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sexta-feira, março 27, 2026

Minas busca ampliar investimentos privados e manter peso da indústria

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Terceiro maior Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, grande mercado consumidor, localização estratégica e economia diversificada – com esses atributos, Minas Gerais pretende atrair empreendimentos e mais recursos do setor privado. O Estado vem acenando com a melhoria de sua infraestrutura e com um processo de ajuste das contas públicas na tentativa de impulsionar novos negócios e o desenvolvimento.

A atração de investimentos para o setor industrial é uma das frentes de atenção, dada sua importância para o dinamismo da economia mineira. Bruno Carazza, professor associado da Fundação Dom Cabral (FDC) e colunista do Valor, observa que o peso da indústria em Minas é maior do que no restante do país (em torno de 30%, ante média nacional de 21%). Isso se deve à representatividade da mineração, da siderurgia e do setor automotivo na economia do Estado, que hoje responde por 8,9% do PIB nacional.

Rodrigo Tavares, presidente da Invest Minas (agência de promoção de investimento do Estado), considera que os segmentos mais promissores são os de energias renováveis, mineração, tecnologia da informação, empreendimentos imobiliários e produção de fertilizantes. “Cadeias produtivas ligadas à transição energética, como biocombustíveis, bioenergia e transportes, tendem também a apresentar boas oportunidades de investimento, além de minerais críticos”, afirma.

Em 2025, o Estado atraiu R$ 65,3 bilhões de investimentos privados, ante R$ 70,3 bilhões em 2024. No ano passado, foram anunciados 262 projetos de investimento em 134 municípios, com potencial de gerar 54,8 mil postos de trabalho diretos, de acordo com dados do governo estadual.

A geração solar vem despontando como uma das energias renováveis que mais atraem recursos. A Atlas Renewable Energy, por exemplo, já investiu R$ 10 bilhões em cinco complexos solares em Minas Gerais. Recentemente, obteve financiamento de R$ 1 bilhão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para construir 11 usinas fotovoltaicas em Arinos, no Complexo Solar Draco. Os empreendimentos somam 409 megawatts (MW) de potência instalada e 543 MW incorporados ao sistema.

Rodrigo Tavares, Invest Minas: “Cadeias produtivas ligadas à transição energética podem oferecer boas oportunidades” — Foto: Divulgação

“Minas Gerais segue sendo um Estado estratégico para investimentos em geração renovável, mas há ainda desafios relevantes relacionados à infraestrutura de transmissão e ao escoamento da energia produzida. Trata-se de um tema federal, que impacta diretamente a capacidade de integração de novos projetos ao sistema e a previsibilidade para a entrada em operação dos empreendimentos”, afirma o presidente da Atlas Renewable Energy no Brasil, Fabio Boroluzo.

O potencial do Estado para os minerais estratégicos e terras raras, fundamentais para a transição energética, é considerado grande — e essa já vem sendo uma nova frente de negócios. A australiana St. George, por exemplo, pretende destinar até US$ 350 milhões para operar o projeto de mineração de nióbio e terras raras em Araxá. A previsão é que o projeto entre em operação em 2028 para o nióbio e em 2029 para as terras raras.

Outras empresas já tradicionais na economia local também seguem investindo. É o caso da Vale, que pretende aplicar R$ 67 bilhões em Minas até 2030 para tornar processos produtivos mais seguros, inovadores e sustentáveis, priorizando a redução do uso de barragens, menor emissão de carbono e ampliação da mineração circular, com o apoio de novas tecnologias nos cinco complexos operacionais da empresa no Estado. “Temos avançado de forma consistente na redução do uso de barragens, com a adoção de tecnologias de filtragem e compactação do rejeito em pilhas. Ao eliminarmos a presença de água no material, os riscos são significativamente reduzidos. Monitoramos continuamente todas as estruturas, com uso intensivo de tecnologia, sensores, sistemas automatizados e acompanhamento por equipes técnicas especializadas”, afirma Rafael Bittar, vice-presidente técnico da mineradora.

