20.5 C
Brasília
terça-feira, março 17, 2026

‘Não vivemos um cenário como este em 50 anos’

- Advertisement -spot_imgspot_img
- Advertisement -spot_imgspot_img

Baseado em Houston, um dos principais centros da indústria de petróleo no mundo, o analista da consultoria Hedgepoint, Daniel Osorio, avalia que o impacto da guerra no Oriente Médio deixa o cenário de petróleo no pior contexto em 50 anos: “Mesmo que a guerra acabe amanhã, o preço do petróleo não vai cair de imediato. Há reflexos nos fretes e nos seguros que só vão arrefecer quando a percepção de risco diminuir, e isso deve demorar”, disse Osorio ao Valor.

Na visão do especialista, o conflito causa um problema de liquidez nos mercados: “Clientes estão vendo a situação como grave, assim como vimos na pandemia e no começo da guerra entre Rússia e Ucrânia. É como se agora os cálculos de todas as petroleiras e bancos estivessem errados. A liquidez será um problema para a indústria. Se os bancos não medirem os riscos, não haverá dinheiro para cobrir os clientes.”

Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o petróleo tem mantido trajetória ascendente. Conforme levantamento do Valor Data, o Brent subiu 26,1% desde 2 de março até o fechamento de ontem. Nesta segunda-feira (16), a commodity fechou em US$ 100,21 por barril, queda de 2,84%.

“Os dias têm sido marcados por muita volatilidade. Se pararmos de olhar por alguns minutos, tudo pode mudar. Se saímos para almoçar, na volta pode ser que a cotação tenha virado. O mercado está estressado”, resumiu Osorio. Na visão dele, a cotação do petróleo tem variado ao sabor das notícias, o que torna os movimentos pouco sustentáveis: “As empresas podem estar fazendo mais dinheiro, mas vão passar a vender menos. Ao mesmo tempo, não é bom ter um preço alto por tanto tempo.”

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Valor: Qual tem sido a sua visão sobre a guerra?

Daniel Osorio: Tem sido complicado. Não vimos um cenário como este nos últimos 50 anos. Acredito que desde o embargo [ao Irã] dos anos 1970.

Valor: Quais elementos têm chamado mais sua atenção?

Osorio: São alguns componentes que movem o preço do petróleo. O primeiro é o prêmio de risco. Não temos visto a cotação se mover por oferta e demanda. É basicamente o risco. O mercado tem tentado precificar esse risco. Temos visto o ‘spread’ nos mercados futuros, a diferença de um contrato para outro. A variação do preço do contrato para maio em relação ao contrato para dezembro tem diminuído. Isso nos diz que o risco está se espalhando para contratos mais longos. Há expectativa de que os reflexos tenham efeitos prolongados.

Valor: Que outros componentes?

Osorio: O segundo ponto é o preço real. Apesar da avaliação de risco, uma parte da oferta de petróleo está restrita pelo fechamento do Estreito de Ormuz. Os preços de frete têm aumentado e contribuído para isso também, com os seguros cada vez mais caros.

Valor: Há alguma perspectiva?

Osorio: Ainda que a guerra acabe amanhã, não vejo a cotação voltando para US$ 60. Por conta desses dois pontos: o risco e a restrição nas entregas. Outro fator que tem levantado preocupação é a capacidade de estoque dos países mais afetados pelo fechamento de Ormuz. Não tem como continuar produzindo se não há como entregar. O Iraque parou cerca de 70% da produção porque os estoques estão cheios e não estão conseguindo escoar. A situação no Kuwait, nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita é parecida, mas com proporções diferentes. A Arábia Saudita é a maior produção e deve chegar a esse nível no fim de março. O país conseguiu escoar parte da produção por oleodutos, mas não é o suficiente.

Valor: E como está a situação no Estreito de Ormuz?

