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quarta-feira, março 25, 2026

Guerra contra o Irã pressiona Índia e testa limites do BRICS

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A Índia enfrenta pressão crescente, na condição de líder do grupo BRICS, para orientar o bloco a adotar uma posição mais firme sobre o conflito com o Irã, colocando à prova a diplomacia de Nova Délhi.

Quase um mês após Estados Unidos e Israel iniciarem ataques aéreos contra o Irã, que mataram lideranças importantes do país e desencadearam uma crise energética global, o BRICS (cujos principais membros são Brasil, Rússia, Índia, China, e África do Sul) ainda não conseguiu adotar uma posição sobre a guerra.

O impasse decorre do fato de que vários membros do bloco estão em lados opostos do conflito, o que dificulta a construção de um consenso. O Irã, membro do BRICS desde 2024, respondeu aos ataques de EUA e Israel lançando foguetes contra os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. Os Emirados aderiram ao grupo em 2024, enquanto a Arábia Saudita ainda avalia um convite para ingressar.

Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, o Irã pediu à Índia, que ocupa a presidência rotativa do BRICS neste ano, que apoie sua tentativa de condenar a campanha militar conjunta de EUA e Israel. Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita dificilmente concordariam, disseram as fontes, enquanto China e Rússia poderiam oferecer apoio tácito a Teerã.

Membros do bloco elaboraram pelo menos três declarações sobre o conflito, duas das quais foram rejeitadas devido a divisões internas, incluindo uma que condenava EUA e Israel pelos ataques, segundo uma fonte. Para alguns integrantes, o BRICS corre o risco de se tornar irrelevante se não se posicionar sobre temas centrais do momento, disse outra pessoa.

A hesitação contrasta com a condenação feita pelo bloco aos ataques de EUA e Israel contra o Irã em julho de 2025, quando também pediu a retirada das forças israelenses de Gaza. Em janeiro, o grupo permaneceu em silêncio sobre a captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelos EUA.

O impasse evidencia os desafios enfrentados pelo bloco de economias emergentes à medida que a guerra entra em sua quarta semana. O presidente Donald Trump agora pressiona por negociações com o Irã para tentar interromper os combates, embora a República Islâmica rejeite publicamente as investidas de Washington.

A guerra colocou especialmente a Índia em uma situação diplomática delicada, agravada por seu papel de liderança no BRICS. O país mantém relações próximas tanto com os EUA quanto com Israel, e o primeiro-ministro Narendra Modi esteve em Tel Aviv poucos dias antes do início do conflito.

Nova Délhi também mantém laços históricos com o Irã e depende fortemente do fluxo de petróleo e gás pelo Estreito de Ormuz, que está praticamente fechado desde o início da guerra. A Índia é um dos poucos países que conseguiram negociar a passagem segura de parte de seus navios-tanque pelo estreito.

Ao mesmo tempo, o país tem fortes vínculos econômicos com os Emirados Árabes Unidos e outras nações do Golfo Pérsico, onde vivem cerca de 10 milhões de indianos.

A pressão sobre Modi para que o BRICS se manifeste já chegou ao espaço público. No sábado (21), o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, disse a Modi que o grupo deveria “desempenhar um papel independente na interrupção das agressões” contra o Irã e garantir a paz e a estabilidade regional, segundo a embaixada iraniana na Índia.

O Ministério das Relações Exteriores da Índia e um porta-voz do governo brasileiro não responderam imediatamente a pedidos de comentário. Chrispin Phiri, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da África do Sul, afirmou que há “negociações em andamento” sobre uma possível declaração do BRICS e que o país apoiará um consenso.

O Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos não comentou diretamente a ausência de uma declaração do bloco, mas afirmou que uma resolução do Conselho de Segurança da ONU neste mês enviou uma “mensagem unificada” de que a comunidade internacional não tolerará ataques iranianos ao país.

Até agora, a Índia tem resistido aos apelos para intervir por meio do BRICS. Segundo fontes, Nova Délhi avalia que não pode tomar partido como presidente do grupo, mas pode facilitar o diálogo entre os membros em busca de uma solução. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Randhir Jaiswal, afirmou, no início do mês, que é difícil conciliar as diferenças entre os integrantes, já que vários estão diretamente envolvidos no conflito.

“A Índia é um país que tem um pé em mais de um barco”, disse Sadanand Dhume, pesquisador sênior do American Enterprise Institute, acrescentando que a guerra “torna as coisas mais difíceis para a Índia, que é um exemplo clássico de país oscilante dentro do BRICS”.

“Para a Índia, isso cria um grande desconforto”, afirmou.

A situação evidencia a complexidade do conflito e os desafios históricos do grupo para alcançar consenso em questões geopolíticas delicadas. O BRICS foi formalmente criado em 2009 por Brasil, Rússia, Índia e China e não é orientado por um objetivo único ou ideologia comum, servindo principalmente como um fórum para países em desenvolvimento.

Trump tem criticado o BRICS por ser antiamericano e dominado pelas agendas de China e Rússia. Ele já ameaçou impor tarifas de 100% aos membros e acusou o bloco de tentar enfraquecer o dólar.

“Certamente não é uma aliança militar. Os países-membros não têm obrigação de se defender mutuamente”, disse Alexander Gabuev, diretor do Carnegie Russia Eurasia Center, em Berlim. “Quem esperava transformar o BRICS em uma alternativa ao G-8 ou a outros grupos ocidentais verá que essas expectativas não se concretizarão.”

O Irã apresentou um rascunho de declaração condenando EUA e Israel e pedindo o fim dos “ataques”, segundo uma fonte. O texto foi rejeitado após objeções dos Emirados Árabes Unidos, que afirmaram que ele não refletia o papel do próprio Irã como agressor, devido a seus ataques a países vizinhos.

Uma segunda versão, mais neutra, proposta pela Índia, condenando a perda de vidas e pedindo moderação, também não avançou e foi igualmente rejeitada pelos Emirados. Uma terceira proposta, que destaca o impacto do conflito nos mercados globais de energia, segue em discussão.

O BRICS deve permanecer relevante enquanto focar em áreas de “cooperação pragmática”, como financiamento ao desenvolvimento e facilitação do comércio, em vez de buscar “coesão ideológica”, afirmou Irene Mia, pesquisadora sênior do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.

“Se tentar se transformar em uma aliança geopolítica formal, correrá o risco de fragmentação interna e fracasso”, disse. “Esperar uma resposta geopolítica forte e unificada do BRICS é não compreender sua estrutura nem seu propósito.”

[Fonte Original]

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