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segunda-feira, março 23, 2026

Crítica | Gotas Divinas (mangá) – Vols. 1 e 2 – Plano Crítico

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Senti-me como Alice caindo pelo buraco que leva ao País das Maravilhas ao me deparar, em 2023,  com a primeira temporada de Gotas Divinas, série live-action do Apple TV. Apesar de não beber desde os 18 ou 19 anos, convivi e convivo com amigos que adoram vinho, os colecionam, guardam rótulos (que passaram a ser cadastrados em aplicativos quando eles foram lançados) e rolhas, usam decantadores elaborados, têm adegas sofisticadas, viajam para regiões vinícolas pelo mundo e discutem acaloradamente sobre as características de cada garrafa que bebem, inclusive e especialmente os aromas e sabores que eles detectam e que eu passo longe de sequer começar a entender como são identificados. Isso atiçou minha curiosidade pela referida série, mas, quando comecei a assistir, descobri que ela era baseada em um mangá. Parei de conferir imediatamente e fui atrás da obra que, porém, até onde pesquisei, não foi publicada ainda por aqui, sendo somente disponível nos EUA digitalmente via Comixology e ofertada como parte do pacote “Unlimited” que assino. Decidi, então, que leria o mangá antes de ver a série, mas não avancei naquele ano.

Corta para 2025 e eu finalmente renovei meu interesse pelo material e pesquisei mais, descobrindo, para minha surpresa e estupefação, que Adashi Agi, nom de plume dos irmãos Yuko e Shin Kibayashi, escreveu nada menos do que 44 volumes da história entre 2004 e 2014, com mais 26 do spin-off/continuação Gotas Divinas: Mariage entre 2015 e 2020 e dois de Gotas Divinas: Deuxième, entre 2023 e 2024. Sei que não é incomum que mangakás dediquem-se por anos (décadas às vezes) a uma mesma obra ou premissa desdobrada em mais de uma obra, mas eu sempre fico espantado com essa capacidade e mais ainda quando o tema é tão especifico quanto enologia, algo que relativamente pouca gente conhece de verdade e/ou tem acesso, diante do investimento necessário. Mas o buraco de Alice vai além, pois não só Gotas Divinas tornou-se uma série de alto gabarito pela Apple TV, como o mangá já havia sido adaptado como série live-action no Japão em 2009, com nove episódios e apenas uma temporada e que, recentemente, sai informação de que o material ganharia uma nova adaptação, desta vez em anime serializado a partir de abril de 2026. É um verdadeiro império vinícola em quadrinhos que, confesso, mais me afastou da tentativa de ler o material do que qualquer outra coisa, pois poucos assuntos me interessam o suficiente para ler tantas páginas em quadrinhos assim (talvez o único seja Musashi Miyamoto, com o infindável mangá Vagabond, de Takehiko Inoue, sendo meu Santo Graal, ainda que, ironicamente, o mangaká tenha parado de escrevê-lo para dedicar-se a Slam Dunk, outro mangá de tema específico como Gotas Divinas, ainda que menos nichado, mas igualmente enorme)

No entanto, usei meu resquício de curiosidade para enfrentar dois volumes de Gotas Divinas antes de me debruçar sobre a série e tenho que confessar minha admiração pela dupla que se autodenomina Adashi Agi. Não quero com isso de forma alguma dizer que achei o que li é uma obra-prima ou mesmo algo fora desse mundo, mas é impressionante notar como os autores conseguiram transformar um tema árido e distante da realidade de quase todo mundo – chamo meus amigos enólogos de enochatos na frente deles – em algo interessante, compulsivamente legível e, até onde pude perceber diante de meus parcos conhecimentos obtidos por osmose, “vinicolamente corretos”. A premissa faz do mundo dos vinhos um jogo, uma competição entre dois jovens adultos que precisam descobrir e descrever os 13 vinhos que compõem a lista dos Doze Apóstolos mais o “supremo” Gotas Divinas do crítico de vinho recém-falecido Yutaka Kanzaki (o equivalente ficcional e japonês do famoso americano Robert Parker). Quem ganhar, leva toda a coleção de vinhos do crítico, avaliada em milhões de dólares.

