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segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Thomas Traumann: Troca de Toffoli por Mendonça no caso Master é tentativa do STF de sair do foco

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Oi, esta é a minha newsletter com bastidores e informações dos fatos mais relevantes da semana que se inicia. Nesta edição, conto que a saída de Dias Toffoli do comando do Caso Master não irá tirar o STF do foco das investigações, a decepção do mercado financeiro com Flávio Bolsonaro e como o desfile da Sapucaí vai prejudicar a campanha da reeleição de Lula. Clique aqui para se inscrever.

  1. O STF entrega os anéis
  2. Não se samba na areia
  3. Derrota em casa
  4. Fala por si
  5. O fator abstenção
  6. Fique Atento

1. O STF entrega os anéis

É uma ironia do destino que o futuro do Supremo Tribunal Federal esteja nas mãos do ministro indicado pelo grupo político que tentou destruir este mesmo tribunal. Novo relator do processo do caso Master, o ministro André Mendonça só chegou ao cargo pela promessa de Jair Bolsonaro de que indicaria alguém “terrivelmente evangélico” e pelo apoio persistente de Michelle Bolsonaro e do pastor Silas Malafaia. Um ano atrás, Mendonça foi o único ministro do STF que aceitou a tese da defesa de Bolsonaro de que Alexandre de Moraes não poderia julgar o ex-presidente por ser um dos alvos do plano de assassinatos dos golpistas.

A troca de Dias Toffoli por André Mendonça na condução do caso Master foi uma tentativa do STF de sair do foco. Não vai dar certo. Como revelou o repórter Aguirre Talento, do jornal O Estado de S. Paulo, a Polícia Federal encontrou no celular do dono do Master, Daniel Vorcaro, reclamações por ter recebido cobranças para efetuar pagamentos pela compra do resort ligado a Toffoli. As conversas de 2024 indicam que Vorcaro autorizou repasses de R$ 35 milhões à empresa da família Toffoli pelo resort Tayayá.

É impossível conduzir uma investigação séria do Master sem olhar com lupa para as relações de Vorcaro com Toffoli e outros ministros do STF, e a reação será pesada. A divulgação, na semana passada, pelo jornal digital Poder360 de trechos da sessão que confirmou o afastamento de Toffoli do caso é uma aula de corporativismo, com os ministros demonstrando mais indignação com o fato de a PF ter investigado um dos seus do que com os ilícitos apontados a Vorcaro.

Além do Master, Mendonça é o relator da investigação das fraudes no INSS, atua como padrinho do também evangélico Jorge Messias como futuro ministro no Supremo e será vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral na eleição. Somados os casos do INSS e do Master, estão nas mãos de Mendonça investigações que passam por um dos filhos de Lula da Silva, uma sócia de Flávio Bolsonaro, por seu ex-colega de ministério Ciro Nogueira, por pastores da Igreja Lagoinha, pelos governadores bolsonaristas do Distrito Federal e do Rio de Janeiro, por metade do PT baiano, e nem o oráculo de Delfos é capaz de dizer quem mais. A partir de agora, Mendonça tem o poder de dizer quem dorme e perde o sono em Brasília.

Com Cristiano Zanin, Mendonça forma a dupla de ministros mais discretos do Supremo. (O exercício da presidência do tribunal tirou Edson Fachin dessa posição.) Não vota por meio de discursos midiáticos, não se posiciona politicamente em público, nem atrai a atenção em julgamentos por seus posicionamentos jurídicos.

Assim como outros colegas do STF, Mendonça tem negócios privados. É sócio de uma instituição de ensino, o Instituto Iter, que oferece cursos para governos. De acordo com o Estadão, o Iter havia recebido R$ 4,8 milhões de governos entre 2024 e outubro de 2025. No ano passado, o Iter conseguiu licença do Ministério da Educação para oferecer cursos de pós-graduação.

Normalmente discreto, Mendonça é o único ministro do STF a fazer campanha junto aos senadores a favor da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias. Além da fé, Mendonça e Messias partilham a resistência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Alcolumbre, aliás, pode ser o primeiro preocupado com a mudança na relatoria do caso Master. Em 2021, Alcolumbre impôs a Mendonça mais de quatro meses de espera pela sabatina no Senado. O então presidente Bolsonaro só não retirou a indicação por insistência de Michelle. Alcolumbre tem problemas na investigação do INSS: seu ex-assessor Paulo Boudens recebeu R$ 3 milhões de uma empresa do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, maior operador do esquema. Alcolumbre também tem problemas no Master: o fundo de pensão dos servidores públicos do Amapá investiu R$ 400 milhões em papéis do Master quando o banco já tinha fama ruim. O investimento foi bancado pelo diretor-presidente, indicado ao cargo por Alcolumbre, contra alertas da área técnica. A Polícia Federal já apreendeu documentos do caso.

2. Não se samba na areia

Um adversário não teria feito melhor. O desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mostrando evangélicos numa fantasia de lata de conserva, reforçou os preconceitos contra o segmento mais resistente ao PT. A fantasia, depois de uma semana em que a oposição varreu as redes sociais com vídeos feitos por inteligência artificial atacando o deslumbramento do presidente, jogou no lixo qualquer tentativa de reaproximação com um grupo que representa 30% do eleitorado.

Ala da escola de samba Acadêmicos de Niterói retrata evangélicos em “lata de conserva” — Foto: Reprodução/TV Globo

Ao menos a assessoria presidencial conseguiu convencer a primeira-dama Janja da Silva e os ministros a não desfilar, mas o estrago está feito. Como disse a presidente do TSE, Cármen Lúcia, a homenagem a Lula no Sambódromo era uma “areia movediça”, em que quem entra “sabe que pode afundar”.

