“Eros mais uma vez afrouxa-membros me torce
doce-amargo, impossível de resistir, criatura a roubar”.
(Safo, LP, Fr. 130, tradução de Júlia Raiz).
Em cartaz no Sesc Avenida Paulista até o próximo dia 22 de março, Autobiografia do vermelho, solo de Bianca Comparato, dirigido por Daniela Thomas, reúne inúmeras qualidades. A primeira delas é dar a conhecer a um público mais amplo o romance homônimo escrito em versos (publicado em português pela Editora 34) por uma autora contemporânea cuja obra é bastante difícil de classificar: Anne Carson. A segunda é levar o público paulistano a usufruir de um espetáculo concebido em estado de discreta beleza, seja pelo tom delicado com que ele se descortina aos olhos do espectador, seja pela capacidade de articular, com aparente simplicidade, retalhos narrativos a fios de reflexão, convertendo-os em um tipo de teatralidade essencial, sem excessos de espécie alguma.
A helenista, poeta e tradutora canadense Anne Carson fomenta em sua obra aquilo que somente aos mestres compete promover: a circulação de gêneros. Autobiografia do vermelho, seu livro mais conhecido, é um romance em versos livres que mal disfarça sua vocação para a prosa. Mas é também uma narrativa ficcional, sedimentada em matéria mitológica, escrutinada, por sua vez, pelas técnicas da crítica literária – de viés ensaístico, diga-se de passagem. Tal mistura, antes de confundir o leitor ou mesmo soar-lhe um mero exercício de experimentação tão formal quanto estéril, constitui-se em expressão de uma inventividade das mais fascinantes nas letras contemporâneas. A palavra tecida por Carson faz “qualquer coisa para evitar o tédio”, segundo a poética praticada pela própria autora.
Outra das qualidades do espetáculo a ser destacada é a dramaturgia, assinada pela atriz e pela diretora em companhia de Gabi Costa. Renunciando à tentação de fazer do material original um simples pretexto para a elaboração de algo bastante distante dele, o trio de dramaturgas persegue, senão todos, a grande maioria dos rastros e vestígios deixados pela escritora canadense ao longo das páginas de seu livro, convidando-os a assumir o estatuto de uma materialidade vocacionada para a cena. Autobiografia do vermelho, o espetáculo, então, ergue-se (nenhum outro verbo caberia aqui) diante do espectador como um livro que atua, ora como livro-personagem; ora como livro-cenário; ora ainda como livro-figurino, provocando o desejo de gerar mais prazer do que informação, como defende o linguista suíço Paul Zumthor em Performance, recepção, leitura.
A atriz Bianca Comparato demonstra uma notável segurança em cena, desdobrando-se nas sete personagens da narrativa às quais empresta nuances de atuação comedidas e precisas. Os mesmos comedimento e precisão marcam a direção e a cenografia de Daniela Thomas, a trilha sonora original composta e executada ao vivo por Lello Bezerra, a iluminação de Sarah Salgado e o figurino de Verônica Julian. A rigor, todos os envolvidos na criação do trabalho atuam como empenhados editores desse espetáculo-livro que tem por princípio a descoberta de suas regras como um jogo, ecoando as palavras de Jean-François Lyotard. Jogar, jouer, to play, atuar. Nada mais coerente com o trabalho de Anne Carson, escritora que retira de sobre as palavras do passado a pátina do tempo, convocando-as a se tornar, pelo jogo da invenção literária, palavras atuantes no aqui-agora.
Pode-se dizer que o trabalho de Carson opera por mecanismos de deslocamento e condensação. Ela se interessa pelo mito de Héracles de forma oblíqua, traduzindo e recriando os fragmentos da Gerioneida, composta entre os séculos VII e VI por Estesícoro, um dos nove poetas mélicos gregos, transformados em cânone pela cultura alexandrina. Na obra, que chegou para nós em fragmentos muito esparsos, Estesícoro concentra sua atenção no episódio em que o mais popular herói grego chega à ilha do monstro Gerião para aniquilá-lo e roubar-lhe o gado – o que corresponde a seu décimo trabalho. Mas o que chama a atenção, já pelo título com que o poeta mélico batiza sua criação, é o fato de ele demonstrar uma acentuada simpatia pelo monstro alado, de pele vermelha, que exibe seis mãos e seis pés – simpatia essa que confere à empreitada também um processo de deslocamento.
A partir do deslizamento de ambas as placas tectônicas, Carson erige seu romance de formação contemporâneo em que Gerião vive com Héracles uma paixão atormentada, condensando aqui a variante do mito contada pelo poeta da época alexandrina, Diotimo, que apresenta o filho de Zeus e Alcmena como amante de Euristeu, rei de Micenas, por cuja complacência amorosa se submete aos caprichos do amado, representados pela dúzia de trabalhos “irrealizáveis”. Novo deslocamento se dá com o título da obra, em que a cor do monstro sai da esfera do mito para adentrar o terreno da citação literária, a Autobiografia de Alice B. Toklas, escrita por sua companheira Gertrude Stein – o que passa a constituir mais um casal homoafetivo. E por sobre tal processo de deslocamento, opera-se ainda um mecanismo de condensação, que funde o gênero literário criado por Gertrude Stein – a autobiografia escrita em terceira pessoa – a uma cor que, em estado de semiose infinita, ecoa o “vulcão reticente” de Emily Dickinson, que se desloca, por sua vez, do estágio de epígrafe bibliográfica para se fixar como cenário natural do encerramento da narrativa.
O gozo da linguagem é tão intenso em Anne Carson que poderíamos continuar a enfadar o leitor com a identificação de outros tantos jogos discursivos com os quais livro-jogo e espetáculo-livro tabelam tão bem. Mas é hora de apelar para a sempre inteligente brevidade com que a escritora canadense costuma brindar a crítica e os leitores. Encerremos, pois, com uma fala curta para Bianca, Daniela, Gabi e suas demais companheiras e companheiros de viagem: “Aqui vai meu conselho, mantenham. Mantenham a beleza do que estão fazendo. Beleza é Verdade e pronto”.
AUTOBIOGRAFIA DO VERMELHO
Sesc Avenida Paulista – Arte II (13º andar)
Avenida Paulista, 119 – Bela Vista – São Paulo
Quinta a sábado, às 20h; Domingos, às 18h
Ingressos: R$ 50, R$ 25 e R$ 15
Duração: 90 minutos
Classificação: 14 anos
Até 22 de março
Confira aqui a entrevista com Daniela Thomas e Bianca Comparato, por Felipe Franco Munhoz
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