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segunda-feira, fevereiro 2, 2026

‘iFood perderá posição de número 1 no Brasil’, diz especialista chinês ao TecMundo

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O iFood se transformou quase em um sinônimo da sua própria categoria ao longo dos últimos anos. O serviço no Brasil virou referência em aplicativo de delivery de alimentos, como a Uber é para transporte por aplicativo ou o Airbnb para hospedagem, por exemplo.

Essa liderança foi conquistada por uma série de fatores, desde o marketing massivo até os investimentos em promoções e cobertura de regiões, além da expansão para mais serviços além de comida.

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Outro ponto importante é a concorrência: após um início intenso desse mercado em quantidade de competidores, vários deixaram o setor e novos rivais preferiram um certo nicho ou região. Porém, para um analista chinês, essa calmaria está com os dias contados.

Trata-se de Yuanpu Huang, mais conhecido como Yuan, que é pesquisador e fundador da empresa de análise de mercado EqualOcean. O TecMundo entrevistou o especialista na indústria da China e ele avalia (e aposta) que há espaço no delivery nacional para uma troca na liderança.

“Embora o iFood seja líder de mercado, se analisarmos o volume diário de pedidos, o mercado de entrega de delivery no Brasil ainda está longe de estar totalmente desenvolvido. Há uma grande demanda inexplorada”, comenta.

O domínio do iFood vai acabar no Brasil?

Yuan enxerga três grandes motivos que explicariam uma eventual perda da hegemonia do iFood no cenário nacional:

  • O fim da posição de conforto em um mercado que passou anos com pouca concorrência, mas está se alterando;
  • A rivalidade com uma empresa focada principalmente na tecnologia que aprimora o delivery e não só na entrega propriamente dita;
  • O comprometimento já estabelecido pela Meituan, dona da Keeta, para não apenas testar o mercado brasileiro, mas já lutar pelo primeiro lugar.

“O iFood se provou localmente, mas por muitos anos está operando em um ambiente relativamente confortável“, afirma o analista. Segundo a previsão, o aplicativo pode ser obrigado a adotar uma “posição defensiva” ao se deparar com concorrentes de peso e conhecidos pela alta competitividade.

A aposta de Yuan sobre quem vai incomodar o líder de mercado é a Keeta, plataforma chinesa de delivery ainda com pouca disponibilidade no Brasil. Porém, ele acredita que até 2029 isso pode se alterar.

“Mesmo que o iFood consiga manter o volume de pedidos atual estável, a Keeta ainda pode ultrapassá-lo, capturando a maior parte do crescimento incremental“, diz. 

“Minha previsão pessoal é que, nos próximos três anos, o iFood perderá a posição de número um no Brasil”, prevê.

Empresa viu modas e rivais passarem

A empresa brasileira iFood nasceu em 2011 e viu transformações no mercado de pedidos por aplicativo, além do surgimento e da desistência de competidores que transformaram o setor devido a diferentes aspectos.

“Dois fatores explicam muito [o domínio do app]: a escala e o tempo de existência. Um terceiro fator é o fortalecimento de um ecossistema vertical integrado a partir de uma cultura intrínseca de inovação. O iFood deixou de ser apenas um marketplace de pedidos e se posicionou como plataforma de serviços para restaurantes”, analisa Roberto Kanter, professor dos MBAs da FGV em Gestão Comercial e Tecnologia e Inovação e diretor da Canal Vertical, em entrevista ao TecMundo.

A empresa de delivery de comida Glovo encerrou as atividades em 2019. Em janeiro de 2022, quem comunicou a saída do setor foi o Uber Eats, enquanto a 99Food chegou a deixar o segmento no ano seguinte. A Rappi é uma rival que se mantém estável, agora até mesmo com aporte da Amazon, mas tem menos força entre restaurantes.

Nesse meio tempo, questões como a pandemia aumentaram a demanda por esses serviços, que se expandiram para muito além de restaurantes e passaram a fazer outras entregas.

Keeta e 99Food: novas concorrentes de peso

O delivery nacional voltou a se movimentar em 2025, com uma chegada e um retorno importantes: a expansão da Keeta para o Brasil e o retorno da 99Food.

A Meituan é uma empresa chinesa de grande porte que começou como um site de descontos e cupons, tendo depois virado um superapp. A Keeta é uma marca e subsidiária independente do conglomerado, que se diz focada em “varejo orientado por tecnologia” e tem valores como agilidade nas entregas e no atendimento.

