foto: Divulgação Yacoubian-Hobbs
A vinícola Yacoubian-Hobbs, na Armênia — Foto: Divulgação Yacoubian-Hobbs

Disseram-me que não. Eu perguntei: ‘Como assim, não?’. Responderam: ‘Bem, podemos tirá-los daqui, mas eles não vão voltar’. E eu disse: ‘Vocês estão falando sério?’. ‘Sim, estamos falando sério. Vocês não podem, não querem fazer um investimento desses’. Então, esses são alguns dos desafios, mas continuamos trabalhando, e depois outras pessoas também, e então começou a crescer. Não havia cultura do vinho, e agora há uma cultura vibrante, com feiras de vinhos, ruas fechadas, gastronomia com vinho, degustações, salas de degustação e lojas de vinho em Yeravan. Tudo isso explodiu nos últimos 10 anos. É realmente empolgante.

Produzimos variedades autóctones, como o vinho Yacoubian-Hobbs Dry Areni. Compramos nosso próprio terreno e plantamos nosso próprio vinhedo. Projetamos tudo porque queríamos respeitar a maneira local de cultivar um vinhedo. Tudo é projetado por nós, então podemos usar técnicas modernas e trabalhar muito bem, mas não farei isso de novo porque é muito caro.

Agora temos um vinhedo lindo, em uma altitude elevada, quase basicamente entre 1.376 e 1.400 metros, com solos calcários de montanha muito altos. Solos lindos, simplesmente fantásticos. Treinamos um grupo de mulheres que fazem todo o trabalho no vinhedo, porque as mulheres são mais detalhistas e realmente querem saber como fazer o trabalho corretamente.

Três anos depois, descobriram uma caverna. É a vinícola mais antiga do mundo. Foi descoberta logo abaixo do nosso local. Vou mostrar uma foto, porque estive lá recentemente. Então, esta garrafa reflete a forma como as ânforas eram enterradas: cavavam trincheiras e deixavam terra nas paredes. Esse desenho foi retirado da caverna. Essas são ânforas. Algumas foram feitas no local e outras foram feitas e queimadas fora dele. Mas, naquela época, há 6.000 anos, eles sabiam que queimar argila poderia torná-la mais resistente. Crânios foram encontrados, inclusive humanos, porque isso era um local de sacrifício.”

Produzir vinhos pelo mundo

“Eu tinha a ideia errada de que a prática facilita as coisas, ou que, se eu conseguisse fazer vinho em um lugar estrangeiro, conseguiria fazer mais facilmente em outro. Provavelmente, existem elementos que me são mais familiares; não é exatamente a mesma coisa que a primeira vez que fiz vinho fora do meu quintal. Para falar a verdade, devido às muitas diferenças culturais, às pessoas, ao seu nível de conhecimento, à sua conexão com o vinho (ou à falta dela), é preciso realmente aprender sobre a cultura. Acho que, antes de tudo, o mais importante é entender como são as pessoas da região onde estou trabalhando e o que é importante para elas.

O que eles sabem? O que querem compartilhar? Para onde querem ir? Talvez nem saibam para onde querem ir, mas é importante entender o máximo possível sobre as pessoas e o lugar onde você trabalha. Mesmo dentro de um país as coisas podem ser bem diferentes. Em outras palavras, embora eu não tenha experiência direta, se eu estivesse na Espanha, de uma região para outra, ou de um país para outro, acho que encontraria muitas diferenças. Essa tem sido a minha experiência ao viajar de um país para outro.

Mas tenho a sensação de que, mesmo regionalmente, haverá bastante diferença, até mesmo dentro do mesmo estado da Califórnia. O que posso dizer é que fazer vinho no Norte da Califórnia não é a mesma coisa que no sul, e se você for para Newark, enfrentará um conjunto totalmente novo de desafios.

É claro que temos a óbvia influência da natureza: solos, geologia, topografia, vales, montanhas e inclinação. Todas essas variáveis ​​são óbvias para todos. E acho que o que as pessoas não consideram é como elas enxergam a agricultura. Eles entendem de vinho? Qual é a experiência deles? Qual é a história deles?

Normalmente, tenho muita sorte de que, quando chego a um novo país, as pessoas intuitivamente sabem que isso é importante para mim e querem me ensinar tudo sobre a história, seja do Leste Europeu ou de alguma parte da Ásia. Então, normalmente, isso leva pelo menos alguns dias, se não vários, e diversas visitas.

Uma coisa que eu gostaria de mencionar é que muitas vezes as pessoas não consideram a temperatura importante para o vinho, mas ela é extremamente importante, assim como para qualquer tipo de alimento. Por exemplo, sorvete deve ser servido na temperatura adequada, assim como frutas, carnes e até saladas. Todos esses alimentos têm uma faixa de temperatura ideal. E o que eu costumo observar é que, muitas vezes, nem mesmo em restaurantes de alta gastronomia, os vinhos são servidos na temperatura correta. Vinhos nunca devem ser servidos à temperatura ambiente, mas sim à temperatura da adega ou mais fria.

Meu Chardonnay da Califórnia pode ser servido tranquilamente à temperatura da geladeira porque ele não passa por barricas de carvalho. Não é um vinho complexo, mas, caso contrário, se for envelhecido em carvalho, ou como os vinhos tintos, eu recomendaria servi-los entre 15 e 17 graus, um pouco mais quentes do que 8 ou 10 graus, ou seja, mais perto dos 12 graus que você usaria para vinhos brancos. É algo que eu só quero enfatizar porque servir o vinho na temperatura correta vai aprimorar a sua experiência.

Um Cabernet Sauvignon da Califórnia

“O CrossBarn by Paul Hobbs Cabernet Sauvignon Napa Valley é proveniente principalmente da parte Sudeste do Vale de Napa, onde predominam os solos vulcânicos. Acredito que seja possível imaginar no perfil de sabor notas de champignon, um toque de terra úmida e também algo como o que chamamos de pedra molhada. É como quando você vai a um rio e está perto das pedras na água; você tem o aroma e quase a sensação de sabor de pedras molhadas na mente.

O CrossBarn Napa Valley Cabernet Sauvignon — Foto: Divulgação Grand Cru
O CrossBarn Napa Valley Cabernet Sauvignon — Foto: Divulgação Grand Cru

É essencialmente um Cabernet, porque tem notas de amora, groselha vermelha, um leve toque herbal, um toque agradável de ervas frescas, como tomilho. E então você sente uma nota de grafite, não muito tabaco. Talvez com o tempo evolua um pouco mais, mas a maioria dos barris é neutra, não influencia muito a composição. É realmente focado na fruta, e acho que você sente o terroir no paladar. E, novamente, a ideia é pureza, boa energia, brilho e taninos ativos. Esses são os elementos-chave.

Em termos de potencial de envelhecimento, a ideia por trás deste vinho é consumi-lo logo após o lançamento. No entanto, o consumidor poderá envelhecê-lo sem problemas, tem total flexibilidade. Como somos muito meticulosos com o processo de maturação do vinho, protegemos-o da oxidação rápida, tratando-o com o máximo cuidado.

Aprendemos isso com o tempo, pois antigamente, se um vinho como este tivesse quatro ou cinco anos, já esperaríamos que apresentasse uma leve coloração marrom-avermelhada. Acho que agora podemos ver vinhos em que a qualidade da uva, a vinificação e as condições de armazenamento são excelentes, e o potencial de envelhecimento do vinho pode ser extraordinário.”

Vinhedo da CrossBarn, na Califórnia — Foto: Divulgação CrossBarn
Vinhedo da CrossBarn, na Califórnia — Foto: Divulgação CrossBarn

“Tive a vantagem de estar na indústria por quase 15 anos e, ao longo desse período, vi muitas mudanças. Talvez nos primeiros anos da minha vida eu não tenha percebido porque estivesse crescendo e estivesse isolado. Mas o último período profissional da minha vida tem sido radical em termos de mudanças, e não estou falando apenas das climáticas.

Estou falando de mudanças na civilização. Penso na minha infância e ouço minha mãe falar sobre a dela e como vivemos hoje. Se alguém me dissesse isso há 50 anos, eu não acreditaria que seria possível. O que quero dizer com isso é a comunicação, os luxos que temos hoje e que, francamente, consideramos garantidos. Mas também existe um certo distanciamento da Mãe Terra, porque muitas pessoas eram agrárias.

Hoje, pouquíssimas pessoas crescem em fazendas e conhecem o processo de produção de alimentos, da fazenda à mesa. Durante esse período, tivemos mais industrialização, mais comércio e agora uma tentativa de retorno a isso, além do crescimento populacional, com mais pessoas tendo a possibilidade de viajar e um alto padrão de vida. Então, todas essas mudanças precisam ser levadas em consideração.

O aspecto humano mudou drasticamente nos meus 50 anos de carreira. Se você perguntar sobre como o clima está mudando, eu diria que as mudanças climáticas vêm ocorrendo desde o início dos meus 70 anos, ou mais. Acredito que as mudanças climáticas são um fato, resultado de fatores naturais, mas hoje estão mais aceleradas devido à atividade humana.

Em alguns lugares são mais fortes do que em outros, e em alguns casos é difícil determinar a influência da humanidade sobre a natureza. Mas sabemos que estamos enfrentando essas mudanças. Se abrirmos os olhos, teremos que perceber que sim, temos um impacto na Terra. A atmosfera está muito rarefeita e tudo o que fazemos, como queimar combustíveis fósseis etc. Acredito firmemente que temos um impacto, e certamente podemos observar mudanças mais rápidas do que jamais imaginei.

Consigo perceber uma aceleração disso, seja na Argentina, com menos neve nos Andes. Já vimos isso antes, não é como se não houvesse ciclos, mas esses ciclos são mais profundos e intensos. Então, quando as pessoas falam muito sobre mudanças climáticas, para simplificar, no geral, os cientistas nos dizem que a Terra está aquecendo.

E podemos dizer, pela minha própria experiência, não tanto na Califórnia, mas monitorando o clima, viajando para outras partes dos Estados Unidos, por exemplo, onde passo a maior parte do meu tempo, que as pessoas estão tendo verões mais quentes ou tempestades mais severas, como resultado do aumento da temperatura.

