O que antes era símbolo de reputação passou a ser motor regulatório. Em 2026, empresas de médio e grande porte em todo o mundo enfrentam um novo tipo de gargalo operacional: o excesso de exigências ESG – muitas vezes contraditórias, não padronizadas e fora de contexto local. Segundo o ESG News, fornecedores industriais globais estão sendo sufocados por solicitações manuais de dados ambientais e sociais, sem clareza jurídica e com alto custo operacional para cumprimento.
A pressão sobre cadeias de fornecimento brasileiras cresce justamente no momento em que o país registra superávit recorde na balança comercial (US$ 21,5 bilhões na 2ª semana de março, segundo o MDIC) e vê crescer a demanda internacional por alimentos, commodities e produtos com rastreabilidade ambiental. Mas há um paradoxo: ao mesmo tempo em que o Brasil exporta mais, os entraves logísticos e regulatórios se multiplicam. As taxas de contêineres e frete aéreo, por exemplo, dispararam nas últimas semanas, como mostrou o Seatrade Maritime, impulsionadas por conflitos geopolíticos e desorganização das rotas de escoamento.
“Hoje, empresas brasileiras estão recebendo exigências ESG de até 15 clientes internacionais distintos, com formulários diferentes para o mesmo indicador. Isso não apenas gera duplicidade documental, como também cria riscos jurídicos reais por inconsistência nas respostas”, explica Wilton Magário Junior, estrategista de expansão de negócios transfronteiriços Brasil–EUA. “Não se trata apenas de reputação ESG, mas de exposição contratual, tributária e até criminal, se houver alegações de greenwashing involuntário”.
A combinação entre crescimento das exportações e aumento das exigências ESG impõe uma nova camada de complexidade às cadeias produtivas. A multiplicidade de solicitações de dados, muitas vezes não padronizadas, tem elevado custos operacionais e exigido maior maturidade em governança corporativa, explica o especialista. Esse cenário é reforçado por tendências globais descritas em análises como a da Exame sobre as principais transformações ESG para 2026, que indicam a transição da sustentabilidade de agenda reputacional para fator diretamente ligado à geração de valor, acesso a capital e mitigação de riscos.
O advogado Magário fala com propriedade. À frente de iniciativas que recuperaram mais de R$ 250 milhões em créditos fiscais e lideraram acordos judiciais com impacto bilionário, ele também coordenou a reestruturação jurídica de operações agrícolas e industriais com foco em sustentabilidade e governança. Em um dos casos, conseguiu anular 75% do passivo fiscal de uma agroexportadora e viabilizar um aumento de 25% nas exportações aos EUA, atuando com planejamento jurídico e ambiental integrado.
O problema das exigências ESG despadronizadas é amplificado por novas regulamentações globais. Conforme mostrou a Bloomberg Green Finance Brief e o Regulation Tomorrow, autoridades reguladoras da Ásia e da Europa já estão ligando falhas de reporte ESG a crimes financeiros, como lavagem de dinheiro. Isso amplia o papel dos departamentos jurídicos na revisão de contratos e nos protocolos de Know Your Customer (KYC) e due diligence. “O ESG deixou de ser voluntário. Passou a ser auditável, imputável e, em certos casos, penalizável. Empresas precisam estruturar seus relatórios com o mesmo rigor que demonstram em obrigações fiscais ou societárias. É uma mudança de paradigma que exige protagonismo jurídico,” afirma Magário.
Para o especialista, a saída está na inteligência regulatória preventiva. “As empresas que vão prosperar em 2026 são aquelas que conseguem traduzir compromissos ESG em cláusulas jurídicas operacionais, com métricas auditáveis e defesas prontas para eventuais litígios”, afirma. Ele também recomenda que companhias brasileiras que exportam produtos sujeitos a rastreabilidade ambiental (como baterias, madeira ou grãos) passem a integrar o compliance ESG aos seus sistemas fiscais e aduaneiros, inclusive usando câmaras de arbitragem e contratos padrão com cláusulas de responsabilidade solidária.
A ascensão do chamado ESG técnico está mudando o perfil do profissional envolvido nessas discussões. Segundo Magário, o advogado hoje não apenas interpreta leis, mas ajuda a modelar sistemas de gestão de riscos socioambientais com base em direito comparado, normas internacionais (como ISSB e ISO 14001) e regulação bilateral Brasil–EUA. Nesse novo mundo, o Excel jurídico vale mais do que o PowerPoint institucional. “O papel do jurídico é antecipar, não apagar incêndio. Um bom contrato ESG hoje começa com engenharia tributária limpa, cláusulas de rastreabilidade e lógica de governança que resista a qualquer auditoria, seja ela ambiental, financeira ou reputacional,” conclui Magário.