A guerra do Oriente Médio levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo, e colocou a segurança energética no centro das discussões globais. A medida expôs ainda os desafios para que o mundo avance rumo a uma economia de baixo carbono. Esses temas foram debatidos hoje por especialistas no evento “Transição Energética” – a guerra no Irã pode impulsionar a transição energética global?”, promovido pelo Valor e pelo jornal O Globo, com patrocínio da Vale.
No painel, os especialistas disseram que o cenário atual combina riscos de abastecimento, volatilidade de preços e incertezas geopolíticas, com impactos diretos sobre decisões de investimento e estratégias industriais.
Para David Zylbersztajn, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o momento é marcado mais pela preocupação com suprimento do que pelo nível de preços. “O mundo vive hoje uma ruptura de abastecimento. O aumento de preços é consequência desse quadro”, afirmou. Segundo ele, a invasão da Rússia à Ucrânia, em 2022, já havia deslocado o foco do debate ambiental para a segurança energética, movimento que se intensifica agora com o conflito no Oriente Médio.
Apesar do avanço das energias renováveis nos últimos anos, os combustíveis fósseis ainda respondem por cerca de 80% da matriz energética global, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). Na avaliação dos especialistas, a transição energética tende a ocorrer de forma gradual, com convivência entre diferentes fontes por um período prolongado.
Nesse contexto, a volatilidade do petróleo surge como um fator central para os negócios. Para Fernanda Delgado, CEO da Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV) e professora da FGV Energia, mais do que o nível de preços, é a instabilidade que pressiona as empresas. “O problema não é ser caro, é ser volátil. Essa volatilidade traz uma incerteza incalculável do ponto de vista dos negócios”, afirmou. Segundo ela, oscilações acentuadas dificultam o planejamento e incentivam a busca por alternativas energéticas mais previsíveis.
A executiva destacou que esse cenário pode acelerar a reorganização de cadeias produtivas, abrindo espaço para o desenvolvimento de novos setores industriais. Hoje, o Brasil importa cerca de 90% dos fertilizantes que consome, mas poderia avançar na produção doméstica com base em hidrogênio de baixo carbono, reduzindo a dependência externa.
Na avaliação de Rosana Santos, diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética, a transição energética deve ser encarada como uma oportunidade econômica: “A transição energética pode ser uma oportunidade histórica de reindustrialização do Brasil”, afirmou. Segundo ela, o país pode ir além da exportação de commodities e passar a fornecer produtos e soluções de baixo carbono ao mercado internacional.
O diferencial brasileiro, segundo os especialistas, está na combinação de recursos naturais e experiência em energias renováveis. Cerca de 90% da geração de eletricidade no país é de fontes limpas, o que abre espaço para o desenvolvimento de cadeias industriais mais competitivas em termos de emissões.
Ao mesmo tempo, o Brasil deve ampliar a produção de petróleo e gás a curto prazo, reforçando sua relevância na balança comercial. Para Zylbersztajn, a convivência entre fontes fósseis e renováveis é inevitável. “Não é uma substituição imediata. O que vemos hoje é uma superposição de fontes”, disse.
Os especialistas avaliam que o cenário atual traz efeitos mistos. Por um lado, a alta do petróleo aumenta a competitividade das energias renováveis. Por outro, pode levar países a recorrerem a alternativas mais baratas a curto prazo, como o carvão, além de pressionar cadeias produtivas dependentes de insumos energéticos.
Nesse ambiente, a definição de políticas públicas e o direcionamento de investimentos serão decisivos para o posicionamento do Brasil. Para os participantes, a forma como o país utilizará a renda gerada pelo petróleo e organizará sua estratégia industrial será determinante para aproveitar as oportunidades da economia de baixo carbono.
A live é parte do projeto Transição Energética que os dois jornais irão desenvolver em suas plataformas ao longo do ano. O objetivo é traduzir os impactos concretos da transição energética no cotidiano da sociedade e dos negócios, abordando temas como custos da energia, mobilidade, inovação, desenvolvimento regional e competitividade da indústria, entre outros. Uma cobertura contínua irá mostrar o potencial do Brasil na transição energética, suas vantagens competitivas e as oportunidades econômicas, sociais e ambientais associadas a esse processo.