Na siderurgia, a Usiminas anunciou a aplicação de R$ 3,5 bilhões nos próximos anos, boa parte concentrada na operação de Ipatinga. O valor engloba a construção de um novo gasômetro, dois projetos de modernização da coqueria e a implantação da planta de moagem e injeção de carvão pulverizado (PCI). “Nosso foco é aumentar a eficiência operacional, garantir maior estabilidade dos processos produtivos e preparar a companhia para um crescimento sustentável no longo prazo, mantendo a Usiminas competitiva em um ambiente global cada vez mais desafiador”, afirma Marcelo Chara, presidente da companhia.

A atração de investimentos, especialmente em setores mais tecnológicos, depende de muitos fatores, avalia João Gabriel Pio, economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Passa pela formação de mão de obra tecnicamente qualificada e alinhada às demandas da indústria moderna — com destaque para competências em ciência de dados, inteligência artificial, automação e engenharia avançada —, como também pela promoção de segurança jurídica e previsibilidade regulatória, com regras claras, estabilidade institucional e maior celeridade nos processos de licenciamento e autorização. “Depende ainda da oferta de infraestrutura adequada, tanto física quanto digital, garantindo energia confiável, logística eficiente e conectividade. Por fim, instrumentos de incentivo de natureza tributária, creditícia e voltados à inovação são relevantes, especialmente quando articulados com ambientes de inovação, fortalecendo ecossistemas e clusters produtivos”, afirma Pio.

Flávio Roscoe, presidente da FIEMG: "A gente vê um cenário mais conservador neste ano, fruto das dificuldades econômicas" — Foto: Divulgação
Flávio Roscoe, presidente da FIEMG: “A gente vê um cenário mais conservador neste ano, fruto das dificuldades econômicas” — Foto: Divulgação

Olhando a longo prazo, Carazza, da FDC, vê como desafio para o Estado agregar mais valor à produção. Um exemplo é o do café: embora Minas seja o maior exportador do Brasil, vende o grão verde. De forma semelhante ao que ocorre com o minério de ferro e outras commodities. Mesmo os projetos anunciados no último ano em terras raras têm como foco a exportação da matéria-prima em lugar de produtos de maior valor agregado, como baterias e componentes para semicondutores, aponta. “Tudo isso exige investimento em inovação. Mas tem também o desafio logístico. Há necessidade de expansão da malha ferroviária e renovação das rodovias.”

Tavares, da Invest Minas, cita os gargalos de infraestrutura de transporte e energética como fatores que restringem investimentos no setor produtivo, mas pondera que a questão está sendo tratada: “Os projetos de concessão e de parcerias público-privadas no setor de infraestrutura de transporte que o governo de Minas vem desenvolvendo, juntamente com os investimentos planejados e executados pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) na expansão e modernização de sua rede, são iniciativas que endereçam essa questão”. Ele também destaca como desafio a disponibilidade de mão de obra qualificada, especialmente em setores como tecnologia da informação e comunicação, e cita o programa Trilhas de Futuro (que oferta de forma gratuita cursos técnicos para egressos do ensino médio) como alternativa para ajudar a mitigar esse problema.

A Cemig tem planos de investir R$ 6,7 bilhões em 2026 na modernização e expansão do sistema elétrico. Até 2030, o plano é investir R$ 44 bilhões. A empresa está entre os principais ativos que o Estado pretende transformar em uma corporação (empresa com controle pulverizado na bolsa) para em seguida transferir uma participação para a União. O projeto faz parte do plano para reduzir parte do endividamento de R$ 187 bilhões com a União. Minas Gerais precisa diminuir a dívida em 20% para abater juros, no âmbito do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag).

A privatização da Cemig enfrenta resistência. Recentemente, o presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, deputado Tadeu Leite (MDB), disse não haver “clima” para votar o projeto de privatização da Cemig por ser ano eleitoral, o que pode retardar os planos da gestão do governador Romeu Zema (Novo) de concluir o processo ainda neste ano. Mais adiantado está o processo de privatização da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). A expectativa do governo é realizar a oferta pública de distribuição secundária de ações ainda no primeiro semestre.

