Depois que agentes federais de imigração mataram Alex Pretti em Minneapolis, funcionários do Google inundaram os fóruns internos da empresa com mensagens exigindo uma resposta.
Na sexta-feira, mais de 800 funcionários pediram à direção, em uma petição, que fosse transparente sobre como a tecnologia do Google dá suporte às agências federais de imigração e instaram a empresa a deixar de fazer negócios com essas organizações. A petição afirmava que eles estavam “estarrecidos com a violência” e com as “operações no estilo paramilitar” conduzidas por agentes de imigração, as quais acusam o Google de ajudar a viabilizar.
Eles também solicitaram que a empresa adotasse medidas de segurança para proteger os funcionários após uma suposta tentativa de agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) de entrar no campus da companhia em Cambridge, Massachusetts.
Ativismo no Vale do Silício
A petição sinaliza uma retomada do ativismo de funcionários no Google e em todo o Vale do Silício, após anos de relativa calmaria. Trabalhadores de tecnologia, que em grande parte permaneceram em silêncio enquanto executivos se aproximavam do governo Trump, começam a pressionar algumas das maiores empresas do mundo a influenciar a Casa Branca a mudar suas políticas.
Embora tenha sido assinada por uma fração dos cerca de 190 mil funcionários da empresa, a nova petição ecoa a turbulência vivida pelo Google em 2018, quando trabalhadores fizeram uma paralisação em protesto contra a forma como a empresa lidou com casos de assédio sexual e, depois, contestaram seu envolvimento em um programa do Pentágono que utilizava inteligência artificial para aprimorar ataques com drones.
Nos anos seguintes, a direção do Google limitou o acesso dos funcionários a documentos internos, reduziu as reuniões gerais e reprimiu manifestações de dissidência. Há dois anos, demitiu 28 trabalhadores por protestarem contra um contrato de computação em nuvem com o governo de Israel.
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Como resultado, alguns funcionários passaram a hesitar mais em desafiar a gestão, afirmou Matthew Tschiegg, engenheiro da equipe de computação em nuvem que assinou a petição. Ainda assim, muitos empregados continuam acreditando no antigo lema informal da empresa: “Don’t be evil” (“Não seja mau”).
— Eles riscaram ou apagaram esse lema, mas o espírito continua vivo — disse Tschiegg, que trabalha no Google há mais de uma década.
Desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, executivos e investidores do Vale do Silício — incluindo Elon Musk, que lidera a SpaceX e a Tesla; Tim Cook, CEO da Apple; e Mark Zuckerberg, CEO da Meta — manifestaram apoio ao presidente por meio de doações e compromissos políticos. Essa postura criou a percepção de que o setor de tecnologia havia migrado de uma posição liberal para uma conservadora.
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Mas a morte de Pretti expôs algumas fissuras. Após o episódio, Cook, Sam Altman, da OpenAI, e outros pediram ao presidente que reduzisse a atuação dos agentes.
Sundar Pichai, CEO do Google, não divulgou um comunicado público. Jeff Dean, cientista-chefe do laboratório de pesquisa em IA DeepMind, do Google, escreveu em uma publicação nas redes sociais: “Toda pessoa, independentemente de filiação política, deveria condenar isso.”
A petição sobre imigração no Google, que recebeu mais de 500 assinaturas em 24 horas, foi organizada pelo No Tech for Apartheid, grupo de funcionários do Google e da Amazon que defende o fim do contrato conjunto de computação em nuvem das empresas com o exército e o governo de Israel.
A petição cita uma reportagem do site The Intercept segundo a qual o Google fornece serviços de nuvem à Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA. Também menciona a parceria do Google com a Palantir, empresa de análise de dados e tecnologia que desenvolveu software para rastrear imigrantes.
Um porta-voz do Google afirmou que o Departamento de Segurança Interna dos EUA utilizava infraestrutura de nuvem disponível comercialmente por meio de clientes da empresa, incluindo serviços básicos de computação e armazenamento em nuvem.
Tschiegg disse que os funcionários não sabiam como a tecnologia do Google estava sendo utilizada nesses e em outros contratos. A petição pede uma sessão de perguntas e respostas com a direção sobre os contratos da empresa com autoridades de imigração e esclarecimentos sobre se a companhia permitirá que a inteligência artificial seja usada pelo governo.
— Parece que eles estão correndo atrás do dinheiro. Isso cria um dilema moral e ético — disse.