Ou talvez em alguns lugares esteja até mais frio do que antes. Por isso, tenho notado mudanças climáticas particularmente acentuadas em áreas mais continentais. A Europa, por exemplo, está passando por mudanças mais radicais do que a Costa Oeste dos Estados Unidos. A Argentina, por ser continental, também está mudando mais rapidamente do que a Costa Oeste da Califórnia. À medida que se avança para o interior, o impacto climático se torna mais radical.

Uvas da Viña Cobos, em Los Árboles, Tunuyán — Foto: Divulgação / Foto de Viña Cobos
Uvas da Viña Cobos, em Los Árboles, Tunuyán — Foto: Divulgação / Foto de Viña Cobos

“Para nós, como produtores, não interessa produzir vinhos sem álcool. Como em qualquer indústria, existem segmentos ou nichos. Ocupamos um nicho específico e não buscamos ser gigantescos, não queremos agradar a todos os gostos. Não precisamos explorar tudo o que está disponível, mas sabemos que existe um nicho para bebidas não alcoólicas por diversos motivos. Não tenho problema nenhum com isso. Se me perguntarem o que acho de bebidas não alcoólicas à base de vinho, considero que são bastante simples e carecem de corpo e riqueza, o que é totalmente compreensível.

O álcool desempenha um papel importante, como todos sabemos. Talvez possamos explicar esse papel cientificamente. Uma bebida aquosa não proporciona a mesma experiência; muito mais superficial, linear e sem nuances. Não é uma bebida sofisticada de forma alguma, mas isso não significa que alguém não deva gostar. Está em algum lugar entre vinho e água, é apropriada para certas situações, mas não para nós. Somos dedicados a vinhos realmente finos.

Talvez se um château famoso, tipo um Premier Cru Classé, começasse a produzir vinhos desalcoolizados, vou me questionar o motivo. Para mim, é para obter lucro, ou talvez precisem disso para manter o negócio. Mas se chegar ao ponto em que eu tiver que fazer vinho desalcoolizado para continuar no ramo, eu pararia e procuraria outra profissão. Para mim, a alegria de criar um produto realmente excepcional se perderia. Você está produzindo um produto industrializado que remove algo, adiciona algo de volta, começa a mexer com ele de uma forma que o altera significativamente. Isso não é para mim.”

Paul Hobbs em visita ao Rio — Foto: Cláudia Meneses
Paul Hobbs em visita ao Rio — Foto: Cláudia Meneses

“Nem tudo está feito, certamente todos os dias há desafios e novos desafios, mas nenhum dia da minha vida foi entediante. Quando eu era mais jovem, tive alguns dias chatos. Trabalhar na fazenda às vezes podia ser meio chato, mas desde que entrei na vida adulta, não sei se tive algum dia chato, exceto quando passo muito tempo na praia. Na maior parte do tempo, gosto de ser ativo e me movimenta. O mundo é grande e é impossível para qualquer ser humano conhecer tudo.

No Rio, quando venho aqui, olho para as pessoas, caminho pela praia e vejo a diversidade. Penso: ‘Nossa, é maravilhoso. É tão interessante. Eu adoraria saber tudo. Gostaria de explorar isso, mas é impossível’. Viramos a esquina e desaparece. Ponto final.

Então, tenho algum desejo ardente? Não, eu realmente não sinto necessidade disso. Ah, eu tenho que ir fazer alguma coisa? Não, eu já tive, eu tenho muito, mais do que muito. Então, se eu olhar para minha mãe e disser que ela tem 11 filhos, você quer mais filhos? Ela não quer mais filhos mais velhos, ela só quer bebês. Mas a questão é que os bebês crescem e você tem que estar com eles também. Então, sim, criar algo novo e original é ótimo, mas cuidar disso é o seu trabalho.

E fazer ótimos vinhos, então, todo dia é algo muito difícil. E você não pode se dispersar, tem que ter cuidado para não se dispersar e tentar muitas coisas ao mesmo tempo, porque isso pode ser um problema.

Pode ser muito tentador dizer: ‘Ok, vou para o próximo projeto’. Legal. Mas eu prefiro cuidar e garantir que o que tenho esteja bom. Sou muito assim, e só então me sinto confortável. Quando tudo está bem, posso experimentar algo novo, se achar interessante e atraente. Se eu puder ir a algum lugar e realmente ajudar as pessoas ou trazer algo novo para quem ama vinho, então acho isso muito interessante.”

Vindima na Viña Cobos, em Mendoza — Foto: Divulgação Viña Cobos
Vindima na Viña Cobos, em Mendoza — Foto: Divulgação Viña Cobos

“Provavelmente já vim ao Brasil umas 6, 7, 8 vezes. Quase me sinto em casa quando estou aqui. Fico muito confortável. Gosto muito do Brasil. Gostaria de conhecer mais o interior do país, então espero poder explorá-lo mais no futuro. Preciso passar mais tempo aqui, obviamente, mas gostaria de trazer minha família, minhas filhas.”

Os vinhos de Paul Hobbs são importados para o Brasil pela Grand Cru.

[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img