Osorio: O Irã não tem demonstrado estar disponível para reabrir. A tentativa de Donald Trump de pedir ajuda a outros países para escoltar os navios não deve funcionar. Comandantes de navios têm dito que os ataques surgem por toda parte, é difícil se proteger totalmente. Nenhum comandante vai querer arriscar a própria vida e da tripulação dessa forma. As tentativas de países de amenizar a situação com a liberação de reservas estratégicas também devem ter efeitos limitados. Os Estados Unidos dizerem isso, para o mercado, é um sinal de que os americanos esperam que a guerra irá se estender.

Valor: Qual a sua visão sobre o Brasil neste cenário?

Osorio: O Brasil está em uma boa posição. Primeiro, por ser autossuficiente. Segundo, por ser um dos poucos países que podem ajustar a mistura de biocombustíveis para reduzir a dependência de produto importado. Como o país produz etanol e biodiesel, essa mudança pode ser simples. Isso diz respeito a aumento de oferta. Outras medidas, como reduzir impostos, têm efeitos limitados. Podem mitigar os efeitos, mas não resolve. Estamos em ano de eleição, o presidente Lula vai tentar evitar que os preços disparem. Trump tem o mesmo objetivo, dado que há eleições de meio de mandato em novembro. Trump precisa encontrar solução para os altos preços de energia. Mas parece que ele está afundado nessa guerra. O Irã é um país enorme, com grande população e um mercado de petróleo importante. Não será fácil terminar essa guerra.

Valor: Como o senhor tem percebido o clima nos Estados Unidos?

Osorio: A maior preocupação é sobre liquidez. O mercado tem determinadas métricas de risco. Vimos momentos em que as commodities perderam essas métricas, em situações pontuais como a pandemia ou o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Na semana passada, a cotação do petróleo Brent variou de US$ 120 a US$ 80. Esses movimentos bruscos criam um problema para qualquer cálculo de risco que um banco poderia fazer. Uma companhia de petróleo ou uma trading precisa de um fluxo de caixa para operar, para entender quanto pagar por uma carga, qual volume deve vender. Se uma conta como essas se tornar errada em 30% de um dia para o outro, é necessário fazer ajustes. Todos agora estão precisando de mais liquidez e para isso precisamos dos bancos. A liquidez vai ser uma preocupação para a indústria. Se os bancos não conseguirem medir os riscos propriamente, não vão ter dinheiro suficiente para emprestar aos clientes.

Valor: Como estão as petroleiras neste momento de preços altos?

Osorio: Petroleiras gostam dos preços altos, mas não dessa forma. Cada vez que a cotação sobe muito, as pessoas começam a procurar novas soluções para energia, aumenta a demanda por carros elétricos e por outras tecnologias. Há como substituir o petróleo, mas não será barato. Um Brent a US$ 120 não é tão caro assim. Não acho também que as empresas de petróleo gostem dessa volatilidade. É muita movimentação e estresse. Preços altos podem ser bons, mas há uma linha tênue entre ser positivo e quebrar o mercado. Se quebrar o mercado, começa a reduzir a demanda. Os preços são satisfatórios para as petroleiras se ficarem em torno de US$ 90 a US$ 100. Acima desse patamar, se torna muito estressante. Todos preferem a estabilidade. O nível dos US$ 100 não é muito estável. E um preço muito alto afasta a demanda. As empresas podem estar fazendo mais dinheiro, mas vão passar a vender menos. Muitas dessas companhias vão aproveitar as oportunidades e podem fazer ‘hedge’ agora. Mas, ao mesmo tempo, não é bom ter um preço alto por tanto tempo.

Valor: O senhor enxerga alguma solução a curto prazo?

Osorio: Não vejo como a situação será resolvida. Enquanto o Estreito de Ormuz continuar fechado, os países vão seguir reduzindo produção. Se chegarmos ao fim de março com Ormuz ainda fechado, podemos ver o Brent acima dos US$ 120 por barril. A única solução é reabrir o Estreito de Ormuz. A última vez que tivemos o petróleo a esses níveis foi em 2022. O risco está muito alto mesmo. A situação é grave.

[Fonte Original]

- Advertisement -spot_imgspot_img

Destaques

- Advertisement -spot_img

Últimas Notícias

- Advertisement -spot_img