A escalada da crise no Oriente Médio alterou drasticamente as perspectivas para bancos centrais em todo o mundo, ao criar um forte choque de oferta que coloca as autoridades monetárias diante de um dilema entre sustentar o crescimento econômico e combater a inflação.
Nos mercados emergentes da Ásia, cortar juros tornou-se uma aposta ainda mais arriscada. Além da pressão inflacionária causada pela alta dos combustíveis, há o risco de fuga de capitais diante da deterioração dos termos de troca com os Estados Unidos.
O banco central da Índia, por exemplo, tende a priorizar o apoio ao crescimento e manter os juros baixos, disseram fontes à Reuters. No entanto, a corrida global para o dólar — considerado um porto seguro e fortalecida pela guerra entre Estados Unidos e Irã — pode obrigar a autoridade monetária a intensificar intervenções para conter a desvalorização da moeda.
Na Tailândia e nas Filipinas, autoridades monetárias podem ser forçadas a abandonar a postura expansionista mesmo com o impacto negativo da alta dos combustíveis, afirmou Toru Nishihama, economista-chefe para mercados emergentes do Dai-ichi Life Research Institute.
“Muitos bancos centrais enfrentarão decisões difíceis, sob pressão tanto dos mercados quanto dos governos. Sem um fim claro para o conflito, o risco de estagflação aumenta a cada dia”, disse.
Os mercados acionários recuaram e o dólar se fortaleceu na Ásia nesta segunda-feira (9), enquanto o petróleo ultrapassou US$ 110 por barril, alimentando temores de uma guerra prolongada no Oriente Médio que possa afetar o fornecimento global de energia e pressionar ainda mais a inflação.
O cenário é particularmente delicado para economias com forte base manufatureira, como Coreia do Sul e Japão, que dependem de comércio global estável e de matérias-primas a custos baixos — fatores agora ameaçados pela crise regional.
O banco central sul-coreano, que manteve os juros estáveis em fevereiro, pode adotar postura mais dura caso a inflação permaneça acima da meta, afirmou Kim Jin-wook, economista do Citigroup. Ainda assim, ele considera improvável que o Banco da Coreia eleve os juros apenas em resposta à alta do petróleo, já que medidas do governo para conter preços de combustíveis tendem a limitar o impacto na inflação.
Entre economias desenvolvidas, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) também enfrenta o desafio de equilibrar crescimento, inflação e pressão política.
No Japão, o dilema é ainda maior. Caso o petróleo permaneça em torno de US$110 por barril por um ano, o crescimento pode cair cerca de 0,39 ponto percentual, segundo o Nomura Research Institute — um impacto significativo para uma economia com potencial de expansão estimado entre 0,5% e 1%.
Diferentemente do passado, porém, o Banco do Japão tem menos espaço para ignorar pressões inflacionárias, já que a inflação supera a meta de 2% há quase quatro anos.
Na Austrália, aumentos persistentes no preço do petróleo podem desancorar expectativas de inflação, disse Jonathan Kearns, economista-chefe da Challenger e ex-integrante do Reserve Bank of Australia. Nesse caso, o banco central poderia manter juros elevados por mais tempo.
Já na Nova Zelândia, onde a economia ainda tenta se recuperar do impacto de aumentos anteriores de juros, bancos centrais podem ter de tolerar inflação mais alta no curto prazo para evitar um aperto monetário adicional, afirmou Jarrod Kerr, economista-chefe do Kiwibank.
A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, alertou que um aumento de 10% no preço do petróleo, se persistir durante a maior parte do ano, pode elevar a inflação global em cerca de 40 pontos-base.
“Estamos vendo a resiliência da economia global ser testada novamente por um novo conflito no Oriente Médio”, disse Georgieva em um simpósio em Tóquio. “Meu conselho aos formuladores de políticas é: pensem no impensável e preparem-se para ele.”