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domingo, fevereiro 15, 2026

Fim demagógico da escala 6×1 terá preço alto

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De olho nos dividendos eleitorais, governo e Congresso apostam na redução da jornada de trabalho. A ideia é acabar com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso, ou 6×1. Na última segunda-feira, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) duas Propostas de Emenda à Constituição. As duas reduzem as horas de trabalho mantendo intocado o salário. Basta matemática elementar para entender que isso significará menos produtividade, portanto menos geração de riqueza na economia.

A proposta da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) reduz a jornada das atuais 44 para 36 horas semanais e estabelece uma escala de trabalho máxima de quatro dias por semana. A do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) defende cinco dias de trabalho com dois de descanso, com jornada semanal de 36 horas (em entrevistas, ele passou a defender o limite de 40 horas). No Senado, uma PEC nos mesmos moldes, do senador Paulo Paim (PT-RS), foi aprovada na CCJ em dezembro.

No dia seguinte à decisão de Motta, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) publicou uma nota técnica com estimativas sobre os efeitos das medidas. Logo na introdução, os autores reconhecem não haver “dados que permitam identificar as escalas de trabalho mais praticadas entre os diferentes setores e, portanto, estimar com maior precisão o impacto”. Também destacam lacunas das análises e defendem “mais estudos empíricos”.

Com base em dados disponíveis para o mercado de trabalho, eles tentam determinar quantas empresas seriam afetadas (grande parte já adota uma escala de 40 horas) e estimam o inevitável aumento no custo da hora trabalhada. Haveria alta de 17,57% na semana de 36 horas e de 7,84% na de 40 horas. Eles argumentam que o país já enfrentou choques parecidos no custo do trabalho, como os provocados por aumentos no salário mínimo. “Os empresários podem reagir de diversas formas”, diz Felipe Pateo, técnico do Ipea. “Reduzir a produção é uma delas, mas podem também buscar aumentos na produtividade ou contratar mais trabalhadores para suprir a carga horária.”

Trata-se de uma visão idealista sobre como funciona o universo corporativo. Os próprios dados da pesquisa mostram que a questão não é tão simples. A capacidade de absorção de cada setor varia, mas, quanto mais o custo do trabalho representa nas despesas, mais difícil a adaptação. O maior impacto recairia sobre as atividades intensivas em mão de obra. Mesmo em casos menos traumáticos — com redução para 40 horas —, o custo da hora trabalhada subiria quase 10% em setores como automotivo, moveleiro, vestuário, têxteis, alimentos, varejo e diversos outros. Nas empresas com até quatro funcionários, a previsão é ainda mais dramática. São números que tornariam inviáveis diversos negócios.

A economia brasileira pagaria um preço alto. Não dá para nutrir ilusões. Haveria ondas de demissão, queda na produção e maior informalidade. Não há fantasia ideológica capaz de esconder essa realidade. Reduzir a jornada por lei é uma medida que atua contra a geração de riqueza e de oportunidades de trabalho. O mais eficaz seria tratar de aumentar a produtividade, por meio de um ambiente de negócios acolhedor e de regras trabalhistas flexíveis. Era nisso que o governo e o Congresso deveriam concentrar seus esforços.

[Fonte Original]

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