Ao todo, o Estado ofereceu à União a venda ou transferência de 210 imóveis, incluindo hospitais, centros de pesquisa e a Cidade Administrativa, atual sede do governo, além da federalização da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge) com 5% de participação na Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig) e da Minas Gerais Participações (MGI).

Aluizio Periquito Neto, McCain Brasil: "O estado é um polo agrícola de grande relevância" — Foto: Ricardo Godoy/Divulgação
Aluizio Periquito Neto, McCain Brasil: “O estado é um polo agrícola de grande relevância” — Foto: Ricardo Godoy/Divulgação

Ao mesmo tempo que tenta desatar o nó das finanças públicas para conseguir voltar a realizar investimentos de maior porte, o governo vem avançando nos projetos de concessão de rodovias e ferrovias. A intenção é licitar pelo menos três projetos rodoviários em 2026: os leilões de concessão do Lote Noroeste (chamado de Nova Fronteira Agrícola), da Ponte Delfinópolis-Cássia e do Lote Zona da Mata. A Secretaria de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias de Minas Gerais estima que exista um potencial de 488 empreendimentos de infraestrutura no Estado, com capacidade de gerar R$ 500 bilhões em investimentos.

No entanto, o projeto de concessão do Lote Noroeste sofreu um revés recente. Em fevereiro, o governo suspendeu o edital de licitação, após o Ministério dos Transportes negar a transferência para o Estado de trecho da BR-365 entre Patrocínio, Patos de Minas e o entroncamento com a BR-040, em Luizlândia do Oeste. A rodovia é administrada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). O contrato de concessão previa investimentos de R$ 7,5 bilhões em 30 anos e incluía 767 quilômetros de rodovias, com trechos da BR-365, MGC-496, MG-408 e MG-181.

No segmento ferroviário, o governo estadual prevê realizar em abril o leilão do Corredor Minas-Rio, trecho que integra a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) e que liga Arcos (MG) a Angra dos Reis (RJ). Atualmente, o trecho está desativado por falta de carga. Com duas linhas totalizando 740 quilômetros de extensão, o Corredor Minas-Rio deve receber investimentos para fazer o escoamento de café, produção siderúrgica e calcário do Estado e auxiliar no transporte urbano, além de ter potencial de se tornar um eixo turístico.

Já a renovação da concessão da FCA, operada pela VLI, está em via de ser concluída. A concessão expira em agosto de 2026. O CEO da VLI, Fábio Marchiori, estima que serão necessários mais de R$ 30 bilhões em investimentos na renovação da ferrovia. Em 2026, a empresa prevê investimento de R$ 1,2 bilhão na ferrovia. A ideia é que a VLI destine os recursos para construção e melhoria de mais de 4 mil quilômetros de trilhos. Outros 2,5 mil quilômetros da malha da FCA, incluindo o Corredor Minas-Rio, serão devolvidos.

Mais dois grandes projetos logísticos devem impulsionar o crescimento econômico do Estado. Um deles é a construção do Rodoanel Metropolitano de Belo Horizonte, de 100 quilômetros, ligando 11 cidades e que tem investimento previsto de R$ 5,07 bilhões entre recursos públicos e privados. Outro é a construção da Linha 2 do Metrô da região metropolitana de Belo Horizonte e a expansão da Linha 1. Em fevereiro de 2026, o governo inaugurou a Estação Novo Eldorado, parte da expansão da Linha 1, que vai acrescentar 1,7 quilômetro à malha metroviária. A Linha 2 terá 10,5 quilômetros de extensão e sete estações. As obras estão em andamento e a previsão é que esteja em pleno funcionamento em 2028.

