A Natura deu um passo importante em seu processo de reestruturação ao anunciar uma profunda reformulação em sua governança, marcada pela saída dos fundadores do conselho de administração e pela entrada da gestora Advent como acionista de referência.
O movimento foi amplamente bem recebido por analistas de mercado, que classificaram os anúncios como um “reset institucional” e um sinal de amadurecimento da companhia, que entra em fase focada na melhoria de rentabilidade e no crescimento das operações das marcas Natura e Avon na América Latina.
Pelo acordo, a Advent poderá adquirir entre 8% e 10% de participação acionária na Natura, por meio de compra direta de papéis no mercado em até seis meses, a um preço alvo médio de R$ 9,75. Isso lhe dará, ao final, o direito de indicar até dois nomes para o conselho de administração.
Segundo o Santander, essa estratégia deve estabelecer um piso informal de preço para as ações da Natura, ao menos até a conclusão da montagem de posição, enquanto o BTG Pactual destaca que a presença da gestora adiciona valor e dá mais credibilidade ao processo de reestruturação.
O Bradesco BBI ressalta a expertise da gestora de private equity no setor de beleza brasileiro, com investimentos recentes em marcas como Skala e Lola From Rio, o que pode injetar maior eficiência operacional na companhia e trazer visões estratégicas diferentes.
Contudo, o Citi pontua que não há cláusulas de direitos extras caso a gestora ultrapasse o teto de 10%, e o Bradesco alerta que o compromisso de compra pode ser rescindido se a meta de 8% não for alcançada em seis meses ou se as ações superarem o limite de R$ 9,75 por um período de três meses.
Ao mesmo tempo, Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passos, fundadores da Natura, deixarão o conselho de administração e passarão para um colegiado consultivo, sendo substituídos por nomes ligados ao mercado, incluindo as executivas independentes Flávia Almeida e Gabriela Comazzetto.
Para a XP e o J.P. Morgan, a mudança é um passo natural que alinha os interesses da companhia aos dos acionistas minoritários, sem causar disrupções na cultura da Natura, visto que o bloco original assinou um acordo de acionistas com validade de dez anos.
Os analistas apontam que, com os anúncios, a Natura deixa para trás a fase turbulenta em que a desalavancagem e sustentabilidade financeira era a única prioridade da diretoria, voltando-se para o crescimento na América Latina com uma rigorosa disciplina de alocação de capital.
O Itaú BBA observa que a empresa já vem realizando investimentos substanciais nas marcas, mas que a receita do primeiro trimestre ainda deve refletir fraqueza, transferindo para os resultados do segundo trimestre a prova real de que essas iniciativas estão ganhando tração.
Apesar dos desafios inerentes ao setor, como a concorrência global e a sensibilidade aos preços das commodities, o tom geral do mercado é construtivo, com Itaú BBA e XP mantendo recomendação de compra para os papéis da Natura.
Já o Citi, BTG, J.P. Morgan e Santander seguem com recomendação neutra, aguardando sinais mais claros de ganho de participação de mercado, mas reconhecendo que a nova governança coloca a Natura em uma rota mais previsível e promissora.
(Colaboraram Adriana Peraita e Victor Meneses)