O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, finalmente sinalizou o fim da guerra contra o Irã, que está afetando a economia e os mercados globais. Mas restam muitas incertezas, alimentadas principalmente pela comunicação confusa do governo americano e pela aparente divergência de objetivos em relação a Israel. Enquanto essas dúvidas persistirem, os investidores continuarão cautelosos quanto à possibilidade de normalização da situação no Oriente Médio. A indefinição de Trump insinua o pior cenário: o de que os EUA entraram em uma guerra em uma região vital para o fornecimento de petróleo sem objetivos claros e não sabem como sairão dela.
Trump despertou otimismo na segunda-feira, ao anunciar, após dez dias de ataque ao Irã, que o conflito vai acabar “muito em breve”, ainda que não nesta semana. Ele descreveu a guerra como “praticamente completa”. Isso fez com que o petróleo tipo Brent recuasse do pico de cerca de US$ 120 o barril para cerca de US$ 85 na terça, e ontem as cotações voltaram a subir para US$ 90, depois de muita volatilidade. Ainda assim, é uma cotação 50% superior aos US$ 60 do início do ano.
No entanto, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, havia dito no domingo que “isto é apenas o começo”, referindo-se à neutralização das forças iranianas. Questionado sobre essa declaração, Trump desconversou: “Bem, acho que se pode dizer ambas as coisas. O começo, é o começo da construção de um novo país”, sem dar mais detalhes. No seu briefing de ontem, Hegseth não confirmou o fim iminente dos ataques. Afirmou apenas que caberá ao presidente “determinar a fase final dos objetivos”. Já o premiê de Israel, Benyamin Netanyahu, o idealizador desta guerra, afirmou também na segunda-feira que “estamos quebrando os ossos deles [o Irã] e ainda não terminamos”.
Trump demonstrou no seu primeiro ano de governo um padrão de recuar quando o custo de alguma medida torna-se alto demais. Foi assim com as sanções à China, com a ameaça de tomar a Groenlândia e até com o tarifaço ao Brasil.
Aparentemente, esse custo já pode estar perto do limite no caso do conflito com o Irã. O preço médio da gasolina nos EUA passou US$ 2,99 o galão, na véspera do ataque, para
US$ 3,54 na terça. Isso ameaça causar um repique inflacionário, que pode retardar ainda mais a redução dos juros pelo Fed. A economia americana, que já vinha desacelerando antes da guerra, corre o risco de cair numa recessão caso os preços dos combustíveis continuem a subir. Isso eleva o mau humor dos americanos num ano eleitoral.
Além disso, a guerra não vem trazendo dividendos políticos a Trump. Ao contrário de outros presidentes, cujas taxas de aprovação subiram fortemente após triunfos militares, Trump não ganhou nada em termos de popularidade desta vez, mesmo com o sucesso em matar boa parte da cúpula política e militar do Irã, inclusive o líder supremo, Ali Khamenei. Pesquisas mostram que a guerra contra o Irã tem o menor apoio inicial de todos os conflitos em que os EUA se envolveram desde a II Guerra Mundial.
Para encerrar os ataques, o presidente provavelmente proclamará vitória. De certo modo, ele já começou a fazer isso na segunda-feira, ao dizer que os objetivos da guerra foram praticamente atingidos. Pela primeira vez, descreveu os ataques como “incursão de curto prazo” (e não mais com prazo indeterminado), com o objetivo de eliminar “algum mal” (mas não todo o mal). E citou a destruição infligida à Marinha e aos programas nuclear, de mísseis e de drones iranianos. Ontem, afirmou que a guerra se encerrará “quando eu quiser”.
Trump começou a desconversar sobre o seu objetivo declarado de trocar o regime no Irã, que parece inalcançável neste momento. Também não falou sobre a tentativa frustrada de participar da escolha do novo líder supremo, que será o filho de Khamenei, nem da exigência de “rendição incondicional” do país, que mantém uma postura de confronto. E ignorou também o fato de que o Estreito de Ormuz, por onde passam todos os dias 20% do petróleo consumido globalmente, além de outras commodities vitais, como gás e fertilizantes, continua fechado ao tráfego marítimo, apesar das garantias que os EUA ofereceram. Por enquanto, a guerra segue comprovando que, mesmo sob intenso ataque da maior potência global, Teerã é capaz de paralisar a navegação no estreito, algo que o país jamais havia feito.
O cenário ideal para os EUA, de que o Irã se tornasse uma Venezuela 2.0, com a instalação de um líder cooperativo no país, vai parecendo cada vez mais improvável. Os líderes iranianos têm pouco a ver com os cleptocratas venezuelanos. São fundamentalistas religiosos, que preferem morrer a capitular.
Assim, apesar do otimismo que Trump procurou injetar nos mercados com um aceno ao fim da guerra, muitas incertezas persistem. “Eu tenho um plano para tudo, OK”, disse o presidente, ao ser indagado sobre a alta dos combustíveis. Pode até ser que tenha, mas enquanto os investidores não conseguirem enxergar qual é afinal esse plano, os mercados continuarão intranquilos e sensíveis ao risco de grave crise no abastecimento de commodities vitais para a economia global.