Quando o debate sobre a Amazônia se intensifica, quase sempre gira em torno de um único indicador: a taxa de desmatamento. Comemora-se quando cai, lamenta-se quando sobe. Conter a destruição é essencial, mas essa obsessão esconde um problema central do desenvolvimento regional: o que fazer com a Amazônia que já foi desmatada.
Segundo o MapBiomas, a supressão vegetal, entre 1985 e 2024, foi de 61,8 milhões de hectares, superando o território de países como França e Madagascar. Trata-se de uma paisagem humana consolidada, que exige políticas públicas urgentes para não se transformar em deserto produtivo e ecológico.
Pesquisadores a definem como “segunda natureza”: não uma terra inútil, mas uma nova base territorial, que demanda outro modelo de ocupação. O desafio amazônico vai além de frear novas derrubadas. É preciso criar uma “terceira natureza”, capaz de restaurar ecossistemas essenciais, como as matas ciliares, e implantar atividades produtivas sustentáveis nas áreas já abertas.
O problema é que essa segunda natureza está no coração de um modelo econômico lucrativo, alinhado ao padrão primário-exportador brasileiro. A pecuária responde por cerca de 75% das áreas desmatadas e permanece altamente rentável. A soja, ao avançar sobre pastagens, eleva o preço da terra e empurra o gado para novas frentes, realimentando o ciclo de derrubada, ocupação e especulação.
A restauração em larga escala esbarra num obstáculo estrutural: na Amazônia, a terra tornou-se mercadoria. Essa lógica se apoia na grilagem de terras públicas, sobretudo nas classificadas como “florestas públicas não destinadas”. O Cadastro Ambiental Rural, concebido para regularizar, acabou capturado como instrumento de legitimação da ilegalidade.
A transformação da segunda em terceira Natureza exige a articulação entre restauração produtiva e bioeconomia da sociobiodiversidade. A bioeconomia propõe um modelo centrado em produtos florestais não madeireiros, na agricultura familiar e no protagonismo dos povos tradicionais.
Para áreas degradadas, destaca-se a restauração ecológica produtiva, que alia recuperação ambiental e fortalecimento de cadeias sustentáveis, como os sistemas agroflorestais. A restauração produtiva oferece soluções técnicas e econômicas para recuperar áreas degradadas e reduzir o domínio da monocultura.
Em meio à pressão internacional por metas climáticas e aos debates pós-COP30, enfrentar a Amazônia já desmatada é decisivo para o Brasil. A transição para a terceira natureza demanda a integração entre restauração produtiva e saberes locais. Isso implica ordenar o território, enfrentar a grilagem e garantir a terra a quem historicamente manteve a floresta em pé. Sem isso, não haverá transição ecológica possível.
*Giliad de Souza Silva é professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará