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domingo, março 22, 2026

Crítica | Devoradores de Estrelas – Plano Crítico

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Baseado no livro homônimo de Andy Weir, mesmo autor de Perdido em Marte, a nova produção espacial do material do escritor, Devoradores de Estrelas, é o tipo de superprodução de ficção científica que, em teoria, parece fácil de vender: um problema cósmico de escala apocalíptica, um protagonista isolado no espaço, uma estrutura de mistério amparada por flashbacks e, no centro de tudo, uma amizade improvável entre espécies. Dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, com roteiro de Drew Goddard, o filme aposta em uma combinação muito clara de maravilhamento científico, humor acessível e emoção calorosa. E talvez seja justamente por funcionar tão bem dentro dessa fórmula que a obra também mostra certas limitações, ainda que com competência e muito charme.

A estrutura inicial é provavelmente a parte mais eficiente do longa. Ryland Grace, vivido por Ryan Gosling, desperta sozinho em uma nave a anos-luz da Terra, sem memória de quem é, do que está fazendo ali e do que aconteceu com os outros tripulantes. Esse começo tem algo de genuinamente sedutor porque mistura o thriller de amnésia com o cinema de sobrevivência espacial. É um bom ponto de partida porque o espectador entra no filme junto com o protagonista, tateando informações e descobrindo, aos poucos, a gravidade do problema. A ameaça do astrófago, um microorganismo que drena energia estelar e condena a Terra a um resfriamento catastrófico, é apresentada com clareza e impacto suficiente para dar ao enredo uma urgência imediata.

O problema é que, à medida que a narrativa avança, Devoradores de Estrelas vai trocando mistério por explicação, e o que inicialmente parecia um filme sobre descoberta vira um longa que flerta bastante com uma abordagem didática. Não é que o cinema de ficção científica não possa ou não deva ser expositivo; muitos grandes filmes do gênero dependem disso. Mas aqui há uma confiança quase absoluta de que toda ideia precisa ser verbalizada, testada, detalhada, traduzida e arrematada por uma piada ou por um momento de emoção sublinhada. O roteiro de Goddard transforma o método científico em espetáculo narrativo com alguma habilidade, mas raramente encontra espaço para o desconhecido respirar. Tudo precisa ser entendido, resolvido e nomeado, um cacoete que vem do próprio material literário.

Isso fica ainda mais evidente quando surge Rocky, o alienígena de Eridani, que é sem dúvida o grande coração do filme. A ideia de um contato extraterrestre construído não a partir do conflito, mas da colaboração, é simpática e até admirável em um cinema recente tão acostumado a imaginar o alien como ameaça. Grace e Rocky aprendendo a se comunicar, compartilhando conhecimento e se reconhecendo como sobreviventes solitários de missões suicidas é o eixo emocional mais importante da obra, e também o que melhor funciona. O filme entende que a força dessa relação está menos no exotismo da criatura e mais na intimidade progressiva entre dois seres radicalmente diferentes que passam a confiar um no outro. Há delicadeza nisso. Há humor também. E há uma espécie de esperança fundamentalmente trekkiana na ideia de que o encontro com o outro pode ampliar, e não destruir, o que entendemos por inteligência, amizade e dever.

Ainda assim, essa relação também sofre um pouco com o excesso de simplificação emocional do filme. Rocky é concebido de maneira tão adorável e funcional dentro da estrutura que, em vários momentos, parece menos um alien verdadeiramente estranho e mais um amigo de buddy movie revestido de design criativo. Não acho que isso anule o encanto da dupla — ela sustenta boa parte do filme, como um bom pipocão para o grande público —, mas limita um pouco o potencial mais perturbador ou realmente radical do contato entre espécies. O longa prefere o conforto da amizade à vertigem do desconhecido. É uma escolha legítima, só não particularmente ousada.

Ryan Gosling segura muito bem a parte humana desse equilíbrio. O ator já demonstrou em outros filmes que sabe habitar personagens emocionalmente fechados sem torná-los opacos, e aqui usa esse registro com eficiência. Seu Grace é um homem inteligente, ansioso, espirituoso quando necessário e profundamente covarde em momentos decisivos do passado. Gosto especialmente de como o filme se recusa a transformá-lo em herói clássico desde o início. Mas, novamente, a execução é mais segura do que brilhante. O filme quer trabalhar esse arco de redenção, claro, porém faz isso de maneira muito transparente. Cada etapa emocional parece visível demais, cada conflito interno chega embalado para ser entendido e absorvido sem atrito. A relação com Eva Stratt (Sandra Hüller), personagem que operacionaliza a resposta global à crise, poderia render um debate mais duro sobre ética, autoritarismo e sobrevivência coletiva, mas o filme prefere utilizá-la sobretudo como vetor de informação e de pressão narrativa. Há bons momentos ali, principalmente no modo como o passado de Grace vai sendo reconstituído, mas o filme nunca passa dessa camada segura de entretenimento, o que faz parte do jogo.

Tecnicamente, há muita coisa admirável. A direção de Lord e Miller, mais conhecida por trabalhos de energia cômica e inventividade pop, encontra aqui um tom visual mais controlado, sem abandonar completamente certo prazer lúdico na encenação. A nave, os sistemas, os procedimentos e os espaços de gravidade variável são filmados com clareza e elegância. Greig Fraser, na fotografia, ajuda a construir uma ficção científica muito limpa, muito geométrica, às vezes até excessivamente polida, mas que sabe produzir imagens de solidão cósmica com bastante impacto (um planeta em específico é particularmente belíssimo de ver nas telonas). Daniel Pemberton, na trilha, acompanha bem essa proposta, compondo uma música funcionalmente épica, emocional quando precisa e raramente invasiva.

A parte visual ligada a Rocky e à tecnologia eridiana também é bem resolvida, especialmente porque o filme precisa tornar plausível uma criatura cuja forma de perceber o mundo e de se mover é bastante distinta da humana. A direção de arte entende que esse alien não pode ser apenas “bonito” ou “ameaçador”; ele precisa ser convincente em sua diferença e ainda assim legível o suficiente para o vínculo emocional funcionar, além de certa fofura. Nesse sentido, o filme acerta muito. Há imaginação no design, no modo como os espaços são adaptados para atmosferas incompatíveis e na maneira como a comunicação vai ganhando forma, com destaque máximo para a mistura de efeitos práticos com CGI.

No fim, Devoradores de Estrelas é um bom filme familiar, às vezes bastante envolvente, com centro humano forte, produção impecável e uma dupla protagonista bem humorada que realmente sustenta o interesse e a atenção do público. Mesmo excessivamente confortável em sua própria inteligência e demasiadamente didático, a produção, dentro do cinema comercial recente, traz algo genuinamente agradável ao vermos um blockbuster que acredita em ciência, amizade e cooperação em escala cósmica. Mesmo que eu não tenha saído deslumbrado, saí ao menos com a sensação de ter visto uma aventura espacial honesta em suas ambições.

Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary) – EUA, 2026
Direção: Phil Lord, Christopher Miller
Roteiro: Drew Goddard (baseado na obra homônima de Andy Weir)
Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, James Ortiz, Lionel Boyce
Duração: 156 min.



[Fonte Original]

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