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sexta-feira, março 27, 2026

Crítica | Peaky Blinders: O Homem Imortal – Plano Crítico

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Ao longo de cinco temporadas de Peaky Blinders, Steven Knight foi capaz de criar e desenvolver um dos mais icônicos personagens da última década e meia, escorregando apenas na sexta e última que foi utilizada como veículo para a transposição de sua obra de série para longa-metragem, com a introdução de Duke, o primogênito de Tommy Shelby completamente tirado da cartola, e que, vivido agora por Barry Keoghan, divide o tempo de tela de O Homem Imortal com Cillian Murphy, ator que, nesse meio tempo, levou seu Oscar, seu BAFTA, seu Globo de Ouro e outros por encarnar o personagem-título de Oppenheimer. Infelizmente, porém, Duke não é o único problema do longa produzido para encerrar um ciclo, pois a escolha de Knight por usar o clássico tropo narrativo do “herói aposentado que é obrigado a retornar para as trincheiras” esvazia Tommy de qualquer sutileza ou ambiguidade e coloca o filme em trilhos protocolares desse tipo de história.

Muito provavelmente a ideia de Knight tenha sido tornar Peaky Blinders: O Homem Imortal um filme mais universal que mesmo que aqueles que não tenham assistido à série possam embarcar sem maiores problemas, mas ao mesmo tempo trazendo elementos do passado que apaziguassem os que acompanharam as temporadas por quase 10 anos. Nessa corda bamba, o criador e roteirista não conseguiu fazer bem nem uma coisa, nem outra, ou melhor, ele só conseguiu impedir que seu filme caísse naquela vala comum dos filmes medianos que existem por aí aos borbotões. Peaky Blinders nunca foi uma série mediana e nunca precisou se curvar à abordagens genéricas e tão usadas por aí a ponto de se tornarem banais, mas, quando a sexta temporada acabou, meu receio era justamente esse, receio que acabou se materializando em um filme que, no final das contas ainda consegue ser bom em razão unicamente de Murphy retornando como Tommy Shelby, além da costumeira qualidade da direção de arte.

A trama se passa em 1940 durante a Operação Bernhard dos nazistas, que tinha como objetivo inundar o sistema financeiro britânico de notas falsas de libras para destruir a economia já cambaleante do país e precipitar o fim da guerra, com Tommy em um exílio autoimposto no interior do país vivendo apenas com o fiel Jonnhy Dogs (Packy Lee) enquanto Londres, Birmingham e diversas outras cidades são incessantemente bombardeadas. Enquanto escreve sua biografia, Tommy  continua tendo visões de sua filha Ruby e lutando contra seus demônios, com seu filho Duke liderando os Peaky Blinders com mão de ferro e fazendo um acordo com o agente nazista John Beckett (Tim Roth) para facilitar a difusão do dinheiro falsificado pelo país. Ada (Sophie Rundle) tenta fazer Tommy voltar para colocar rédeas em seu filho, mas é somente a chegada de Kaula Chiriklo (Rebecca Ferguson), irmã gêmea de Zelda, a falecida mãe de Duke, que consegue o feito por meio de interessantes elementos místicos ligados à cultura romani.

Confesso que me incomodou muito a eliminação de Arthur da história por meio de uma morte ocorrida anos antes que não só é a razão efetiva para o autoexílio de Tommy, como ela faz muito pouco sentido se levarmos em conta tudo o que sabemos dos irmãos e, também, todos os problemas psicológicos que Tommy sempre teve. A adição de mais um trauma para justificar algo que não precisava de justificativa é uma tentativa de criação de mistério que puxa o filme para o campo do melodrama. De maneira semelhante, mesmo que a presença de Ferguson seja, como sempre, hipnotizante, seu papel é apenas e tão somente de “facilitadora”, o que faz com que todo o lado místico que, como disse, eu gosto, descambe para uma sucessão de obviedades que contribuem para que toda e qualquer ambiguidade dos personagens seja jogada no lixo.

Tom Harper, que já havia dirigido três episódios da primeira temporada de Peaky Blinders e que teve como trabalho anterior Agente Stone, para o Netflix, é um diretor que tem perfeita consciência das limitações dos roteiros que lhes são entregues e, com isso em mente, consegue fazer algo que acaba sendo visualmente melhor do que o que está no papel. Claro que facilita muito a estrutura de saída de aposentadoria do filme, pois isso é algo muito facilmente conducente a momentos feitos para o espectador vibrar de felicidade, algo que é ampliado pela oportunidade de se matar nazistas, o que é sempre um bônus, mas, verdade seja dita, Harper faz esforço para ancorar-se na mitologia imagética da série e, com isso, segura os exageros que ele muito facilmente poderia ter à sua disposição. Sim, há os momentos feitos para serem icônicos, notadamente o retorno de Tommy à civilização, mas mesmo neles, percebe-se uma tentativa de manter constante o ar melancólico, mesmo que o roteiro tenda a ser raso nesse aspecto.

Barry Keoghan, ator que normalmente encara personagens difíceis, aqui não tem muito com que trabalhar, especialmente porque, com Tommy de volta, os afetos das câmeras são todos reservados para Cillian Murphy. Isso transforma Duke em um personagem recortado em cartolina que não apresenta dimensão alguma. Muito ao contrário, ele é binário, ou seja, assim ou assado, bom ou mal, certo ou errado, com a transição entre estados ocorrendo sem a naturalidade que o personagem pede. Novamente, vejo, aqui, culpa exclusiva de Knight que não só criou Duke como em um passe de mágica na sexta temporada, como, no filme, tira todo o espaço que Keoghan poderia ter para construir algo mais convincente.

Peaky Blinders: O Homem Imortal demorou quatro anos para chegar e, quando chegou, não elevou a temporada final de Peaky Blinders a mais do que ela foi e também não conseguiu ser o fim que Tommy Shelby realmente merecia. No lugar da sutileza, tivemos uma sucessão de obviedades. No lugar de psicologia complexa, tivemos psicologia de botequim. No lugar de misticismo orgânico, tivemos conveniências. Pelo menos tivemos isso tudo em uma embalagem bonita, vistosa, elegante, com Cillian Murphy vivendo seu inesquecível Tommy Shelby ao novamente vestir seu sobretudo preto com forro vinho e usar sua boina, com direito até mesmo à entrada triunfal em um cavalo ao som de Red Right Hand, de Nick Cave. Tomara que, agora, Steven Knight deixe Peaky Blinders se aposentar também.

Peaky Blinders: O Homem Imortal (Peaky Blinders: The Immortal Man – Reino Unido, 20 de março de 2026)
Direção: Tom Harper
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Cillian Murphy, Barry Keoghan, Rebecca Ferguson, Tim Roth, Stephen Graham, Sophie Rundle, Ned Dennehy, Packy Lee, Ian Peck, Jay Lycurgo
Duração: 112 min.



[Fonte Original]

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