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quinta-feira, março 12, 2026

Crítica | Hoje É um Belo Dia para Matar: A Sagração da Primavera – Plano Crítico

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Beneath the Trees Where Nobody Sees ou, como foi publicado por a aqui, Hoje É um Belo Dia para Matar, foi um surpreendente sucesso editorial da IDW entre 2023 e 2024 e, apesar de a minissérie em seis edições ser autocontida, uma continuação era inevitável como tudo o que é bem sucedido financeiramente no mundo do entretenimento. Patrick Horvath, então, retornou para sua obra com A Sagração da Primavera (Rite of Spring), publicada entre meados de 2025 e começo de 2026, que continua e aprofunda a história de Samantha “Sam” Strong, a ursa parda que é exemplar moradora da bucólica cidadezinha de Bosque do Riacho, mas que esconde um  segredo terrível: ela é, também, uma serial killer que fatia suas vítimas – sempre escolhidas da cidade grande mais próxima, nunca de onde ela mora – e as enterra em pedaços, dentro de latas de tinta, em lugares diferentes de uma floresta.

Quando a natureza sombria de Sam nos é revelada na primeira minissérie, isso se dá por meio do chocante sequestro e assassinato de um jovem pato branco que ela atrai fingindo que seu carro está quebrado. É uma imagem forte que, nos traços “de livro infantil” de Horvath, se torna ainda mais potente e inacreditável, como um conto de fadas de outrora, em que atos de violência e personalidades torpe reinavam antes de eles serem sanitizados ao longo dos séculos. É o assassinato desse pato branco  que serve de gatilho narrativo para a segunda minissérie, que se passa oito anos depois, com a apresentação de Monica, obsessiva irmã da vítima que, mesmo depois de todo esse tempo, continua metodicamente visitando todas as delegacias da cidade onde seu irmão morava, imprimindo panfletos de “desaparecido” e mergulhando em fóruns da ainda incipiente internet (a primeira história se passa em 1986 e a segunda em 1994) para pedir ajuda e ter um fechamento sobre o que ocorreu, já que ela não tem mais esperanças de encontrá-lo vivo. É em um desses fóruns que ela recebe uma mensagem misteriosa dizendo que ela talvez encontre respostas em Bosque do Riacho e ela imediatamente parte para lá, somente para o leitor descobrir, então, que quem mandou a mensagem foi a própria Sam.

No melhor estilo de procurar novos desafios, mesmo considerando todo o crescimento econômico ao redor de sua cidadezinha que torna cada vez mais difícil ela encontrar, matar e enterrar suas vítimas, Sam atrai Monica para onde mora e começa a manipulá-la para ver até que ponto ela vai para conseguir as respostas que quer, o que oferece uma visão ainda mais pessimista da humanidade (ou bicharada, não sei), já que a irmã desesperada mostra-se talvez tão implacável quanto a própria Sam. O jogo de gato e rato – ou melhor, de ursa e pata – é muito bem conduzido, com retornos ao passado para aprendermos mais sobre a jovem Sam que ainda morava com seus pais e também com um estudo das tristes consequências dos eventos ocorridos na minissérie original, especialmente no que diz respeito à família de Nigel, ele próprio um serial killer que inicialmente idolatra e imita Sam, mas que Sam consegue imputar todos os crimes cometidos também por ela, fazendo dele o grande vilão para consumo do público em geral.

Há um pouco de “corrupção dos inocentes” aqui, com Sam usando sua lábia e sua pura curiosidade mórbida para dirigir Monica a também cometer atos terríveis e é nisso que a história realmente consegue brilhar. Quando, porém Horvath aborda histórias paralelas a essa, notadamente a da tartaruga que trabalha em casa montando microprocessadores em relógios e que visita uma casa de idosos, o roteiro se perde um pouco. É evidente que o autor tenta, com isso, afirmar que nem tudo está perdido e que as sombras que pairam sobre Sam e Monica não são a regra, mas sim a exceção, mas tenho para mim que essa linha narrativa acaba não levando a lugar algum, incapaz de ter não só um fim em si mesma, como qualquer tipo de conexão maior com a trama principal que não seja a antítese filosófica que representa e que não precisava existir por ser óbvia e já estar ilustrada pelos demais personagens vivendo seu cotidiano em Bosque do Riacho.

Também não gosto da forma como tudo é resolvido, sendo sincero, pois a história ganha relevos mais bombásticos que não combinam com a pegada minimalista da vida de Sam tentando conciliar sua compulsão com sua fachada de dona de loja de ferragens. Há um exagero na linha de Assassinos por Natureza, que inclusive dá o tom do epílogo, que não precisava estar presente, assim como não era necessário deixar o final claramente aberto para uma continuação, um cacoete cansativo que serve apenas para anunciar aos quatro ventos aos leitores que haverá mais de Sam, algo que inexiste na primeira minissérie e, vejam só, mesmo assim uma continuação foi facilmente possível. Horvath, mesmo que a novidade de sua arte “de bichinhos fofos de livros ilustrados para criança” com violência explicita à la Dexter, ainda não tenha se exaurido, arrisca caminhar por caminhos já muito viajados por aí ao seu curvar às demandas da indústria de quadrinhos. Tomara que ele não se perca e acabe se tornando apenas mais um quadrinista monotemático dentre tantos.

Hoje É um Belo Dia para Matar: A Sagração da Primavera (Beneath the Trees Where Nobody Sees: Rite of Spring – EUA, 2025/26)
Roteiro: Patrick Horvath
Arte: Patrick Horvath
Letras: Hassan Otsmane-Elhaou
Editoria: Jake Williams, Maggie Howell
Editora: IDW Publishing
Datas originais de publicação: 09 de julho, 27 de agosto, 24 de setembro e 12 de novembro de 2025; 14 de janeiro e 04 de março de 2026
Páginas: 144



[Fonte Original]

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