Com direção de Daniela Thomas, a peça Autobiografia do vermelho – solo de Bianca Comparato – está em cartaz no Sesc Avenida Paulista, em São Paulo, até o dia 22 de março. É uma adaptação do livro (de mesmo título) da canadense Anne Carson: um romance em versos, publicado originalmente em 1998.
No Brasil, Autobiografia do vermelho foi publicado pela Editora 34 (com tradução de Ismar Tirelli Neto) e, posteriormente, tornou-se audiolivro, lançado pela Supersônica – também com direção de Daniela Thomas e narrado por Bianca Comparato. A Cult conversou com Thomas e Comparato.
Quais os desafios de adaptar – primeiro para o audiolivro, depois para o palco – uma autora tão inventiva (e estruturalmente complexa) na página?
DT: Tenho tido essa experiência maravilhosa de dirigir atores nas leituras para audiolivro. Entendo que é uma expressão tão complexa quanto qualquer outra expressão artística, e é particular, idiossincrática. É preciso contar, não ler, e a única correlação que encontro nos dias de hoje é com o que fazem os pais e as babás quando leem para as crianças. Contar é conjurar, é dar corpo experiencial às ideias, aos personagens. Aqui, em Autobiografia do vermelho, houve ainda a complexidade da tradução da forma fragmentada para a leitura. Estabelecemos vozes, emissões distintas, para transpor a experiência da leitura do livro impresso para o áudio. Com a peça, Bianca foi muito sagaz em selecionar as cenas e sintetizar o arco dramatúrgico do personagem central, Gerião. E tomamos emprestado o sistema de fragmentos, apêndices, para estruturar a encenação.
Daniela, você comenta, no programa da peça, que a adaptação paga tributo ao teatro moderno experimental novaiorquino – que você acompanhou de perto entre os anos 70 e 80. De que forma você combinou as referências desse teatro com ideias ou métodos mais contemporâneos? Como isso reverbera no público brasileiro do século 21?
DT: Esse é o suco amniótico onde minha vida no teatro foi gestada. O que aconteceu aqui foi que ao ler o livro de Carson, fui transportada para os temas e para a paisagem das peças que assisti no East Village, no início dos anos 80. Tive a intuição de que Carson esteve por lá também – e vivenciou essa transposição da Grécia Clássica para a paisagem árida do Midwest americano, com seus personagens solitários e maiores do que a vida. Reconheci a fonte das imagens de Carson; com isso, vivi uma experiência proustiana de transporte para o meu passado no teatro, seus temas e pesquisas formais. No centro disso, a relação com o cinema, a emissão desteatralizada da voz, a música como ator; enfim: uma série de questões que estão colocadas ali naturalmente, não como imitações, mas filtradas pelos 40 anos da minha vida no teatro e no cinema, claro.
Afinal tudo, aqui, é resultado dessa longa vivência e do que me estimula agora: o movimento do corpo, o uso do papel (que vem de um trabalho que eu e o Felipe Tassara fizemos com o Felipe Hirsch em 2013, em Frankfurt: o Puzzle, o que me deu segurança para propor essa estrutura cênica à Bianca), a parceria com o Iq Martins, extraordinário designer que criou as projeções, e com o Lello, esse músico multitalentoso que sabe absolutamente tudo da música moderna, e que reage instantaneamente à qualquer referência que surja.
Quanto a como reverbera com o público, aí está o mistério que não se controla, não é mesmo?
Qual estratégia foi utilizada para recorte do texto de Carson?
BC: Tempo, tempo, tempo – e dedicação. Trabalhei nessa adaptação por quase dois anos. Só assim, acho que consegui chegar no mínimo para me sentir apta para adaptar um obra como essa. E mesmo assim, ainda há inúmeras camadas que tenho certeza de não ter chegado ainda. E é essa a beleza do livro. Estudei muito o livro, mas o recorte principal que escolhemos foi a história de amor entre Gerião e Hercules. Como a Daniela diz: a peça é um romance. De formação.
Daniela, você poderia comentar sobre a opção por um cenário minimalista e multimidia? E, também, sobre a opção de que fosse um monólogo – com Bianca Comparato interpretando várias vozes?
DT: Quando fizemos a leitura, uma das primeiras decisões foi a de criar vozes e prosódias distintas para os diferentes personagens do livro. Isso migrou naturalmente para o teatro. Nunca houve outra ideia senão a de Bianca fazer todos os personagens, o que aliás é uma das grandes qualidades do espetáculo – graças ao incrível talento da Bianca de fazer esses saltos instantâneos em diálogos por vezes muito ágeis, sem que isso pareça artificial, formalista.
O cenário minimalista é, na verdade, a realização de um antigo desejo de iluminar uma peça com a luz do projetor. Finalmente consegui, com a parceria que a Bianca me proporcionou – essa atriz muito técnica e que, ao mesmo tempo, carrega um frescor, uma naturalidade que desmonta a rigidez das marcações cênicas. Pude não só iluminar a peça com a luz especialíssima e muito particular do projetor, mas usar as formas que a imagem projetada viabiliza para construir paisagens psíquicas, por vezes opressoras ou idílicas, que acompanham a dramaturgia.
Qual é a diferença, Bianca, em interpretar sete vozes para o audiolivro e sete vozes para o palco?
BC: A criação das vozes para o audiolivro certamente inspiraram a criação dos personagens para a peça. Mas na peça, elas literalmente ganham corpo. Então precisei fazer pequenas mudanças. A principal foi deixá-las mais sutis. Como na peça há luz, projeção, figurino etc., Daniela e eu optamos por uma interpretação mais naturalista e coloquial – mas respeitando a poética de Carson. Já no audiolivro, exagerei mais nas vozes: por se tratar de uma experiência unicamente “escutada”.
Bianca, você afirma, no programa de Autobiografia do vermelho, ter quase morrido fazendo a peça. Pode comentar um pouco mais sobre isso?
BC: Eu me levei aos meus limites. Nesse sentido quase morri. Ano pass–
Confira aqui a crítica do espetáculo Autobiografia do vermelho, por Welington Andrade.