O livro de contos Apocalipse todo dia, de Ney Anderson, publicado pela editora Patuá – foi um dos livros resenhados na Cult de março. A equipe da Cult conversou com o autor sobre o livro.
Em Apocalipse todo dia, o único personagem recorrente em todos os contos é a cidade do Recife. De qual maneira você utilizou esse território em sua literatura? Qual é o Recife do livro?
É uma cidade longe do cartão postal. Recife não é apenas cenário, é personagem central. A cidade serve como um enorme palco por onde desfilam tantas figuras do meu livro. Mas também de maneira sentimental. Porque, de forma muito direta, ela reflete a alma dos personagens presentes em cada conto. É como se, metaforicamente, a pulsação dessa metrópole mexesse realmente no coração de todos eles. Atingisse lá dentro das entranhas, no íntimo, e reverberassem em algo explosivo, ativando histórias particulares recheadas de medos, alegrias, angústias, dilemas e tantas outras questões dramáticas do ser humano. Eu só consigo escrever tendo o Recife como epicentro da loucura e do incômodo. É muito normal, para mim, colocar o Recife nesse papel de destaque. Eu gosto. Me empolga. E os personagens, eles surgem naturalmente. Aliás, estão sempre lá, andando pelas linhas tortas da existência.
No livro, muitos contos flertam com um ar sobrenatural e insólito. Como foi o desafio de atualizar esse imaginário de assombrações para o século 21?
Recife é a cidade mais assombrada do Brasil. Por isso amo fazer esse flerte com o sobrenatural, para dar beliscão na realidade. Eu acredito que a vida não é apenas o que os olhos veem, existem muito mais coisas nas quais os nossos sentidos não conseguem alcançar. Então eu trato de colocar esses elementos insólitos para mostrar que nada é o que parece ser. Embora o meu texto não seja declaradamente do gênero terror, eu bebo dessa fonte para causar aquele arrepio, um frio na barriga do leitor. Na verdade, se eu não ficar arrepiado depois de terminar de escrever algum conto, quer dizer que ele não atingiu o seu objetivo. Não está pronto. Meu termômetro para saber se o texto está bom ou não, é quando leio o texto original para alguém e essa pessoa reage com alguma expressão de espanto. Escrevo para incomodar. Tirar o sono do leitor. Tirar o leitor de seu lugar de conforto. Fazê-lo refletir sobre esse mundo cada vez mais louco em que estamos inseridos. Às vezes o espanto acontece por conta do reflexo de si mesmo que o conto provoca em quem lê. A arte serve para olharmos para dentro de nós. Para buscar entender quais são os anjos e quais são os demônios que estão sempre ali, à espreita, querendo nos puxar para o céu ou para o inferno.
Na abertura do livro, duas epígrafes aproximam Chico Science e Dante Alighieri. Essas escolhas surgiram no início do processo de escrita ou foram encontradas depois que o tom dos contos já estava definido? De qual forma elas podem funcionar como chave de leitura?
Chico tem um universo urbano que sempre admirei. Algo que transcende o fazer artístico. O seu mangue com a antena parabólica enfiada na lama reflete a inquietação que ele sentia na alma. Chico era universal utilizando os dilemas aparentemente locais. Não por acaso, os olhos do mundo se voltaram para o Recife nos anos 1990. A parabólica fincada no imaginário febril de Science conseguiu captar o universo e trazê-lo para o Recife. Falando da sua gente, Chico falou com as gentes do mundo todo, pois os dramas são muito parecidos. Só que tem um detalhe. Chico Science jogou tudo num enorme caldeirão, colocou os ingredientes que apenas ele carregava. Se tornou o grande intérprete dos sonhos intranquilos da nossa sociedade. Sobre Dante Alighieri, é impossível deixá-lo de fora disso tudo. Se Chico captava o inferno de cima como ninguém, Dante descia à mansão dos mortos e voltava de lá sempre com alguém puxando pelo braço. E não estou dizendo que isso é uma coisa positiva. O que sobra de alguém depois de viver o inferno? De todos esses infernos. Os personagens caminham buscando algum tipo de redenção.
Em contos como “Assombrações do Recife de hoje” e “Atrás do disco voador”, você retoma figuras clássicas do imaginário recifense – como o Papa-Figo e a Perna Cabeluda – e as insere em novo contexto. A intenção era de propor uma releitura? Era o desejo de resgatar e reativar essas histórias no imaginário contemporâneo da cidade?
Confesso que eu sou leitor tardio de Gilberto Freyre. Li textos esparsos. Mas ele é um autor muito presente no imaginário local. Sobretudo as histórias fantasmagóricas. Quando li, recentemente, Assombrações do Recife Velho, fiquei pirado. É uma obra muito atual. É um daqueles livros que nos dá orgulho em ser pernambucano. Freyre criou algo muito forte no imaginário popular recifense. O conto presente no meu livro foi escrito muito antes – porque já existia essa atmosfera na cidade desde sempre. A mesma coisa eu digo de Raimundo Carrero: um dos gigantes da literatura não só brasileira, mas latino-americana. Imagine só escrever um artigo de jornal e isso se tornar uma lenda. Tem gente que jura de pés juntos (olha o trocadilho) que viu mesmo a Perna Cabeluda. É incrível. Não tem mais volta. É uma coisa formidável conseguir mexer com a psique das pessoas. Então, a minha releitura pode ser entendida como uma homenagem aos dois mestres da literatura. Gilberto Freyre sempre foi uma espécie de fantasma me assombrando. As histórias dele estão por aí. Me causavam medo. E Raimundo Carrero me ensinou a escrever. Me mostrou que esse tipo de medo (entre tantas outras coisas) provocado pela literatura tem uma técnica para atingir um efeito. Nada mais justo do que homenageá-los.
Confira a resenha de Apocalipse todo dia, escrita por Ricardo Ramos Filho, na Cult de março.