Organizações internacionais previam uma desaceleração do comércio global em 2026, ainda por causa da elevação de tarifas, efeito de mudanças de políticas comerciais e do acúmulo de riscos geopolíticos. Mas havia um ligeiro otimismo – até que estourou, no sábado, uma nova guerra.
Em 2025, o comércio mundial cresceu 4,4% em volume, segundo cálculos do Escritório de Análise de Política Econômica (CPB). Em valor, os fluxos comerciais internacionais superaram US$ 35 trilhões, ou US$ 2,2 trilhões a mais do que no ano anterior, conforme a Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).
Para 2026, o consenso era de que essas cifras deveriam ser mais moderadas. Em outubro, a Organização Mundial do Comércio (OMC) projetou crescimento de apenas 0,4% no comércio para este ano.
Agora, com o bombardeio dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e a retaliação iraniana no Oriente Médio, todas as previsões estão sendo revistas. O cenário mudou bastante. Os riscos de um novo choque forte na economia internacional são elevados.
Essa nova guerra já começa a ter impacto no comércio internacional, constata a diretora da divisão de Comércio Internacional e Commodities da Unctad, Luz Maria de la Mora.
Ela observa que o transporte marítimo, responsável por 80% das trocas globais, já enfrenta custos adicionais. Os produtos mais comercializados pelo estreito de Hormuz são petróleo e gás natural. Ainda não se sabe como a situação nessa área vital para o comércio global de energia será resolvida, e o conflito pode elevar a inflação.
As novas incertezas influenciam o comércio, as decisões de investimento e as cadeias de valor. Afetam a capacidade de países, empresas e consumidores definirem o rumo de suas ações.
Para Luz Maria de la Mora, que foi vice-ministra de Comércio do México quando Donald Trump exerceu seu primeiro mandato na Casa Branca, a situação pode ser semelhante a outros choques recentes. Ela lembra o forte impacto inflacionário durante a pandemia da covid-19, e, na invasão da Ucrânia pela Rússia, sérias perturbações no transporte de grãos e fertilizantes, alta de preços e efeitos negativos nas economias dependentes desses produtos.
Quanto mais rápido o conflito entre EUA, Israel e Irã for resolvido, menor será o efeito sobre a economia mundial. Quanto mais prolongado, maior o estrago. Em todo o caso, mesmo para países exportadores de petróleo e gás natural, a situação exige cautela. Eles podem se beneficiar dos preços mais altos, enquanto o impacto é forte sobre as finanças públicas e privadas de países importadores. Mas tampouco os exportadores de petróleo e gás estão isentos dos efeitos dos preços internacionais mais altos de produtos que utilizam essas commodities.
É difícil ignorar que hoje o comércio é tanto uma questão de segurança quanto uma questão econômica. E países se preparam para a fragmentação geoeconômica. Isso inclui acelerar a diversificação – tanto para vender a outros mercados quanto para ampliar cadeias de abastecimento.
A interdependência econômica aprofundou-se substancialmente nas últimas décadas, criando redes complexas de fluxos comerciais transfronteiriços. Mas o que antes era visto como fonte de estabilidade tornou-se fonte de vulnerabilidade, também pela instrumentalização deliberada das dependências, como destacou recentemente a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde.
A importância do acordo comercial União Europeia-Mercosul e de sua entrada imediata em vigor está ainda mais clara nesse cenário. O BCE fez um estudo sobre produtos difíceis de diversificar e substituir. E concluiu que uma queda abrupta de 50% no abastecimento proveniente de fornecedores geopoliticamente distantes reduziria o valor agregado da indústria transformadora europeia em 2% a 3%, com impacto concentrado nos setores de equipamentos elétricos, produtos químicos e eletrônicos.
Ou seja, é mais do que nunca necessário contar com parceiros confiáveis. Mesmo se dentro de alianças ainda há riscos. Parceiros confiáveis nem sempre permanecem assim, lembra Lagarde, sem mencionar os EUA.
À medida que as principais economias diversificam suas parcerias comerciais, emergem os chamados países conectores – economias com fortes laços comerciais e de investimento com Estados Unidos, China e União Europeia -, ganhando importância na facilitação de fluxos comerciais indiretos entre os três blocos.
Índia, Tailândia, Vietnã, Malásia, Marrocos e México estão entre os que mais se beneficiam das tentativas da UE e dos EUA para diversificar relações comerciais e reduzir a dependência da China, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A localização estratégica e os custos de produção competitivos permitem que esses países aproveitem as novas prioridades de empresas estrangeiras.
A reconfiguração das cadeias de abastecimento se reflete assim na mudança dos padrões de investimento estrangeiro direto (IED). O Vietnã emergiu como novo centro para fabricantes de chips dos EUA; o México e a Indonésia participam de parcerias criadas pela Lei Chips e Ciência dos EUA de 2022; e o Marrocos atrai mais empresas com seu acesso preferencial aos EUA, à União Europeia e a países do Golfo.
O Brasil deve levar tudo isso em conta na diversificação e promoção de suas exportações.
Assis Moreira é correspondente em Genebra e escreve quinzenalmente
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