Já a 99Food é uma velha conhecida: ela não só já atuou por aqui, mas é brasileira de origem e iniciou as atividades no ramo de transporte por aplicativo, no qual permanece até hoje. Porém, ela foi adquirida em 2018 por outra gigante chinesa, a Didi.

Os especialistas concordam que há pontos positivos em ser um nome recente no mercado. “Novos entrantes tendem a competir com subsídio, comissão menor e incentivo agressivo, pressionando margens do mercado e criando ruído competitivo em algumas praças”, diz Kanter.

A marca de origem nacional voltou ao delivery após alguns anos afastada. (Imagem: Divulgação/99Food)

Porém, Yuan acredita que startups têm mais vantagens quando são as primeiras a entrar em um mercado. Já grandes empresas de plataforma, como é o caso da Keeta, podem chegar depois e ainda assim alcançar e até mesmo ultrapassar ​concorrentes.

Já o professor da FGV enxerga maior dificuldade na briga entre os serviços, especialmente se ela for direta. “Se tentarem bater de frente, nos grandes centros, disputando o mesmo restaurante, entregador e consumidor, a chance de perder é alta. O iFood tem caixa, escala e ecossistema suficientes para sustentar uma guerra de atrito por muito mais tempo”.

O futuro passa pela regulamentação

Para além da disputa de mercado e preferência do consumidor, o delivery por apps tem ainda uma questão não resolvida: a ausência da regulamentação do setor, seja no estabelecimento de regras gerais de funcionamento do app ou até direitos dos entregadores.

Para Kanter, uma regulamentação afeta elementos como custo do trabalho, previsibilidade de ofertas, transparência algorítmica e responsabilidades de segurança. Porém, como isso afetará cada empresa depende de quão “bem calibrada” é a lei —  e, como o iFood tem maior escala e pode se beneficiar de um menor custo adicional, medidas mal elaboradas podem até reforçar essa liderança em vez de gerar equilíbrio.

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Regulamentação de apps de delivery segue em debate no Executivo e Legislativo.  (Imagem: Antonio_Diaz/Getty Images)

O professor acredita, porém, que a regulamentação pode reduzir a insegurança jurídica em casos do setor e não trazer tantos prejuízos ao público quanto muitos esperam.

“Na prática, o consumidor tende a ser pouco prejudicado por preço e muito beneficiado pela qualidade do serviço. O discurso de que a regulamentação ‘inevitavelmente’ encarece o delivery é um argumento de negociação das plataformas, não uma verdade absoluta”, conclui.

Contratos também viram disputa

Outro ponto delicado do mercado está nas regras sobre contratos dos apps de delivery com restaurantes, em especial os que buscam exclusividade nas entregas por um aplicativo.

Em 2023, rivais chegaram a abrir uma reclamação no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sobre a prática de contratos de exclusividade do iFood com restaurantes e como isso seria uma postura antimercado.

No mesmo ano, um acordo foi assinado entre Cade e iFood estabelecendo critérios para contratos com restaurantes. As regras incluem limitar a 25% o volume de vendas atrelado a restaurantes exclusivos e não fechar exclusividade com marcas com 30 ou mais estabelecimentos.

Agora, essa disputa é também centro de polêmica com as novas integrantes do setor. Na última briga, a 99Food conseguiu via recurso manter os atuais contratos com restaurantes mesmo após vitória inicial da Keeta na Justiça.

Segundo Yuan, essas práticas, que são tradicionais no setor inclusive na China, não duram muito tempo. “Para além de potenciais problemas jurídicos, contratos de exclusividade ferem tanto negócios quanto consumidores por limitar escolhas. A maior parte dos restaurantes não quer se restringir a uma única plataforma. Ter múltiplas delas é normalmente melhor para poder de barganha e estratégia a longo prazo”, explica.

O analista sugere que o iFood precisa baixar as taxas de comissão e competir em eficiência e qualidade de serviço contra as novas rivais. Mas, apesar de indicar que o fim da hegemonia está próximo, Yuan ainda vê muitos méritos no app nacional.

“No curto prazo, o iFood tem a vantagem de compreender o mercado brasileiro local. Mas, a longo prazo, suas limitações em tecnologia e capacidade de sistema se tornarão um verdadeiro obstáculo“, alerta.

Sabia que o Brasil já tem entrega por drones? Saiba mais sobre o tema nesta coluna!

[Fonte Original]

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