Após o tombo da sessão anterior, provocado pelas reduções de risco nos portfólios de investidores ao redor do mundo, o Ibovespa passou um pregão de forte correção nesta quarta-feira. Antes de recuperar os 185 mil pontos, porém, o índice oscilou bastante. Em virtude do alívio no prêmio de risco global na sessão de hoje, a principal referência acionária local iniciou o dia em alta de mais de 1,7%, mas chegou a devolver boa parte dos ganhos, com a virada negativa de algumas blue chips e com abertura das bolsas americanas durante a manhã.
Perto do fim do pregão, no entanto, o avanço mais forte de blue chips de bancos deu fôlego para que o Ibovespa voltasse a engatar uma alta mais expressiva. No fim dos negócios, o índice obteve uma valorização de 1,24%, aos 185.366 pontos, após variar entre os 183.110 pontos e os 186.306 pontos durante o pregão.
Antes de fechar no campo positivo, blue chips de bancos também oscilaram bastante ao longo do dia. Entre os destaques ficaram as units do BTG Pactual, que avançaram 4,14%. O fato de o papel ter liderado as perdas da véspera e ter ficado para trás em relação a outros bancos recentemente ajudou a amplificar o movimento de recuperação, segundo analistas.
Profissionais do mercado também afirmaram que foi positiva a decisão do Banco Central de permitir que as instituições financeiras deduzam o valor das contribuições a serem antecipadas ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) dos recolhimentos compulsórios de depósitos à vista e a prazo.
“Bem melhor do que exigir desencaixe de liquidez dos bancos, assim as instituições financeiras não abrem mão da margem financeira”, avaliou um operador.
Já blue chips de commodities fecharam no negativo: as PN da Petrobras cederam 1,10%, enquanto as ON da Vale recuaram 0,46%. Depois de abrir o pregão em alta, os papéis da petroleira mudaram de direção e permaneceram assim até o fim do dia, em um movimento que parece ter sido de realização após o avanço expressivo na segunda-feira, de acordo com analistas. Amanhã, a companhia também apresenta os números do quarto trimestre de 2025.
Embora o conflito no Oriente Médio tenha elevado bastante os preços de petróleo e aumentado as incertezas, o movimento de diversificação para fora de ativos americanos não sofreu mudanças bruscas, o que poderá beneficiar países como o Brasil, avalia o estrategista e economista-chefe da AZ Quest, André Muller.
“O pano de fundo não se alterou dramaticamente. Tem um problema na oferta de curto prazo do petróleo. Isso pesa sobre a inflação e moedas em um ambiente em que o posicionamento dos mercados estava indo numa direção oposta [apostando na alta da bolsa e recuo do dólar]. Mas o pano de fundo ainda não mudou”, observa o executivo.
Muller avalia que, se o petróleo mantiver o nível atual ou ficar um pouco abaixo, o mais provável é que investidores globais permaneçam diversificando para fora dos Estados Unidos, comprando bolsa e moedas de outros países, o que poderia beneficiar o Brasil. “O preço de petróleo no nível atual não é alto o suficiente para causar um choque expressivo nas decisões de investimento”, resume.
Após o forte ajuste feito ontem nas carteiras para reduzir o risco, Muller diz que é difícil saber se as mudanças nos portfólios já estão completas. “Agora, tem uma necessidade menor de se ajustar as posições, embora ninguém tenha muita clareza sobre a atuação do Irã no Estreito de Ormuz e de que como isso vai afetar o petróleo.”
Olhando para os preços atuais do óleo bruto e para a curva da commodity, o economista defende que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central parece ter condição de realizar um ciclo de cortes de 2,50 ponto percentual num primeiro momento, o que levaria a Selic para 12,5%, e que envolveria reduções de 0,50 ponto por reunião, inclusive no encontro deste mês.
“Considerando uma Selic parada de 12%, mesmo com uma hipótese de petróleo mais conservadora, com os preços da commodity ficando entre 15% e 20% mais altos do que os que o Copom usou na reunião passada, a projeção para o IPCA convergiria para 3,1%”, diz. “Mesmo sendo conservador nos níveis de petróleo, o patamar de juro é tão alto que existe espaço para a calibragem dos juros para baixo e para que o ritmo seja de 50 bps [0,50 ponto]”, completa.
Com o alívio do prêmio de risco global, os juros futuros registraram queda firme nesta quarta-feira. O movimento favoreceu ações cíclicas domésticas, como Magazine Luiza, Natura e Vamos.
Hoje, o volume financeiro negociado pelo Ibovespa foi de R$ 19,6 bilhões e de R$ 26,7 bilhões na B3. O movimento local ocorreu em linha com o visto em NY. Por lá, no fim, o Nasdaq subiu 1,29%; o S&P 500 avançou 0,78%; e o Dow Jones teve alta de 0,49%.