Em fevereiro de 2018, o então deputado federal Jair Bolsonaro foi ao CEO Conference do banco BTG para se apresentar à Faria Lima. “O mercado sempre me achou um rinoceronte. Vou me dar por feliz se sair daqui com vocês me achando um homem das cavernas”, disse, para gargalhadas da plateia. Discursando para 250 executivos na hora do almoço, Bolsonaro conseguiu um feito na ocasião: a atenção não apenas dos engravatados, mas também dos garçons que serviam as mesas. No evento, falou pela primeira vez da sua admiração pelas ideias de Paulo Guedes e saiu aplaudido. Era o início do namoro que enlaçou o candidato que se dizia antissistema com a elite financeira.

Oito anos depois, o filho mais velho de Jair, o senador Flávio Bolsonaro, era a estrela do mesmo encontro do BTG. Escolhido candidato pelo pai no início de dezembro, Flávio teria, na quarta-feira (dia 11), o seu maior evento com uma elite financeira ávida por uma alternativa ao presidente Lula. Oportunidade dada, oportunidade perdida.

Flávio, que passou as últimas três semanas fazendo turismo e alguns contatos políticos no Oriente Médio e na França, fez o evento online. Ele deu respostas vagas às perguntas óbvias sobre privatizações, reversão da tributação dos ricos e a sua relação com a madrasta Michelle e o governador Tarcísio de Freitas. Como anotou a repórter Martha Beck, da Bloomberg, os participantes se decepcionaram com as promessas vagas de ajustes na política fiscal, “sem representar uma ruptura decisiva com as políticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.

Sem ter ao lado um Paulo Guedes como fiador, como tinha o pai, Flávio se mostrou despreparado. Mesmo empresários que votarão nele em outubro saíram do evento temendo o seu comportamento num debate sério, e todos recordaram quando ele tentou e perdeu a eleição para prefeito do Rio, em 2016, e desmaiou ao vivo na TV.

Em artigo publicado no jornal digital Brazil Journal, no dia 8, Flávio defendeu um “tesouraço”, definido por ele como a redução dos gastos públicos, impostos e burocracia. O texto intencionalmente foge dos detalhes, servindo mais como uma oportunidade para o governo atacar Flávio por planejar cortar gastos sociais.

Por enquanto, os únicos assessores econômicos de Flávio são do time B da equipe de Paulo Guedes: seu amigo de infância Gustavo Montezano, ex-presidente do BNDES, e Adolfo Sachsida, ex-secretário do Ministério da Economia. As tentativas do senador de atrair Roberto Campos Neto (Nubank) e Mansueto Almeida (BTG), por enquanto, deram n’água.

Apesar de ter como assessor o ex-presidente do BNDES Paulo Rabello de Castro, Ratinho Junior não pretende ter, no curto prazo, um porta-voz econômico.

A nova pesquisa Genial/Quaest confirma três tendências e traz um alerta. O levantamento mostrou a consolidação da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, indicou um teto para o crescimento de Lula mesmo depois da isenção do Imposto de Renda para a classe média baixa e reforçou as dificuldades do surgimento de um terceiro candidato viável. A novidade é a reação do eleitor dito independente (nem lulista nem bolsonarista) de simplesmente não ir votar.

No quadro geral, Lula lidera o primeiro turno com 35%, seguido de Flávio com 29% e Ratinho Junior com 8%. Num segundo turno, Lula vence Flávio por 43% a 38%. A vantagem de 5 pontos percentuais é a menor da série histórica: era de 16 pontos percentuais em julho de 2025, 10 pontos em dezembro e 7 pontos em janeiro.

Entre os independentes, porém, é que se observa a maior mudança. Nesse bloco, que representa 33% do eleitorado, Lula tem 31% das intenções de voto e Flávio, 26%, ambos atrás da opção abstenção, branco ou nulo, com 38%. É mais que o dobro dos 17% da população geral que indica não ir votar ou não votar em ninguém.

Para comparar: no segundo turno de 2022, as abstenções foram as menores desde 2006, com 20,58%. Os votos brancos e nulos foram os mais baixos desde 2002, somando 4,8%. Quatro anos depois, o desgaste tanto do governo Lula quanto da família Bolsonaro mudou o panorama.

Se a rejeição dos independentes pelas alternativas Lula e Flávio for mantida, a eleição entra numa roleta russa. Com um cenário de polarização intensa, os dois candidatos partirão de bases muito altas e com poucos eleitores dispostos a mudar de lado. Numa situação dessas, o comparecimento do eleitor torna-se a variável fundamental.

6. Fique atento — A agenda da semana

  • Nesta terça-feira, dia 17, o presidente Lula embarca para uma viagem de oito dias à Índia e à Coreia do Sul. A viagem à Índia, com comitiva de mais de 300 empresários, vai até o dia 22, numa tentativa dos dois países de aumentar o comércio em tempos de Trump. O contexto se repete na visita a Seul. Lula retorna ao Brasil no dia 25.
  • A oposição ingressa com ação na Justiça Eleitoral por considerar que o desfile da Acadêmicos de Niterói foi propaganda eleitoral antecipada pela reeleição de Lula.
  • Corre o tempo para que o BRB consiga vender no mercado as suas carteiras de crédito, inclusive de consignado de servidores, além de formar um fundo imobiliário com base nos imóveis no Distrito Federal. Depois das negociatas com o Master, o BRB precisa de um mínimo de R$ 4 bilhões para não quebrar.
  • Termina na sexta-feira, dia 20, o prazo do Superior Tribunal Militar para a defesa de Jair Bolsonaro responder sobre o processo de perda da patente de capitão do Exército por ter sido condenado pela tentativa de golpe.
  • O Carnaval termina na quarta-feira, mas o Congresso só volta a trabalhar na semana que vem.

[Fonte Original]

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