Nadim Donato, presidente da Fecomercio-MG: "Maior endividamento das famílias em 2025 vai ter reflexo negativo em 2026" — Foto: Lucas Peroni/Divulgação
Nadim Donato, presidente da Fecomercio-MG: “Maior endividamento das famílias em 2025 vai ter reflexo negativo em 2026” — Foto: Lucas Peroni/Divulgação

No agronegócio — outra parte muito relevante da economia mineira —, além das tradicionais atividades, como a produção leiteira, vem ocorrendo uma diversificação dos plantios. “A vantagem de Minas é a diversidade. Já nos tornamos um dos maiores produtores de laranja e estamos entrando na produção de cacau e café conilon”, afirma Antônio Pitangui de Salvo, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg). A entidade vê como desafios para a expansão do setor os juros altos para crédito rural e a falta de seguro rural subsidiado pelo governo — problemas comuns aos agricultores de todo o país.

Mesmo com esses desafios, o Estado tem atraído investimentos importantes no agronegócio. A McCain, por exemplo, anunciou aporte de R$ 1,8 bilhão para ampliar a fábrica de Araxá, dobrando a capacidade produtiva no país. “O Estado é um polo agrícola de grande relevância, oferecendo proximidade com matéria-prima de alta qualidade, essencial para a produção de nossas batatas. Isso otimiza nossa cadeia de suprimentos, garantindo fornecimento contínuo, além de fortalecer o relacionamento com os produtores locais”, afirma Aluízio Periquito Neto, diretor-geral do grupo McCain Brasil. A posição geográfica, próxima aos maiores centros consumidores do país, também favorece a aposta na região, segundo o executivo.

Para 2026, a expectativa da Faemg é que o agronegócio mineiro mantenha um ritmo de crescimento acima de 10%. “Este é um ano de otimismo com cautela, porque a sinalização é de uma boa safra, mas com margens muito apertadas”, afirma Salvo. Ele cita como fatores de atenção os preços deprimidos da soja, do milho e do leite e a sinalização de queda nos preços internacionais do café. Do lado positivo, há expectativa de crescimento na produção de cana e agroflorestal. A pecuária de corte deve ser favorecida pelos preços firmes e crescentes, avalia.

Outro importante motor da economia mineira, o setor de comércio deve ter desempenho resiliente em 2026, sustentado pelo mercado de trabalho ainda aquecido, embora com menor intensidade do que em anos anteriores. É essa a expectativa de Nadim Donato, presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio-MG). A entidade projeta crescimento de 1% neste ano, sustentado por vendas em drogarias, supermercados e comércio eletrônico. “Nós tivemos em 2025 um maior endividamento das famílias, que vai refletir negativamente em 2026, devendo prejudicar o comércio. Além disso, estamos tendo um aumento da inadimplência, aliado a uma taxa de juros altíssima, que dificulta a renegociação das dívidas e impede o aumento das compras”, afirma Donato.

A economia mineira como um todo deve ter encerrado 2025 com aumento de 2% do PIB e pode crescer entre 2% e 2,4% em 2026, na estimativa de Pio, da Fiemg. “Esse desempenho reflete um ambiente de juros ainda elevados, que impõe restrições ao crédito, ao consumo e ao investimento produtivo. Além disso, a dinâmica da dívida pública e as incertezas fiscais reduzem o espaço para uma queda mais rápida e consistente das taxas de juros, prolongando o custo elevado do capital.” Esse cenário afeta especialmente a indústria, que deve ter incremento de 1,4% em 2026, após aumento de 1,6% em 2025.

Para o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, as incertezas com eleição e alta taxa de juros são fatores que na prática tornam mais difícil uma mudança do cenário. Ele pondera que, ainda assim, a indústria mineira cresce com investimentos e oportunidades significativas em áreas como infraestrutura, minerais críticos e energias renováveis. “A gente vê um cenário mais conservador neste ano, fruto das dificuldades econômicas e das políticas públicas instauradas”, diz o executivo. Roscoe cita como fator positivo a aprovação recente de medidas antidumping contra o aço importado da China. Outro segmento com perspectiva favorável é o da construção civil, favorecido pelas medidas de estímulo ao crédito imobiliário e ajustes nas condições de financiamento habitacional.

[Fonte Original]

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