O que torna a premissa ainda mais interessante é que os competidores são, de um lado, Shizuku Kanzaki, que conhece muito sobre vinho, só que não bebe e que trabalha em um fabricante de cerveja e que é o filho biológico do crítico, e, de outro, o renomado jovem crítico de vinho Issei Tomine que Yutaka adotara não só como pupilo, mas também como filho. Cria-se uma disputa de certa forma até doentia – por parte do pai por fazer algo assim entre irmãos, mesmo que não de sangue – e que coloca em oposição o puro dom de Shizuku e a pura técnica de Issei, com abordagens completamente diferentes sobre o mesmo assunto. Grande parte do volume inicial é dedicado a Shizuku, já que ele é o herdeiro em tese direto que se distanciou do pai e que é um connoisseur que não bebe, algo no mínimo estranho, mas que funciona para levar o leitor a uma jornada do básico sobre vinhos, algo que começa no show que o jovem dá ao decantar um vinho valioso em um restaurante e que continua por meio de explicações detalhadas sobre uvas, terroir, fabricantes e assim por diante. Shizuku é também a escolha ideal para um começo de história, pois ele é um personagem mais relacionável, mais… humanos, por assim dizer, com Issei sendo mais robótico, mais introspectivo, mas não menos interessante na medida em que ele é também abordado com discrição no primeiro volume e, depois, com mais vigor no segundo.

Naturalmente, porém, mesmo considerando que os dois volumes contam com mais de 400 páginas no total, o que é exposto neles é muito claramente apenas a ponta do iceberg narrativo. Mesmo que Adashi Agi não tenha talvez imaginado o tamanho do sucesso que o mangá teria, fica evidente que havia, já de início um planejamento minucioso para caminhar lenta, mas ritmadamente pela identificação das 13 cobiçadas garrafas de vinho, cada um alcançada por meio de um fascinante labirinto de pistas. Além disso, os personagens que gravitam ao redor dos dois protagonistas surgem muito lentamente e, aqui nesse começo, apenas na medida em que o roteiro exige para que obstáculos sejam transpostos especialmente por Shizuku, que tem menos acesso a vinhos de qualidade e, claro, tem as limitações naturais de seu “bloqueio” enólogo. Mas, como disse, é uma leitura boa mesmo para quem pouco conhece do assunto, com o didatismo existente – e inevitável – sendo bem dosado ao longo das páginas.

A arte de Shu Okimoto é, para todos os efeitos, funcional. Não é nada hipnotizante como volta e meio acontece com mangakás, mas também não decepciona. É até natural que, pelo menos nesse começo, o artista tenha procurado navegar por águas mais seguras, pois a temática não é exatamente algo que leve a momentos de ação ou a sequências incríveis. Trata-se de um drama familiar que gira ao redor do universo vinícola e não se pode esperar, notadamente no começo, grandes arroubos visuais mesmo que, aqui e ali, Okimoto tenha seus momentos que transformam situações prosaicas em algo vistoso e diferente.

Não tenho intenção de continuar mergulhando nesse buraco sem fundo de Gotas Divinas, pelo menos não no momento, ,mas a experiência desses dois volumes foi inesquecível para me dar um vislumbre do que mangakás são capazes de fazer com assuntos herméticos e muito específicos como esse. Não consigo imaginar o que acontece nos 42 volumes seguintes e nos 28 a mais dos dois spin-offs, mas tenho certeza de que os irmãos Kibayashi criaram um universo fascinante – e ensandecido também – sobre um tema que lhes é querido.

Gotas Divinas/The Drops of God (神の雫 / Kami no Shizuku – Japão, 2004/2005)
Contendo: capítulos 1 a 8 (vol. 1) e 9 a 18 (vol. 2)
Roteiro: Adashi Agi (Yuko Kibayashi, Shin Kibayashi)
Arte: Shu Okimoto
Editora original: Kodansha (Japão), Comixology (EUA)
Data original de publicação: primeiro capítulo publicado em 18 de novembro de 2004; publicação nos EUA em 14 de outubro de 2019
Páginas: 422 (211 cada volume)



[Fonte Original]

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