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terça-feira, março 10, 2026

Incertezas globais e internas desafiam a economia

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Assim como aconteceu com o choque das tarifas em 2025, o ano já começou com uma ameaça para a economia global, com o conflito no Oriente Médio, o que torna o cenário mais incerto. Os ataques ampliaram o temor de uma crise de abastecimento de petróleo. O barril do tipo brent chegou a superar US$ 110 no domingo, caindo abaixo de US$ 100 ontem, em dias de forte volatilidade das cotações. A essas indefinições no quadro externo, soma-se o principal problema estrutural do país – a fragilidade das contas públicas, que nubla as perspectivas da economia brasileira num horizonte mais longo. Essa questão estrutural mostra o país tem um encontro marcado com o ajuste fiscal em 2027, o que é fundamental para uma redução sustentada dos juros, como apontaram economistas que participaram do evento “Rumos 2026”, promovido pelo Valor em 2 de março. “Não fazer o ajuste fiscal custa caro e vai custar crescentemente mais, dado o número da dívida pública”, disse o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato. A redução das incertezas fiscais ganha ainda mais importância num momento de volatilidade externa.

Esse ambiente internacional complexo tende a afetar as previsões para a economia brasileira. Antes da eclosão da guerra, o Banco Central (BC) havia sinalizado o começo do ciclo do corte de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na reunião deste mês. Agora, há dúvidas sobre a duração e a intensidade do processo de redução da Selic, havendo quem acredite que o BC poderá adiar a primeira baixa.

“A gente vai acabar sofrendo alguma pressão inflacionária de curto prazo, que piora os índices anuais e pode piorar as expectativas também”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. Ele aponta que a defasagem nos preços da Petrobras já está enorme, e é muito difícil a estatal não repassar alguma parte da conta para o consumidor. Segundo o economista, a inflação ainda está longe da meta, de 3%.

A reviravolta com a crise no cenário externo pode, por outro lado, beneficiar em alguma medida o Brasil, favorecendo a balança comercial. Mas a ideia de cautela ganha força. Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro, ressalta que uma surpresa com o novo cenário de risco foi o comportamento estável da taxa de câmbio. “Talvez a tese dominante ainda seja que o aumento de preços do petróleo será temporário. Vamos ter que esperar o Banco Central, que ainda deve começar o ciclo de corte de juros.”

Antes do início do conflito, as expectativas eram mais benéficas, com números positivos no mercado de trabalho, em que o desemprego está baixo e a renda segue em alta. A bolsa vinha batendo recordes, com o ingresso de recursos de investidores internacionais buscando diversificar seus portfólios, tendo o Brasil como um dos destinos preferidos.

O PIB, por sua vez, cresce desde 2021, tendo avançado 2,3% em 2025, embora a economia tenha perdido fôlego no segundo semestre. Houve uma “desaceleração muito forte no final do ano passado”, diz Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais da FGV Ibre. O tarifaço do governo Trump atrapalhou as exportações, mas o país foi eficiente para mudar de mercados, diz ele. Para Mansueto, o Brasil “teve sorte com a confusão dos EUA. Ela foi ruim para o mundo, mas para o mercado emergente foi positiva. Teve essa desvalorização do dólar, que contribuiu muito com a queda da inflação aqui e nos outros países emergentes”.

Para um crescimento mais robusto e sustentado, porém, é preciso enfrentar o desequilíbrio nas contas públicas, que será determinante para o Brasil garantir a continuidade da expansão em 2027. “É o grande calcanhar de Aquiles”, alerta Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI). “O Brasil tem uma trajetória ascendente de dívida bruta em todo o setor público. O filme é de deterioração. Para estancar o crescimento da dívida estimamos que é preciso produzir um superávit primário de mais de 2% do PIB”, diz ele, referindo-se ao resultado que exclui os gastos com juros.

Segundo Pestana, o fato de o governo mirar não o centro da meta fiscal, mas o limite inferior da margem de tolerância, fragilizou o arcabouço fiscal. “Vários analistas e consultores que influenciam decisões de investimento já não prestam atenção na meta. Veem a curva da dívida, a relação dívida/PIB.” A dívida está em uma trajetória insustentável, concorda Mansueto. “Vamos terminar este governo com crescimento médio do PIB de 2,5%, 2,6%. E a dívida vai crescer pelo menos 10 pontos percentuais do PIB. Vai terminar, calculamos, em 82% do PIB.”

O cenário de incerteza afeta as expectativas. Para Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, pode haver uma melhoria ilusória das contas, pois aumentará a receita com royalties. Vai ajudar a fechar as contas primárias de 2026. Por outro lado, haverá impacto na inflação no exterior, o que pode levar o Fed a desacelerar a queda de juros. “O ganho de receita com rendas de petróleo será mais que compensado por despesas mais altas com juros.” Pode haver, também, desvalorização do real, com impacto sobre a inflação. “Em cenário extremo, de petróleo acima de US$ 100 por muito tempo, o estrago é grande.”

Para resolver o problema das contas públicas, será necessário tratar de temas controversos como a expansão das despesas obrigatórias, que limitam o espaço para investimento. O economista Bruno Carazza, colunista do Valor e professor da Fundação Dom Cabral, lembra que os gastos previdenciários e os benefícios sociais, além das despesas com educação e saúde, crescem de modo acelerado, sufocando as chamadas despesas discricionárias, como o custeio da máquina e o investimento.

Outro problema é o volume elevado de emendas parlamentares. “Estão crescendo, e a força de contenção hoje está muito mais colocada no Supremo, mais especificamente na atuação do ministro Flávio Dino, que é o relator de uma ação nesse sentido. A gente ainda não conseguiu vislumbrar uma forma de contornar esses problemas. Vai ter algum momento no próximo governo que, independentemente de quem ganhar a eleição, vai ter que lidar com esses temas indigestos”, diz Carazza.

[Fonte Original]

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