Se as instituições brasileiras que repeliram uma tentativa de golpe demonstrassem o mesmo vigor no combate à corrupção, o país subiria vários degraus no estágio de desenvolvimento. A corrupção endêmica se traduz em maior insegurança jurídica e em maior risco para os investidores. Infelizmente, o país tem se mostrado incapaz de combater essa chaga. E a percepção externa não melhora. Desde 2018, o Brasil está estagnado em patamar abaixo da média no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), calculado pela ONG Transparência Internacional. Em 2025, obteve 35 pontos numa escala de zero a cem, repetindo sua segunda pior nota. Num ranking liderado por Dinamarca (89), Finlândia (88) e Cingapura (84), ficou abaixo das médias das Américas e dos países pesquisados, ambas em 42 pontos. Com esse resultado, ocupa o 107° lugar entre 182 países. Vale lembrar que houve piora tanto na nota quanto na posição brasileira desde 2012, quando o índice foi criado.
Os três Poderes contribuem para a má colocação do país na pesquisa, no entender de Bruno Brandão, diretor executivo da Transparência Internacional-Brasil. “Embora o Executivo tenha promovido avanço importante no uso de inteligência financeira para o combate à lavagem de dinheiro associada ao crime organizado, também falhou muito, permitindo a captura de agências regulatórias, além de manter a barganha política baseada na farra das emendas”, diz ele.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca escondeu sua aversão às agências reguladoras, equivocadamente consideradas por ele instrumento de terceirização do governo. Com o tempo, a indicação de seus diretores passou a ser avaliada pela régua da política. Quanto às emendas parlamentares, elas cresceram de maneira desmedida, no vácuo de governos frágeis no relacionamento do Congresso. Emendas individuais e de bancadas estaduais passaram a ser impositivas, e seus valores explodiram. Em dez anos, o total de emendas impositivas aumentou 2,5 vezes em relação à Receita Corrente Líquida (de 1,2% entre 2015 e 2019 para 3% entre 2023 e 2025).
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O Congresso contribuiu para relaxar o combate à corrupção ao suavizar a Lei de Improbidade, a Lei da Ficha Limpa e outras legislações. A Ficha Limpa, em especial, funciona como uma barreira a candidatos condenados em segunda instância pela Justiça ou na esfera administrativa. O fortalecimento do crime organizado aumentou ainda mais a importância desse tipo de legislação, mas o Congresso tem dado de ombros para a realidade.
A Transparência Internacional também critica o Supremo Tribunal Federal (STF). Embora decisões recentes tentem dar transparência às emendas parlamentares, outros processos têm garantido impunidade em escândalos de corrupção, em particular os desmascarados pela Operação Lava-Jato. Merece menção especial o caso de ministros que “aparecem com vínculos altamente suspeitos a empresas com casos na Corte”, referência aos escândalos que têm cercado as apurações em torno do Banco Master. Pelo menos esse assunto ainda não teve desfecho. O presidente do STF, Edson Fachin, não parece disposto a recuar na decisão de discutir e aprovar um Código de Ética para a Corte. Além de oportuna e necessária, a iniciativa também poderá melhorar a posição do Brasil em pesquisas sobre a percepção de corrupção.